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Volatilidade eleitoral e risco geopolítico redesenham carteiras para 2026

Inflação persistente, queda lenta dos juros e maior sensibilidade política levam investidores a equilibrar ativos domésticos com posições defensivas e dolarizadas

6 minutos
Gráfico de volatilidade

A combinação entre conflito no Oriente Médio, revisão das expectativas para inflação e juros e aproximação das eleições de 2026 eleva a volatilidade do mercado brasileiro e muda a lógica de alocação em Bolsa | Foto: Getty Images

O investidor brasileiro entrou em 2026 diante de um quadro que mistura fundamentos ainda favoráveis para a Bolsa com um aumento expressivo das fontes de ruído de curto prazo. De um lado, o Ibovespa segue sustentado por valuation descontado, expectativa de recuperação de lucros e continuidade, ainda que mais moderada, do ciclo de queda de juros. De outro, o agravamento do conflito no Oriente Médio, a pressão adicional sobre o petróleo, a revisão das projeções de inflação e a aproximação das eleições presidenciais elevaram o grau de incerteza e impuseram nova disciplina à alocação da carteira de investimentos.

Nesse ambiente, a discussão já não é apenas se a Bolsa brasileira continua barata, mas como posicionar o portfólio para atravessar um período de maior volatilidade sem abrir mão de oportunidades. O cenário traçado no relatório Equity Research do Safra apresenta os principais fatores que devem ser observados e enumera ações recomendadas para investidores otimistas e conservadores.

O debate ganha relevância porque o mercado passa a conviver simultaneamente com três vetores de risco: inflação global menos comportada, juros estruturalmente mais altos no curto prazo e maior sensibilidade dos ativos domésticos à disputa eleitoral.

Conflito externo, petróleo e inflação mudam o pano de fundo

A deterioração do cenário geopolítico no Oriente Médio teve impacto direto sobre os preços de energia e, por extensão, sobre as expectativas de inflação. O choque na oferta de petróleo, em meio às restrições de navegação no Estreito de Ormuz, elevou o preço da commodity e reacendeu preocupações com combustíveis, fretes, logística e insumos industriais. O resultado é um ambiente internacional menos benigno para bancos centrais, inclusive em economias avançadas.

No Brasil, esse movimento levou à revisão das projeções macroeconômicas. A estimativa de IPCA passou para 4,8% ao ano, enquanto a premissa para a Selic foi ajustada para 12,75% em 2026 e 11,00% em 2027.

A leitura central é que o alívio monetário permanece no horizonte, mas ocorrerá em ritmo mais lento e com menor profundidade do que se imaginava no início do ano.

Para a renda variável, o efeito é ambíguo. Juros em queda continuam sendo um suporte relevante para lucros e múltiplos, mas o re-rating da Bolsa tende a ser mais gradual.

Isso reduz o espaço para uma valorização rápida e amplia a seletividade do mercado, favorecendo empresas com balanços mais sólidos, maior previsibilidade de geração de caixa e menor dependência de uma retomada acelerada da economia doméstica.

Fluxo estrangeiro perde força após rali inicial

A Bolsa brasileira começou o ano beneficiada por uma forte entrada de capital externo. Até meados de abril, o fluxo estrangeiro acumulava cerca de R$ 69 bilhões, impulsionado pela busca global por diversificação, pelo desconto relativo do mercado local e pelo apelo de ativos reais em meio à instabilidade internacional. O movimento, porém, perdeu força nas semanas seguintes.

A reversão parcial desse fluxo reflete não apenas a piora das expectativas para inflação e juros no Brasil, mas também a recuperação do apetite por ações americanas, sobretudo de tecnologia.

Resultados corporativos robustos nos Estados Unidos e perspectivas elevadas de investimentos em infraestrutura digital, chips e inteligência artificial voltaram a atrair capital para o mercado americano e, em menor grau, para praças asiáticas ligadas à cadeia tecnológica.

No mercado doméstico, a temporada de balanços também contribuiu para a cautela. Embora ainda haja crescimento anual de receita, Ebitda e lucro líquido, os números vieram ligeiramente abaixo do esperado, já sob impacto de inadimplência mais elevada, custos pressionados e juros ainda restritivos para parte relevante das companhias.

