O rumo da Bolsa brasileira na visão dos gestores de equities
Gestores de fundos de equities analisaram as perspectivas para os diferentes setores listados na Bolsa em painel na J. Safra Investment Conference
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Bruno Garcia, Fabiano Custódio, e Alexandre Salfatis foram moderados por Tiago Valent, Head Institutional Equity Sales, J. Safra | Foto: Divulgação
A bolsa brasileira ainda combina valuations atrativos, crescimento de lucros e posicionamento muito baixo de investidores locais e estrangeiros. No curto prazo, porém, o ambiente é binário por causa das eleições, enquanto juros americanos elevados, tensões geopolíticas e a concentração dos fluxos globais no tema de inteligência artificial pressionam os mercados emergentes.
As perspectivas para o mercado de ações no Brasil e no exterior foram o tema central do painel de Gestores de Equities na J. Safra Investment Conference 2026. Bruno Garcia, CIO da Truxt, Fabiano Custódio, CIO da Miles, e Alexandre Salfatis, CIO Equities, Safra Asset apresentaram suas análises com moderação de Tiago Valent, Head Institutional Equity Sales, J. Safra.
Os especialistas apontaram que, em um ambiente global pressionado por juros estruturalmente mais altos e pela concentração de fluxos em tecnologia, o mercado brasileiro se destaca por valuations descontados, crescimento sustentado de lucros e uma alocação historicamente leve de investidores locais e estrangeiros.
No curto prazo, contudo, a imprevisibilidade do cenário eleitoral e a incerteza fiscal recomendam maior seletividade e gestão do risco direcional.
A análise destacou o setor de infraestrutura como a melhor combinação entre proteção operacional no cenário adverso e captura de valor na queda dos juros de longo prazo, especialmente energia elétrica, saneamento, resíduos e concessões rodoviárias. Além disso, a inteligência artificial aparece principalmente como uma oportunidade indireta via expansão de data centers e maior demanda por energia.
O painel concluiu que, superado o risco binário das eleições e ajustada a trajetória fiscal, a recomposição de carteiras dos investidores institucionais e o retorno do capital externo tendem a ser os grandes catalisadores de valorização para a bolsa.
Infraestrutura oferece previsibilidade em cenário adverso
Infraestrutura aparece como um dos setores com melhor assimetria: oferece previsibilidade operacional em um cenário adverso e forte sensibilidade positiva a uma eventual queda dos juros longos. No Brasil, a principal forma de capturar o desenvolvimento da inteligência artificial seria por meio da demanda por energia e da expansão de data centers.
Inteligência artificial, memória e tecnologia
À medida que a inteligência artificial migra do treinamento para a inferência, o consumo de memória aumenta significativamente. Esse movimento tende a se intensificar com modelos mais complexos e agentes que trabalham continuamente por horas ou até dias.
A oferta de memória não consegue responder rapidamente, pois a expansão exige novas fábricas, equipamentos e salas limpas. Por isso, existe boa visibilidade de crescimento da demanda pelos próximos três anos. Apesar de estarem na linha de frente dessa transformação, algumas empresas do setor negociam entre aproximadamente 4x e 6x P/E.
O mercado parece assumir que os lucros atuais são excepcionais e que uma eventual normalização competitiva pressionará preços e margens. A visão apresentada foi menos pessimista, considerando que essas empresas possuem produtos e tecnologias muito mais avançados do que nos ciclos anteriores. O principal risco seria o crescimento das fabricantes chinesas, mas as restrições de acesso a equipamentos e tecnologias de ponta devem limitar essa competição no curto prazo.
Inteligência artificial no Brasil
No Brasil, a exposição à inteligência artificial deve acontecer principalmente por meio de uma segunda derivada: a demanda por energia associada à instalação de data centers.
Nos Estados Unidos, empresas de geração de energia expostas ao tema tiveram forte valorização. O preço da energia aproximadamente dobrou, enquanto PPAs de longo prazo passaram a ser fechados em patamares elevados. Além do preço, existem gargalos importantes para a conexão de novos projetos à rede.
Datacenters no Brasil
O Brasil ainda possui uma desvantagem de aproximadamente 30% no custo de construção de data centers em relação aos Estados Unidos.
O programa REDATA reduz parte dessa diferença ao tratar dos impostos federais sobre equipamentos, mas ainda falta solucionar a parcela relacionada aos tributos estaduais.
A aprovação do programa foi vista como uma sinalização positiva do governo, especialmente porque os estados atualmente arrecadam pouco com essa atividade, dado que a capacidade instalada brasileira ainda é reduzida, próxima de 600 MW.
Preferências setoriais
Energia elétrica e infraestrutura foram apresentadas como exposições adequadas para diferentes cenários, por combinarem previsibilidade, ativos corrigidos pela inflação e capacidade de alocação de capital. Entre os nomes mencionados estão Equatorial, Energisa, Axia Energia, Copel, Sabesp, Copasa, Orizon e Light.
Em petróleo e distribuição de combustíveis, Petrobras, Vibra e Ultrapar foram destacadas pela forte geração de caixa e por características relativamente defensivas. Em concessões rodoviárias, as preferências são EcoRodovias e Motiva. A Motiva possui maior liquidez e menor risco, enquanto a EcoRodovias apresenta maior potencial de valorização.
