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Comprar ao som dos canhões, máxima de Warren Buffet, vale para a Bolsa brasileira

Escalada da guerra no Oriente Médio abre janela de oportunidades para a compra de ações brasileiras com fundamentos sólidos e valuations descontados

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Guerra Bolsa brasileira

Avanço das tensões no Oriente Médio aumentam volatilidade global, mas reforçam a atratividade relativa de setores relevantes para a bolsa brasileira, como petróleo, bancos, mineração e utilities | Foto: Getty Images

O agravamento do conflito no Oriente Médio voltou a pressionar os mercados globais, com o barril do petróleo Brent se aproximando de US$ 100. O ambiente de aversão ao risco interrompeu parte do movimento favorável aos mercados emergentes observado no início do ano e reacendeu dúvidas sobre os impactos inflacionários da geopolítica sobre a trajetória dos juros globais.

Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, porém, o choque atual não invalida a tese construtiva para a bolsa brasileira. Ao contrário: em momentos de estresse, ativos de empresas com fundamentos robustos tendem a negociar com desconto, criando oportunidades para o investidor de médio e longo prazo.

A lógica remete à estratégia consagrada no mercado de “comprar ao som dos canhões”, segundo a qual períodos de incerteza e forte ruído costumam abrir pontos de entrada mais atraentes.

“Compre ao som de canhões e venda ao som de violinos”

A frase “compre ao som dos canhões e venda ao som dos violinos” é atribuída ao megainvestidor Warren Buffett, mas foi cunhada pelo barão Nathan Rothschild. Refere-se à estatégia de investir em momentos de pânico no mercado e vender quando há otimismo. Buffett defende comprar boas empresas com desconto quando o medo domina, focando no longo prazo.

Rothschild, importante financista do início do século XIX, acumulou grande fortuna ao aproveitar a crise do mercado britânico, que temia a vitória da França na batalha de Waterloo, aquela em que Napoleão perdeu guerra.

Ibovespa deve chegar a 220 mil pontos no fim de 2026

O Safra elevou seu preço-alvo para o Ibovespa no fim de 2026 para 220 mil pontos, refletindo a combinação de revisão para cima da projeção de lucros e de um múltiplo-alvo mais elevado. A nova estimativa considera lucro projetado de 22.106 pontos em 2027, acima dos 21.283 pontos previstos anteriormente, e múltiplo preço/lucro de 10 vezes, ante 9,3 vezes na projeção anterior.

O novo parâmetro está em linha com a média dos últimos dez anos e ainda abaixo dos níveis observados em ciclos mais favoráveis de corte de juros, quando a bolsa chegou a negociar a 11 vezes lucro.

Choque do petróleo tende a ser relevante, mas historicamente temporário

A piora do quadro geopolítico decorre da intensificação dos confrontos entre Israel e Irã, da ausência de um cessar-fogo e dos temores de disrupção na oferta de petróleo. O mercado acompanha ainda discussões no Irã sobre a cobrança de taxas para navios que cruzam o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas para o comércio global de energia. Esse conjunto de fatores sustenta a alta da commodity e amplia as incertezas sobre inflação e política monetária.

Histórico favorece normalização após choques geopolíticos

Segundo a análise do Safra, episódios anteriores de conflito com impacto sobre o petróleo mostram que esses choques tendem a perder força ao longo do tempo, à medida que a oferta se ajusta e o prêmio de risco geopolítico diminui.

Se esse padrão voltar a se repetir, a tendência é de reacomodação gradual dos preços da energia e retomada dos vetores de mercado que prevaleciam antes da escalada militar.

Esse ponto é central para a tese sobre a bolsa brasileira. Antes da piora do conflito, os mercados emergentes vinham sendo favorecidos por um dólar mais fraco, em meio às incertezas provocadas pela política comercial americana e por questionamentos sobre a sustentabilidade do ciclo de investimentos em grandes empresas de tecnologia. A guerra interrompeu esse movimento, mas não necessariamente o encerrou.

Fundamentos sustentam visão positiva para o mercado brasileiro

Passado o momento mais agudo de tensão, o Safra avalia que o mercado acionário local tende a voltar a precificar fundamentos domésticos e relativos ainda favoráveis. A instituição destaca três pilares para essa visão.

