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Enel SP entra em processo de caducidade e abre novo capítulo no setor elétrico

Decisão da Aneel amplia a pressão sobre a Enel SP e recoloca no radar uma eventual mudança de controle da concessão, em meio a uma discussão regulatória cada vez mais sensível no setor de distribuição de energia

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Enel SP

A decisão da Aneel aprofunda a incerteza sobre o futuro da Enel e amplia o debate sobre qualidade do serviço, renovação contratual e consolidação no setor elétrico | Foto: Getty Images

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu iniciar o processo de caducidade do contrato de concessão da Enel SP, que vence em julho de 2028. A companhia terá 30 dias para contestar a decisão. O movimento marca uma virada em uma discussão que vinha sendo acompanhada de perto pelo mercado, depois de a agência avaliar a possibilidade de renovação antecipada da concessão.

A análise técnica da Aneel, assim como os apontamentos do Tribunal de Contas da União, o TCU, indicaram problemas relevantes nos indicadores de qualidade da distribuidora, o que enfraqueceu a possibilidade de renovação antecipada e abriu espaço para o avanço de uma medida mais dura.

O contexto da concessão

O caso da Enel SP se insere em uma discussão mais ampla sobre os contratos de concessão de distribuidoras de energia elétrica no Brasil. Diversas concessões vencem entre 2026 e 2031, e o governo federal estabeleceu que a renovação dependerá do cumprimento de indicadores de qualidade e de desempenho econômico-financeiro.

A área de concessão de São Paulo foi adquirida pelo Grupo Enel em 2018, em uma operação de R$ 5,5 bilhões por 73% de participação. Naquele momento, a Base de Remuneração Regulatória, a RAB, líquida era estimada em R$ 7,1 bilhões, enquanto a dívida líquida estava próxima de R$ 4 bilhões.

A deterioração operacional

Desde 2023, a Enel SP enfrenta desafios operacionais relevantes, com tempos de restabelecimento do serviço acima do esperado após tempestades severas em sua área de concessão. Os apagões prolongados que atingiram a cidade de São Paulo elevaram a pressão de autoridades locais, que recorreram à Justiça para bloquear a análise de uma eventual renovação antecipada e pedir a caducidade do contrato vigente.

Diante desse quadro, a Aneel passou a acompanhar mais de perto as operações da distribuidora e os resultados do plano de recuperação apresentado pela empresa para o período de 2024 a 2025. O objetivo era melhorar o desempenho operacional e os indicadores de qualidade. Ainda assim, segundo a avaliação mencionada na análise, a equipe técnica da agência concluiu que as operações e os indicadores permaneceram inadequados mesmo após a implementação desse plano.

O que pode acontecer agora

O contrato de concessão prevê cláusulas que permitem sua extinção antecipada caso a concessionária não cumpra os requisitos mínimos para manutenção das operações. Nesse cenário, a Aneel pode optar por intervir na área de concessão.

Também existe a possibilidade de uma mudança de controle. Nesse caso, um novo controlador assumiria o compromisso de melhorar as operações por meio de um novo plano de recuperação, com o objetivo de interromper o processo de caducidade e viabilizar um eventual pedido de renovação da concessão.

Como o contrato está relativamente próximo do vencimento, um potencial comprador só teria incentivo para assumir a operação caso houvesse perspectiva de extensão do prazo da concessão, possivelmente com um novo cronograma para o cumprimento das exigências regulatórias.

Os números em jogo

A análise do Safra estima que a RAB líquida atualizada da Enel SP possa chegar a R$ 16 bilhões, já considerando os investimentos desembolsados desde meados de 2023 até dezembro de 2025. A distribuidora atende mais de 8 milhões de consumidores e possui dívida líquida de R$ 10,1 bilhões.

No caso da Enel Ceará, a RAB líquida pode ficar próxima de R$ 11 bilhões. A operação atende mais de 4 milhões de consumidores e possui dívida líquida de R$ 5,7 bilhões.

Ao utilizar como referência o múltiplo médio EV/RAB de 1,4 vez das empresas sob cobertura do Safra, o valor da firma da operação de São Paulo poderia chegar a R$ 22 bilhões. Na unidade do Ceará, esse valor poderia atingir R$ 15 bilhões.

Além disso, o capex em São Paulo já ultrapassou R$ 2,5 bilhões por ano. No Ceará, o investimento gira em torno de R$ 2 bilhões anuais. Esses números ajudam a mostrar a dimensão financeira de uma eventual transação e o tamanho do desafio operacional envolvido.

Quem pode entrar no radar

Na avaliação do Safra, o processo de caducidade é altamente complexo e ainda pode envolver meses de negociações e disputas judiciais. Ainda assim, se uma mudança de controle passar a ser vista como alternativa para reduzir pressões e garantir a renovação da concessão, algumas companhias podem surgir como potenciais interessadas.

Entre elas, o banco cita CPFL Energia (CPFE3), Energisa (ENGI11), Equatorial Energia (EQTL3) e Copel (CPLE6). A atratividade, no entanto, dependerá de uma série de variáveis, como passivos contingentes, necessidade adicional de capex para melhorar a operação, penalidades e outras condições que possam alterar a avaliação econômica do ativo.

O que o caso sinaliza para o setor

O avanço do processo contra a Enel SP reforça o aumento da exigência regulatória sobre o setor de distribuição de energia. Em um momento em que várias concessões se aproximam do vencimento, o caso sugere que a renovação contratual dependerá cada vez mais da capacidade de entrega operacional e do cumprimento de métricas de qualidade.

Ao mesmo tempo, a situação mostra que ativos relevantes podem entrar em revisão estratégica quando a deterioração operacional se combina com pressão regulatória e sensibilidade política. Por isso, o desfecho desse processo tende a ser acompanhado de perto por investidores e empresas do setor.

Conclusão

A decisão da Aneel de iniciar o processo de caducidade da concessão da Enel SP abre uma nova fase em uma situação que já era complexa. O caso reúne pressão regulatória, desafios operacionais e uma possível reorganização societária em um dos ativos mais relevantes da distribuição de energia no país.

Para o mercado, o episódio funciona como um teste importante sobre o tratamento de concessões problemáticas no Brasil e sobre o espaço para consolidação em um setor que exige escala, capacidade de investimento e execução operacional consistente.

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