Fundamentos permanecem, mas o prêmio de risco sobe

Apesar da piora do pano de fundo, a avaliação estrutural para o mercado acionário brasileiro segue construtiva. O Ibovespa acumula alta expressiva no ano e, segundo o relatório, continua negociando a múltiplos inferiores à média histórica e com desconto relevante em relação a pares emergentes. O preço-alvo de 220 mil pontos para o fim de 2026 implica potencial de valorização de 24,3% ante o nível atual de 176.975 pontos.

A tese positiva repousa em quatro pilares: valuation ainda atrativo, dividend yield elevado, expectativa de recuperação de lucros e possibilidade de retomada de rotação de capital de mercados desenvolvidos para emergentes.

O problema é que, no curto prazo, esses fundamentos passam a disputar espaço com um prêmio de risco mais alto, especialmente à medida que o calendário eleitoral avança.

Eleições devem ampliar a turbulência até outubro

Historicamente, anos eleitorais elevam a volatilidade média do Ibovespa, e 2026 não parece fugir a esse padrão. A percepção de que os principais candidatos carregam agendas econômicas distintas — especialmente em temas como sustentabilidade fiscal, reformas e condução da política econômica — aumenta a sensibilidade dos preços a pesquisas, declarações e eventos de campanha.

O cronograma eleitoral tende a reforçar esse comportamento. O prazo final para registro de candidaturas está marcado para 15 de agosto de 2026, o início oficial da campanha para 16 de agosto, o começo da propaganda eleitoral para 28 de agosto, o primeiro turno para 4 de outubro e, se necessário, o segundo turno para 25 de outubro. Na prática, isso indica um período prolongado de oscilação mais intensa dos ativos, com maior propensão a movimentos bruscos de curto prazo.

Em momentos assim, o mercado costuma privilegiar empresas menos expostas ao ciclo doméstico, setores de beta mais baixo e papéis com receitas em moeda forte. Também cresce a importância de liquidez e disciplina financeira, já que esses atributos costumam funcionar como amortecedores em fases de estresse.

Como posicionar os investimentos para enfrentar a volatilidade na corrida eleitoral

A principal conclusão estratégica do relatório é que o investidor deve evitar posições excessivamente concentradas em uma única leitura macro. A recomendação é construir carteiras capazes de responder tanto a um cenário mais benigno, com desaceleração da inflação e juros menores, quanto a um ambiente mais adverso, de inflação persistente, câmbio pressionado e atividade mais fraca.

Na carteira base, a preferência recai sobre nomes com maior liquidez, alavancagem controlada, exposição moderada ao consumo doméstico e capacidade de capturar os benefícios da queda de juros. Infraestrutura e energia aparecem como setores particularmente bem posicionados, por combinarem previsibilidade operacional com resiliência em momentos de incerteza.

Carteira recomendada para cenário otimista

Num cenário em que as pressões inflacionárias se dissipem mais rapidamente, abrindo espaço para cortes de juros mais intensos e melhora das perspectivas para 2027, a alocação recomendada passa a privilegiar empresas de maior beta e maior exposição ao ciclo doméstico. A lógica é clara: se o custo de capital cair mais depressa e o PIB ganhar tração, segmentos mais sensíveis à atividade tendem a reagir com maior intensidade.

A carteira otimista reúne os seguintes nomes:

EmpresaTickerP/L 2026BetaDividend Yield 2026
BTG PactualBPAC1110,3x1,273,0%
GerdauGGBR49,7x0,933,0%
Vibra EnergiaVBBR314,6x1,052,1%
RandonRAPT46,8x1,202,4%
C&ACEAB36,7x1,585,0%
LocalizaRENT311,9x1,364,0%
Rede D’OrRDOR314,0x1,313,5%
MBRFMBRF3n.a.1,230,2%
Moura DubeuxMDNE35,2x1,656,6%
Axia EnergiaAXIA312,3x1,148,1%

Esse portfólio combina bancos, consumo, locação, saúde, construção e indústria, refletindo uma aposta mais clara na melhora do ambiente doméstico. O racional inclui expansão de crédito, reprecificação de ativos dependentes de juros, aceleração do consumo e valorização de empresas ainda negociadas com desconto ante seu potencial de crescimento.