Valuation descontado em relação aos emergentes

A bolsa brasileira segue negociando a múltiplos inferiores aos de outros mercados emergentes. Pelas estimativas do banco, o mercado local opera a 9,5 vezes o lucro projetado para 2026 e a 8,4 vezes o lucro estimado para 2027, abaixo das 11,6 vezes e 10 vezes, respectivamente, observadas no universo de emergentes. Em um ambiente de normalização parcial da percepção de risco, esse desconto pode abrir espaço para reprecificação.

Queda de juros ainda deve beneficiar lucros

Embora a alta do petróleo possa limitar o ritmo de flexibilização monetária, a expectativa ainda é de continuidade do ciclo de queda de juros no Brasil. Esse movimento tende a favorecer setores mais sensíveis ao custo de capital, estimular atividade e melhorar a dinâmica de resultados corporativos nos próximos anos.

Rotação global pode seguir favorecendo emergentes

Outro vetor relevante é a migração de recursos de mercados desenvolvidos para emergentes, em busca de valuations mais baixos e maior exposição a setores ligados à economia real. Nesse contexto, o Brasil reúne características que podem atrair fluxo, sobretudo por seu peso em segmentos como commodities, sistema financeiro, infraestrutura e utilidades públicas.

Como o investidor pode se posicionar

A recomendação do Safra para capturar esse cenário passa por uma carteira diversificada, com exposição a diferentes fatores de mercado. A referência indicada pelo banco é a Carteira Top 10 Ações, que combina três frentes principais:

  • setores defensivos, como utilidades básicas e telecomunicações;
  • ações líquidas com potencial de capturar fluxo internacional, como bancos, petróleo e gás, siderurgia e mineração;
  • empresas sensíveis ao ciclo de juros, como construção civil, shoppings e transportes.

O desempenho recente da estratégia reforça essa leitura. Segundo o banco, o portfólio acumula alta de 15,54% no ano, acima dos 11,97% do Ibovespa, e 47,75% em 12 meses, ante 38,5% do índice.

Efeitos imediatos no Brasil são mistos

No curto prazo, a guerra tende a manter os ativos brasileiros sob volatilidade, especialmente diante da pressão sobre juros globais e câmbio. Ainda assim, o efeito não é linear. A valorização do petróleo pode funcionar como contrapeso para o mercado local ao favorecer ações da Petrobras, melhorar a percepção sobre a balança comercial e oferecer algum suporte ao real.

Na abertura do dia retratado no material, o EWZ, principal ETF do Brasil em Nova York, recuava cerca de 1,12% no pré-mercado. Ao mesmo tempo, os ADRs da Petrobras avançavam moderadamente, enquanto os da Vale caíam mais de 1%, sinalizando uma reação setorialmente heterogênea dos investidores ao novo quadro geopolítico.

Principais riscos para a tese construtiva

Apesar da visão positiva para a bolsa brasileira, o Safra ressalta que a estratégia não está isenta de riscos. Entre os principais pontos de atenção estão:

  • desaceleração mais forte da economia global, com impacto sobre commodities;
  • deterioração fiscal adicional no Brasil;
  • crescimento menor do PIB dos Estados Unidos;
  • agravamento geopolítico com novo choque inflacionário;
  • política monetária mais austera nos EUA;
  • mudanças tributárias no Brasil;
  • ruptura do padrão histórico de normalização dos ativos após choques geopolíticos pontuais.

Uma oportunidade em meio ao ruído

A conclusão do Safra é que, embora a guerra no Oriente Médio imponha ruído relevante ao curto prazo e exija cautela na gestão de risco, o estresse atual não destrói os fundamentos da tese para ações brasileiras.

Com valuations comprimidos, perspectiva ainda favorável para juros domésticos e potencial de retomada do fluxo para emergentes, a volatilidade pode representar mais uma janela de entrada do que uma razão para abandono de posição.

Em outras palavras, para o investidor disposto a atravessar um ambiente mais turbulento, o momento pode reforçar a lógica de seleção criteriosa de ativos e construção de portfólio com equilíbrio entre defesa, liquidez e sensibilidade ao ciclo doméstico.

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