Endividamento avança mais entre famílias de maior renda
Pesquisa da Confederação Nacional do Ccomércio mostra que o endividamento das famílias atingiu o maior nível da série histórica, com avanço em todas as faixas de renda e destaque para os lares com rendimento mais elevado
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Avanço do endividamento entre as famílias de maior renda chama atenção por mostrar a disseminação do crédito entre consumidores com maior capacidade financeira | Foto: Getty Images
O aumento do endividamento das famílias brasileiras em fevereiro foi disseminado entre todas as faixas de renda, mas ganhou tração sobretudo entre os domicílios com rendimento mais elevado. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias com dívidas a vencer alcançou 80,2%, o maior nível da série histórica.
No recorte por renda, a pesquisa indica que o avanço foi mais expressivo entre as famílias com rendimento acima de cinco salários mínimos, sinalizando que mesmo os estratos com maior poder aquisitivo seguem recorrendo ao crédito para financiar consumo e administrar fluxo de caixa.
A leitura da CNC é que esse grupo tem preferido preservar capital próprio, em vez de mobilizar recursos imediatos para despesas correntes.
Na comparação anual, o endividamento avançou 3,8 pontos percentuais, reforçando a percepção de que o crédito continua sendo uma alavanca importante para a manutenção do consumo no início de 2026.
Endividamento geral atinge máxima histórica
A alta do indicador consolidou fevereiro como o mês de maior endividamento desde o início da série da PEIC, em 2010. A fatia de famílias que afirmaram não ter dívidas desse tipo caiu para 19,7%, o menor patamar já registrado.
A pesquisa considera dívidas como cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimo pessoal e financiamentos de carro e imóvel. Embora o levantamento reflita a percepção das famílias sobre seu grau de endividamento, e não necessariamente um quadro técnico de superendividamento, o resultado aponta para maior uso do crédito em um ambiente ainda pressionado pelo custo financeiro.
Inadimplência volta a subir e piora a leitura do mercado
Se o avanço do endividamento entre as famílias de maior renda chama atenção por mostrar a disseminação do crédito entre consumidores com maior capacidade financeira, o dado mais sensível para o mercado segue sendo a inadimplência.
Depois de três meses de queda, o percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso voltou a subir em fevereiro, para 29,6%, maior taxa desde novembro do ano passado (30,0%). Já a parcela das famílias que declararam não ter condições de quitar os débitos em atraso ficou em 12,6%, com leve recuo mensal de 0,1 ponto percentual, mas ainda acima do observado em 2025.
O tempo médio de atraso também avançou, para 65,1 meses, maior nível desde dezembro de 2024. Além disso, a fatia de inadimplentes com atraso superior a 90 dias subiu para 49,5%, mostrando deterioração mais estrutural da capacidade de regularização financeira.
Alta renda controla melhor o atraso, baixa renda segue mais pressionada
No corte por renda, a inadimplência recuou justamente entre as famílias de maior renda, enquanto os grupos de menor renda seguiram sob maior pressão. As famílias com rendimento de até três salários mínimos registraram o maior avanço do indicador no acumulado do ano, ao passo que, no mês, a maior alta foi observada na faixa entre três e cinco salários mínimos.
No indicador de famílias sem condições de pagar dívidas em atraso, a faixa de três a cinco salários mínimos também apresentou o maior crescimento mensal. Já na comparação anual, o avanço mais forte ocorreu entre famílias com renda de cinco a dez salários mínimos.
A diferença entre os grupos reforça a avaliação de que os domicílios mais ricos conseguem elevar o uso do crédito sem deterioração proporcional da inadimplência, ao contrário das famílias de renda mais baixa, mais sensíveis à pressão dos juros e da renda disponível.
Comprometimento da renda permanece elevado
O percentual de consumidores com mais de metade dos rendimentos comprometidos com dívidas ficou estável em 19,5%, interrompendo uma sequência de alta. A maior parte das famílias, 56,1%, continua com comprometimento entre 11% e 50% da renda.
Com isso, o comprometimento médio da renda com dívidas atingiu 29,7% em fevereiro, ligeiramente abaixo dos 29,9% observados no mesmo mês de 2025. Ao mesmo tempo, a parcela de famílias com dívidas por prazo superior a um ano subiu para 32,9%, no sexto avanço mensal consecutivo.
Esse alongamento ajuda a aliviar a pressão imediata sobre o orçamento, mas também sugere uma dinâmica em que o consumo permanece apoiado em crédito mais longo, e não em expansão orgânica da renda.
Crédito sustenta consumo, mas cenário exige cautela
A CNC avalia que os resultados de fevereiro exigem cautela das famílias, uma vez que, desta vez, a alta do endividamento veio acompanhada por elevação da inadimplência. Em um contexto de juros altos, essa combinação tende a aumentar o custo do crédito e a prolongar o ciclo de atraso.
As projeções da entidade indicam que o endividamento deve seguir avançando no primeiro semestre de 2026, ainda como instrumento de sustentação do consumo. A expectativa é de arrefecimento apenas no fim do período. Para a inadimplência, a tendência é de pequenos avanços adicionais.
Para investidores, o quadro sugere atenção redobrada ao equilíbrio entre resiliência de consumo e deterioração da qualidade do crédito. O avanço do endividamento nas famílias de maior renda pode oferecer algum suporte a segmentos voltados ao público de maior poder aquisitivo, mas a piora da inadimplência segue como variável central para bancos, varejistas e empresas expostas ao ciclo doméstico.
Sobre a pesquisa
A PEIC é elaborada mensalmente pela CNC desde janeiro de 2010, com coleta em todas as capitais estaduais e no Distrito Federal, em uma amostra de aproximadamente 18 mil consumidores. O levantamento acompanha indicadores de endividamento, atraso, capacidade de pagamento e comprometimento de renda, servindo como termômetro relevante para a leitura do consumo e do mercado de crédito no país.
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