El Niño eleva risco logístico no Norte e interfere em ações
A alta da probabilidade de um evento climático mais intenso no segundo semestre aumenta o risco para a navegação nos corredores do Norte e reforça a possibilidade de desvio de cargas para portos do Sul e Sudeste
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Alta na probabilidade de El Niño e piora dos indicadores dos rios do Norte ampliam o risco de restrições logísticas no escoamento de grãos em 2026 | Foto: Getty Images
A atualização mais recente do Climate Prediction Center trouxe um sinal claro para o mercado de transporte e infraestrutura logística. A probabilidade de ocorrência de El Niño até o fim de 2026 subiu de forma relevante, o que aumenta o risco de interrupções nos corredores fluviais do Norte do país, especialmente no período mais sensível do ano para a navegação.
As novas projeções mostram avanço da chance de um evento de El Niño moderado, forte ou muito forte entre setembro e novembro, de 56% para 72%. Já para a janela de outubro a dezembro, a probabilidade passou de 60% para 77%. Além disso, houve piora na expectativa de intensidade do fenômeno, com a categoria muito forte avançando 10 pontos percentuais e alcançando 23% para o período de outubro a dezembro.
Esse movimento importa porque coincide com a fase de maior vulnerabilidade hidrológica na região Norte. Em outras palavras, o risco climático deixou de ser apenas um cenário de atenção e passou a representar uma ameaça mais concreta para a operação logística no fim do ano.
Níveis dos rios já mostram deterioração
Os dados hidrológicos mais recentes reforçam essa preocupação. Em abril, os níveis dos rios recuaram 9% na comparação anual e ficaram 3,2% abaixo da média histórica de longo prazo para o período.
As leituras de profundidade mostram um quadro misto, mas ainda desfavorável para a navegação. O rio Tapajós em Itaituba registrou 8,44 metros, 3,7% acima do nível histórico. Já o Tapajós em Santarém marcou 6,30 metros, 9% abaixo da média. No rio Amazonas, a profundidade ficou em 6,42 metros, 13% abaixo do padrão histórico.
A combinação entre níveis de água abaixo da média e maior probabilidade de El Niño eleva o risco de restrições à navegabilidade. Esse cenário pode comprometer o transporte de grãos pelos corredores do Norte justamente em um momento importante para o escoamento da produção.
Histórico do El Niño reforça risco operacional
O histórico climático ajuda a dimensionar o impacto potencial. Em episódios anteriores de El Niño moderado ou forte, os rios do Norte registraram redução superior a 17% na profundidade. Quando o fenômeno atingiu intensidade muito forte, a queda passou de 30%.
Esse padrão afeta diretamente a capacidade de operação das rotas hidroviárias. Menor profundidade reduz a eficiência do transporte, limita o carregamento das embarcações e aumenta o risco de atrasos e gargalos logísticos.
Nesse contexto, a Hidrovias do Brasil (HBSA3) aparece entre as companhias mais expostas. A avaliação do Safra é que a empresa pode enfrentar limitações operacionais no fim de 2026 caso as projeções climáticas se confirmem.
Hidrovias do Brasil segue com recomendação neutra
Diante desse quadro, o Safra manteve recomendação neutra para HBSA3, com preço-alvo de R$ 4,50.
A leitura dos especialistas é que o aumento do risco hidrológico e a possibilidade de interrupções climáticas mais prolongadas reduzem o potencial de valorização no curto prazo. Ainda que a companhia siga inserida em uma tese estrutural relevante para a logística brasileira, o ambiente climático mais adverso tende a limitar a visibilidade operacional nos próximos trimestres.
Rumo pode capturar desvio de fluxo para o arco Sul
Se, por um lado, o cenário se torna mais desafiador para a operação no Norte, por outro abre espaço para ganhos em outras rotas. Historicamente, quando há restrições logísticas nos corredores fluviais da região, parte das exportações de grãos migra para os portos do arco Sul, com destaque para Santos.
É nesse ponto que a Rumo (RAIL3) pode se beneficiar. Caso as projeções de El Niño se confirmem, a companhia tende a capturar volume adicional no quarto trimestre de 2026, além de possível ganho de preço. Isso pode ocorrer porque o redirecionamento de cargas eleva a demanda por rotas alternativas em um contexto de capacidade mais apertada.
Para o Safra, esse ambiente pode gerar um impulso relevante para o desempenho da empresa na reta final do ano. A tese combina aumento de volumes transportados com uma dinâmica comercial potencialmente mais favorável.
O que o investidor deve acompanhar
A evolução do cenário climático deve ganhar peso crescente nas análises do setor de transporte ao longo dos próximos meses. Mais do que um fator de curto prazo, o comportamento dos rios do Norte pode influenciar decisões operacionais, fluxo de exportações e desempenho das companhias ligadas ao escoamento de grãos.
Por isso, o investidor deve acompanhar três pontos principais:
- As próximas atualizações sobre a probabilidade e a intensidade do El Niño.
- A evolução dos níveis e da profundidade dos rios da região Norte.
- O comportamento dos fluxos de exportação entre os corredores do Norte e os portos do arco Sul.
Se o quadro climático continuar se deteriorando, a tendência é de maior pressão sobre HBSA3 e, ao mesmo tempo, de melhora relativa para a RAIL3 no fim de 2026.
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