BC dos EUA teme que frustração com a IA derrube valor das ações
Ata da reunião do comitê de política monetária do Federal Reserve cita riscos na concentração dos investimentos em IA e nas elevadas avaliações das empresas do setor; Para o Banco Safra, a transformação da IA está apenas começando
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Ata do Comitê Federal de Mercado Aberto mostra preocupação do Federal Reserve com os efeitos financeiros de uma eventual frustração com os investimentos em inteligência artificial | Foto: Getty Images
O Federal Reserve demonstrou preocupação com a possibilidade de uma frustração nos investimentos e nas expectativas relacionadas à inteligência artificial (IA) provocar uma forte reprecificação das ações e apertar as condições financeiras nos Estados Unidos. O alerta consta da ata da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), realizada em 28 e 29 de julho.
O termo tecnologia foi citado 18 vezes ao longo de 15 parágrafos do documento, que detalha as discussões dos dirigentes sobre inflação, crescimento econômico, estabilidade financeira e política monetária.
Segundo a ata, participantes avaliaram que uma eventual revisão negativa das projeções de lucro das empresas ligadas à IA poderia provocar uma reprecificação ampla dos ativos, com efeitos sobre o consumo, os investimentos e o sistema financeiro.
Avaliações elevadas aumentam a vulnerabilidade do mercado
Os dirigentes observaram que as elevadas avaliações das companhias associadas à IA refletem expectativas favoráveis para o crescimento dos lucros no longo prazo. O problema, segundo o documento, é que parte relevante dessas premissas ainda depende da materialização de ganhos de produtividade, receitas e eficiência operacional que permanecem incertos.
A equipe técnica do Fed classificou as pressões sobre as avaliações dos ativos como elevadas. O chamado prêmio de risco das ações — indicador que relaciona o retorno esperado dos papéis aos juros de longo prazo — estava em nível inferior ao observado na maior parte do período recente, aproximando-se de patamares registrados durante a bolha das empresas de tecnologia no fim dos anos 1990.
O setor de infraestrutura voltada à IA havia superado o desempenho do S&P 500 e das grandes empresas de tecnologia desde o início do ano. A ata, contudo, registra que esse avanço perdeu força no período entre as reuniões de junho e julho. Também houve ampliação dos spreads de crédito de empresas classificadas como hyperscalers em relação aos emissores com grau de investimento.
Endividamento e crédito privado entram no radar
Os participantes também destacaram o aumento do financiamento por dívida dos investimentos em infraestrutura de IA. Parte desses recursos tem sido oferecida por investidores não bancários e bancos regionais, o que poderia ampliar os canais de transmissão de uma eventual correção do setor para o mercado de crédito.
No segmento de crédito privado, a atividade teria desacelerado recentemente, enquanto pedidos de resgate em empresas de desenvolvimento de negócios continuaram a aumentar no segundo trimestre. Para os dirigentes, a evolução desse mercado exige monitoramento próximo.
O Fed avaliou ainda que uma deterioração ampla na qualidade do crédito corporativo poderia pressionar instituições financeiras expostas direta ou indiretamente às empresas de tecnologia.
Impactos sobre consumo e crescimento
A ata aponta que os ganhos das bolsas têm ajudado a sustentar o consumo, especialmente entre as famílias de maior renda. Por isso, uma queda expressiva das ações poderia reduzir o patrimônio financeiro dos investidores e enfraquecer os gastos das famílias.
Os dirigentes mencionaram como risco negativo para a economia a possibilidade de os avanços da IA decepcionarem, levando a uma reprecificação significativa das ações e, em consequência, afetando o consumo. O documento não prevê um colapso do mercado, mas reconhece que a concentração das expectativas em torno da tecnologia pode aumentar a amplitude de uma eventual correção.
Ao mesmo tempo, o Fed reconheceu que os investimentos em IA continuam apoiando a atividade econômica, o gasto de capital e o crescimento potencial dos Estados Unidos. Parte dos dirigentes espera que a adoção da tecnologia eleve a produtividade nos próximos anos, embora ainda haja incerteza sobre o momento e a magnitude desses ganhos.
Inflação também é afetada pelo ciclo de investimentos
A influência da IA não se limita ao mercado acionário. Segundo a ata, a expansão dos investimentos já pressiona a demanda por componentes e insumos utilizados na construção de data centers, como chips e aço.
Também foram identificadas pressões sobre preços de smartphones, equipamentos de informática, software e eletricidade. Alguns dirigentes consideraram que o impacto da IA sobre a inflação ainda está concentrado em categorias específicas. Outros, porém, avaliaram que o aumento da demanda pode gerar efeitos mais amplos nos preços.
No longo prazo, os ganhos de produtividade associados à IA poderiam reduzir custos de produção e ampliar a oferta de bens e serviços, contribuindo para a queda da inflação. O prazo para que esse efeito se materialize, no entanto, permanece incerto.
Fed mantém juros, mas três dirigentes defendem alta
Na reunião de julho, nove membros do Fomc votaram pela manutenção da taxa básica dos Estados Unidos no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano. Três dirigentes defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual.
A maioria considerou que a atividade econômica seguia crescendo em ritmo sólido e que o mercado de trabalho permanecia estável. Ao mesmo tempo, a inflação continuava acima da meta de 2%, o que levou alguns participantes a defenderem uma política monetária mais restritiva.
Os dirigentes afirmaram que novos dados sobre inflação, emprego e atividade serão determinantes para as próximas decisões. A próxima reunião do Fomc está marcada para 15 e 16 de setembro de 2026.
O que observar nos investimentos
Para os investidores, a ata reforça três pontos de atenção:
- Elevadas avaliações das empresas de IA, especialmente quando sustentadas por expectativas de lucros futuros;
- Maior uso de dívida para financiar infraestrutura tecnológica, ampliando os riscos no crédito;
- Dependência do consumo e do crescimento econômico em relação ao desempenho das bolsas.
A combinação de juros ainda elevados, inflação persistente e dúvidas sobre o retorno dos investimentos em IA pode aumentar a volatilidade dos ativos ligados ao setor, sobretudo se os resultados corporativos não confirmarem as projeções mais otimistas.
Visão do Safra sobre o futuro da IA
Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, a inteligência artificial atravessa uma fase de redistribuição econômica dentro da cadeia produtiva, em que o valor tende a migrar dos modelos fundacionais para empresas de infraestrutura, semicondutores, nuvem e integração corporativa.
A leitura da instituição é que o setor pode enfrentar correções relevantes e compressão de margens em algumas empresas, mas isso não necessariamente implica um colapso estrutural da tese de inteligência artificial.
Segundo o Safra, o atual ciclo da inteligência artificial já apresenta impactos concretos em produtividade corporativa, infraestrutura digital e expansão de receitas.
Além disso, aplicações de IA avançam rapidamente em setores como saúde, finanças, agronegócio, logística e indústria, ampliando o alcance econômico da tecnologia para além das big techs.
Na prática, o mercado pode enfrentar períodos de volatilidade, correções relevantes e redistribuição de liderança entre empresas.
Mas, para o Banco Safra, a transformação estrutural provocada pela IA continua em estágio inicial — principalmente nos segmentos ligados à infraestrutura digital e produtividade corporativa.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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