Carteira recomendada para cenário conservador

Se prevalecer uma leitura mais cautelosa — com inflação persistente, juros elevados por mais tempo, crescimento mais fraco e possível depreciação cambial — a estratégia migra para empresas de menor beta, fluxo de caixa mais previsível, receitas menos dependentes da economia doméstica e maior capacidade de remuneração ao acionista.

A carteira conservadora é formada por:

EmpresaTickerP/L 2026BetaDividend Yield 2026
Caixa SeguridadeCXSE311,0x0,687,8%
SuzanoSUZB35,8x1,002,5%
Aura MineralsAURA337,8x0,955,3%
PRIOPRIO38,4x0,543,2%
EmbraerEMBJ320,9x0,972,1%
FleuryFLRY313,3x0,996,5%
JBSJBSS328,1x0,896,1%
AmbevABEV317,3x0,735,2%
CPFLCPFE310,5x0,797,6%
AluparALUP1113,5x0,743,8%

Aqui, a proteção vem de três frentes principais: exposição ao dólar e a commodities, negócios mais resilientes ao ciclo econômico e dividendos robustos. É uma seleção voltada menos para capturar euforia e mais para preservar retorno ajustado ao risco em uma conjuntura desafiadora.

Setores que ganham relevância em cada cenário

A leitura setorial ajuda a entender a mudança de posicionamento recomendada. Em um ambiente-base, infraestrutura e energia aparecem como escolhas consistentes, por combinarem geração de caixa, capacidade de pagamento de dividendos e sensibilidade positiva, embora moderada, à redução dos juros.

Num cenário otimista, passam a ganhar espaço setores como varejo, bens de capital, locação, construção e saúde, cuja performance depende mais diretamente da queda do custo de capital e da retomada da demanda doméstica. Já num cenário conservador, a preferência recai sobre commodities, exportadoras, utilidades públicas, seguros e nomes defensivos com receitas recorrentes.

Essa diferença não é meramente tática. Ela reflete o fato de que o mercado brasileiro, às vésperas de uma eleição e sob impacto de um choque geopolítico externo, tende a alternar rapidamente entre janelas de apetite por risco e movimentos de proteção. O investidor que estruturar a carteira a partir dessa dualidade poderá navegar melhor num ambiente em que convicções macroeconômicas mudam com rapidez.

Bolsa segue atrativa, mas a travessia exigirá disciplina

A mensagem central do material é que a Bolsa brasileira não perdeu seus fundamentos, mas passou a exigir mais seletividade. O valuation continua comprimido, os lucros projetados seguem avançando e há potencial de valorização relevante para o índice. Ainda assim, o investidor terá de conviver, ao menos até outubro, com um mercado mais reativo a eventos políticos, oscilações no petróleo e revisões de juros.

Em outras palavras, 2026 não parece ser um ano para posições unidirecionais. A melhor resposta à combinação entre eleição polarizada e ambiente geopolítico incerto é uma alocação calibrada entre ativos de qualidade, liquidez, resiliência operacional e exposição temática coerente com diferentes cenários. Mais do que perseguir o melhor papel isolado, a prioridade tende a ser a montagem de portfólios capazes de atravessar a turbulência sem comprometer o potencial de retorno.

  • Este texto foi elaborado com base no material de Equity Research do Safra, de 18 de maio de 2026, e tem caráter jornalístico-analítico. Não constitui recomendação individual de investimento. Baixe a íntegra aqui.

A volatilidade eleitoral aumenta significativamente em anos de eleição presidencial, tornando os ativos mais sensíveis a pesquisas, declarações de campanha e eventos políticos. Em 2026, esse efeito é amplificado pela percepção de que os principais candidatos carregam agendas econômicas distintas, especialmente em temas como sustentabilidade fiscal e reformas. O período de agosto a outubro, que compreende o registro de candidaturas, início da campanha e votação, tende a ser particularmente turbulento, exigindo carteiras mais disciplinadas e diversificadas.