No setor financeiro, a recomendação é evitar exposição excessiva ao crédito. Qualquer governo deverá enfrentar a necessidade de ajuste fiscal e desaceleração, o que pode pressionar consumidores, inadimplência e instituições mais dependentes de crédito. A preferência está em negócios ligados ao mercado de capitais e em modelos mais diversificados, como B3 e BTG Pactual.
O varejo foi evitado devido às barreiras competitivas reduzidas, aos juros elevados e ao consumidor ainda alavancado. Na construção civil, a baixa renda foi considerada relativamente protegida pela provável continuidade do Minha Casa, Minha Vida, com destaque para Direcional e Tenda. Na média e alta renda, foram mencionadas Cyrela e Moura Dubeux.
Entre os casos mais específicos, foram destacadas Priner, empresa de serviços industriais com exposição relevante à mineração, e Bemobi, empresa de tecnologia que combina crescimento com pagamento de dividendos.
Saneamento e Sabesp
A preferência estrutural é por setores cujos marcos regulatórios foram aprovados recentemente e que ainda possuem uma longa trajetória de investimentos e consolidação.
O setor elétrico serve como referência. Após as reformas do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a participação privada passou de aproximadamente 5% para 85%, o capex cresceu de três a quatro vezes em termos reais e surgiram grandes compounders, como Equatorial e Energisa. A expectativa é que saneamento e resíduos sólidos possam seguir trajetória semelhante.
O Marco do Saneamento foi aprovado em 2020, mas o setor ainda precisa passar por uma transformação profunda. Há necessidade elevada de investimentos e poucos operadores com governança, acesso a capital e capacidade de disputar novos ativos. Sabesp, Copasa e Orizon foram apontadas como empresas bem posicionadas. A Orizon também se beneficia da agenda de encerramento dos lixões e da formalização do setor de resíduos.
A Sabesp foi apresentada como uma oportunidade tanto tática quanto estrutural. A ação ficou aproximadamente 10%–15% atrás do setor de utilities após ruídos no último resultado. A companhia acelerou seu turnaround, substituindo medidores antigos, retirando descontos pouco transparentes e endurecendo os processos de cobrança. Essas mudanças aumentaram reclamações e pressão política, especialmente em ano eleitoral.
No último trimestre, a empresa reduziu parcialmente a velocidade dessas ações. Ao mesmo tempo, as reclamações já recuaram aproximadamente 40% em relação ao pico, sugerindo que a situação está se normalizando.
A companhia investia historicamente perto de R$ 5 bilhões por ano, mas realizou aproximadamente R$ 20 bilhões em investimentos em 2026. Esses ativos começarão a ser remunerados, apoiando crescimento de EBITDA superior a 30% em 2027 e uma expansão média próxima de 25% nos próximos três anos.
A Sabesp negocia perto de 8x EBITDA, enquanto empresas globais de água negociam ao redor de 12x, apesar de crescerem apenas entre 5% e 10%. Como aproximadamente 90% da base de investidores da companhia é estrangeira, a comparação com pares globais tende a ganhar relevância.
Posicionamento dos investidores
O posicionamento reduzido foi apontado como uma das maiores fontes de assimetria para a bolsa brasileira. As pessoas físicas teriam menos de 5% do patrimônio alocado em ações, enquanto os investidores institucionais possuem aproximadamente 6% de alocação em bolsa, perto das mínimas históricas.
A média dos institucionais costuma ficar entre 8% e 10%. Considerando um universo de aproximadamente R$8 trilhões acompanhado pela Anbima, uma alta de 6% para 8% representaria aproximadamente R$160 bilhões de fluxo potencial para ações. Historicamente, essa alocação já chegou perto de 15%.
Os investidores estrangeiros também continuam muito concentrados no mercado americano. Segundo a estimativa apresentada, uma pequena redução desse overweight poderia direcionar entre US$25 bilhões e US$30 bilhões para o Brasil, aproximadamente R$150 bilhões.
Os fluxos recentes ilustram o impacto sobre uma bolsa de liquidez limitada. A entrada de R$45 bilhões em janeiro e fevereiro coincidiu com uma valorização de aproximadamente 17%. Quando o fluxo acumulado chegou a R$75 bilhões, em meados de abril, a alta da bolsa alcançou aproximadamente 23%. Posteriormente, a saída de R$40 bilhões entre abril e agosto foi acompanhada por uma queda de cerca de 16% desde o pico.
O investidor local tende a retornar com uma queda estrutural dos juros e maior previsibilidade. O estrangeiro pode voltar depois da eleição, quando o risco binário for substituído por um cenário mais palpável, ainda que o nível de entrada dependa do resultado eleitoral.
Visão construtiva para a Bolsa brasileira
A visão para a bolsa brasileira é construtiva, mas seletiva. O baixo posicionamento e os valuations ainda atrativos oferecem potencial relevante de valorização, principalmente se houver melhora da percepção fiscal e queda dos juros longos.
Até a eleição, faz sentido controlar o risco direcional. Dentro da bolsa, infraestrutura aparece como a exposição mais equilibrada, combinando defesa operacional, ativos reais, capacidade de consolidação e forte potencial de valorização em um cenário de fechamento da curva de juros.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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