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Figurinhas da Copa do Mundo da Fifa 2026 viram isca para golpes financeiros

Sites falsos aproveitam a expectativa em torno da coleção oficial para induzir pagamentos via PIX e tentar fraudes financeiras entre consumidores brasileiros

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Figurinhas da copa

Páginas fraudulentas imitam a identidade visual de canais oficiais de venda, exibem ofertas abaixo do preço de mercado e tentam aplicar golpes via PIX | Foto: Getty Images

A expectativa pela chegada do álbum de figurinhas do principal torneio de futebol do mundo abriu espaço para uma nova frente de golpes e fraudes digitais no Brasil e em outros países da América Latina.

Levantamento da consultoria Kaspersky identificou ao menos 20 domínios fraudulentos que simulam páginas oficiais de venda do produto, explorando o apelo comercial da coleção e a urgência dos consumidores em garantir exemplares e pacotes antes da abertura do torneio.

A ofensiva dos cibercriminosos se apoia em uma combinação já conhecida no comércio eletrônico fraudulento: visual semelhante ao de lojas legítimas, sensação de escassez e preços agressivos. O objetivo é capturar pagamentos indevidos, sobretudo via PIX, antes que o consumidor perceba estar diante de uma página falsa.

Para o mercado, o caso reforça uma tendência recorrente em períodos de grande mobilização popular: eventos esportivos de escala global passam a funcionar como gatilho para campanhas oportunistas de fraude, com impacto potencial não apenas sobre consumidores, mas também sobre a confiança nas transações digitais.

Sites replicam a jornada de compra para dar aparência de legitimidade

Segundo a empresa de cibersegurança, os endereços falsos reproduzem layout, identidade visual e etapas típicas de uma operação de e-commerce. As páginas exibem recursos que ajudam a sustentar a aparência de legitimidade, como frete grátis, botão de compra, cálculo de entrega e sugestões de produtos relacionados.

Em alguns casos, a tentativa de conferir credibilidade vai além da estética. Um dos sites analisados exibia seção de atendimento, e-mail de contato, CNPJ e endereço físico, elementos que costumam reduzir a percepção de risco para o consumidor médio. Na prática, porém, a estrutura serve apenas para dar verniz de autenticidade a uma operação fraudulenta.

As ofertas são o principal chamariz. Entre os exemplos identificados, havia anúncios de 10 pacotes de figurinhas por R$ 34,90, valor significativamente inferior ao praticado no produto oficial. A discrepância de preço é um dos sinais mais evidentes de fraude, mas também funciona como gatilho emocional para acelerar a decisão de compra.

Preço baixo e senso de urgência ampliam vulnerabilidade

A lógica do golpe combina dois fatores clássicos do varejo digital: desconto expressivo e medo de ficar de fora. Em produtos com alta demanda emocional, como itens colecionáveis associados ao futebol, essa equação tende a ser ainda mais eficiente.

É nesse ponto que a fraude encontra terreno fértil. O consumidor atraído por uma oferta “imperdível” tende a reduzir a checagem de segurança e a avançar rapidamente até a etapa de pagamento. Ao imitar a experiência de compra de um site regular, os criminosos diminuem o atrito e aumentam a conversão do golpe.

PIX segue no centro do esquema de desvio de recursos

Na fase final da compra, as vítimas são direcionadas ao pagamento via PIX. De acordo com a Kaspersky, os valores costumam ser enviados para contas de terceiros usadas como “laranjas”, muitas vezes abertas em fintechs. Depois da transferência, os recursos são rapidamente distribuídos entre diferentes contas, dificultando o rastreamento e a eventual recuperação do dinheiro.

O modelo evidencia um problema mais amplo do ecossistema digital: a velocidade e a conveniência dos meios instantâneos de pagamento, que impulsionaram a inclusão financeira e a eficiência das transações, também podem ser exploradas por redes criminosas quando faltam mecanismos preventivos do lado do usuário.

Sob a ótica financeira, o prejuízo unitário pode parecer limitado em compras de pequeno valor, mas o ganho de escala é justamente o que torna a fraude atrativa. Em campanhas associadas a produtos de massa, pequenas transferências repetidas podem gerar perdas relevantes em curto espaço de tempo.

Golpe se espalha pela América Latina e usa redes sociais como porta de entrada

A Kaspersky também identificou uma variação da fraude em outros países da região. Na Colômbia, por exemplo, os criminosos teriam recorrido a mensagens em aplicativos como WhatsApp e a anúncios em redes sociais, como Instagram, para atrair vítimas até as páginas falsas.

O movimento sugere uma operação de disseminação multicanal, em que o site fraudulento é apenas a etapa final de uma cadeia de captura mais ampla. Redes sociais, aplicativos de mensagem e campanhas patrocinadas ampliam o alcance do golpe e reduzem a dependência de busca orgânica, tornando a fraude mais dinâmica e mais difícil de conter.

Evento esportivo amplia apelo emocional do golpe

Em nota, Fabio Assolini, lead security researcher da equipe global de pesquisa e análise da Kaspersky para a América Latina, afirma que grandes eventos esportivos têm se tornado alvos frequentes de cibercriminosos, que exploram a popularidade da coleção, a pressa dos fãs e o receio de perder uma oportunidade de compra.

A leitura é coerente com um padrão mais amplo de cibercrime: quanto maior a mobilização social em torno de um tema, maior a probabilidade de surgirem campanhas fraudulentas ancoradas em identidade visual conhecida, senso de urgência e promessa de vantagem financeira.

O que o consumidor deve observar antes de pagar

A principal recomendação é privilegiar canais oficiais, acessando o endereço da loja diretamente no navegador em vez de clicar em links recebidos por mensagens, e-mails ou redes sociais. Também é essencial verificar cuidadosamente o domínio, já que pequenas alterações no endereço podem indicar fraude.

No campo financeiro, vale ativar alertas de movimentação oferecidos pelo banco para monitorar transações em tempo real. Esse tipo de recurso não impede o golpe, mas reduz o tempo de resposta diante de movimentações suspeitas ou cobranças indevidas.

Outra frente importante é o uso de soluções de proteção digital capazes de identificar páginas maliciosas, conexões suspeitas e tentativas de comprometimento de dados pessoais. Em um ambiente em que campanhas fraudulentas se sofisticam rapidamente, a prevenção tende a ser mais eficaz do que a tentativa de reversão do prejuízo.

Fraudes digitais mostram como consumo e segurança estão cada vez mais interligados

O episódio envolvendo o álbum de figurinhas mostra que, em produtos de forte apelo popular, a fronteira entre consumo e cibersegurança está cada vez mais estreita. O golpe não depende apenas de vulnerabilidades técnicas, mas também de estímulos comportamentais: ansiedade, impulso de compra e confiança excessiva em interfaces visualmente convincentes.

Para além do universo esportivo, o caso serve de alerta para varejistas, plataformas digitais, instituições financeiras e consumidores. Em momentos de alta demanda, a disputa pela atenção do público pode ser acompanhada por uma escalada paralela de fraudes, com efeitos diretos sobre reputação, confiança e perdas financeiras.

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