O agravamento do conflito no Oriente Médio elevou os preços do petróleo devido às restrições de navegação no Estreito de Ormuz, afetando diretamente os custos de combustíveis, fretes, logística e insumos industriais. Esse choque na oferta de energia reacendeu preocupações com inflação global e levou à revisão das projeções macroeconômicas brasileiras, com estimativa de IPCA ajustada para 4,8% ao ano e Selic para 12,75% em 2026, criando um ambiente menos benigno para os bancos centrais e impactando a rentabilidade das empresas.

Após uma forte entrada de capital externo no início do ano (cerca de R$ 69 bilhões até meados de abril), o fluxo estrangeiro perdeu força devido à piora das expectativas para inflação e juros no Brasil, além da recuperação do apetite por ações americanas, especialmente de tecnologia. Resultados corporativos robustos nos EUA e perspectivas elevadas de investimentos em infraestrutura digital e inteligência artificial voltaram a atrair capital para mercados desenvolvidos, reduzindo o interesse relativo pelo mercado brasileiro.

A carteira otimista recomendada pelo Banco Safra privilegia empresas de maior beta e exposição ao ciclo doméstico (como BTG Pactual, Gerdau, Localiza e Rede D'Or), apostando em cortes de juros mais intensos e melhora da atividade econômica. Já a carteira conservadora do Safra opta por empresas de menor beta, fluxo de caixa previsível e receitas menos dependentes da economia doméstica (como Caixa Seguridade, Suzano, Ambev e CPFL), priorizando a preservação de retorno ajustado ao risco através de exposição a dólar, commodities e dividendos robustos.

Infraestrutura e energia combinam previsibilidade operacional com resiliência em momentos de incerteza, gerando fluxo de caixa consistente e capacidade de pagamento de dividendos. Esses setores, segudo os especialistas do Banco Safra, mantêm sensibilidade positiva, embora moderada, à redução dos juros, funcionando como escolhas consistentes tanto em cenários base quanto em diferentes conjunturas. Essa combinação de geração de caixa previsível e proteção contra volatilidade os torna particularmente atraentes em um ano marcado por eleição e pressões geopolíticas.

A principal recomendação dos especialistas em investimentos do Banco Safra é evitar posições excessivamente concentradas em uma única leitura macro e construir carteiras capazes de responder tanto a cenários benignos quanto adversos. A estratégia deve incluir ativos de qualidade com maior liquidez, alavancagem controlada, exposição moderada ao consumo doméstico e capacidade de capturar benefícios da queda de juros. Essa abordagem equilibrada permite navegar melhor em um ambiente onde convicções macroeconômicas mudam rapidamente e o mercado alterna entre janelas de apetite por risco e movimentos de proteção.

Apesar da volatilidade, o Ibovespa mantém valuation descontado em relação à média histórica e a pares emergentes, dividend yield elevado, expectativa de recuperação de lucros e possibilidade de rotação de capital de mercados desenvolvidos para emergentes. O preço-alvo do Banco Safra de 220 mil pontos para o fim de 2026 implica potencial de valorização de 24,3%, indicando que os fundamentos estruturais permanecem construtivos, mesmo com o aumento do prêmio de risco no curto prazo.

A revisão das projeções macroeconômicas indica que o alívio monetário permanece no horizonte, mas ocorrerá em ritmo mais lento e com menor profundidade do que esperado, segundo os especialistas do Banco Safra. Isso reduz o espaço para valorização rápida da Bolsa e amplia a seletividade do mercado, favorecendo empresas com balanços sólidos, maior previsibilidade de geração de caixa e menor dependência de retomada acelerada da economia doméstica. Juros em queda continuam sendo suporte para lucros e múltiplos, mas o re-rating tende a ser mais gradual, exigindo maior disciplina na alocação.

Cley Scholz

Jornalista formado pela PUC-PR com pós em gestão de empresas jornalísticas na ESPM. Trabalhou como repórter e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, JT, Agência Estado, revista Veja e portal de Economia do Estadão. LinkedIn

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