Proprietários de imóveis antecipam doações diante de possível alta do ITCMD
Recorde de escrituras em São Paulo reflete movimento de planejamento sucessório antes da adoção de alíquotas progressivas prevista pela Reforma Tributária
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Movimento de antecipação sucessória ganha força em São Paulo à medida que famílias buscam reduzir impactos de futuras mudanças tributárias sobre heranças e doações | Foto: Getty Images
Proprietários de imóveis em São Paulo estão acelerando a transferência de imóveis para herdeiros diante da perspectiva de mudanças no Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD). A expectativa de adoção de alíquotas progressivas e de uma base de cálculo mais próxima do valor de mercado dos bens tem impulsionado operações de planejamento sucessório, levando o número de escrituras públicas de doação de imóveis a um recorde histórico no Estado.
Dados dos Cartórios de Notas de São Paulo mostram que foram registradas 14.650 escrituras de doação de imóveis em 2025, o maior volume da série histórica. O número representa crescimento de 59% em relação a 2020, quando foram contabilizados 9.198 atos.
Para investidores e famílias com patrimônio imobiliário relevante, o movimento sinaliza uma busca crescente por antecipação sucessória antes de eventuais alterações tributárias que podem entrar em vigor a partir de 2027.
Reforma Tributária amplia atenção sobre planejamento patrimonial
Atualmente, São Paulo aplica uma alíquota única de 4% sobre heranças e doações. Com a regulamentação decorrente da Reforma Tributária, os estados que ainda utilizam modelo de tributação fixa deverão migrar para sistemas progressivos, nos quais as alíquotas aumentam conforme o valor do patrimônio transferido.
A Lei Complementar nº 227/2026 também estabelece diretrizes para que a tributação considere critérios mais próximos do valor de mercado dos bens, o que pode elevar a base tributável em determinadas operações.
Embora as mudanças dependam de regulamentação estadual, especialistas apontam que 2026 pode representar a última janela para realização de doações sob as regras atualmente vigentes. Isso porque eventuais alterações aprovadas neste ano precisariam respeitar os princípios constitucionais da anterioridade anual e da noventena, produzindo efeitos apenas a partir de janeiro de 2027.
Arrecadação do ITCMD cresce acima de 80% em cinco anos
O aumento do interesse por planejamento sucessório ocorre em paralelo à expansão da arrecadação do imposto.
Segundo dados do Estado, a arrecadação do ITCMD passou de R$ 3,5 bilhões em 2020 para R$ 6,39 bilhões em 2025, alta de aproximadamente 81% no período.
O avanço reforça a relevância do tributo para os cofres estaduais justamente no momento em que São Paulo discute a adequação de sua legislação às novas diretrizes tributárias.
Doação com usufruto segue entre as estratégias mais utilizadas
Entre os instrumentos mais adotados pelas famílias está a doação com reserva de usufruto. Nesse modelo, os pais transferem a propriedade do imóvel aos herdeiros, mas mantêm o direito de uso, administração e recebimento de rendimentos do bem durante a vida.
A estratégia permite avançar no processo sucessório sem perda imediata do controle patrimonial, além de conferir maior previsibilidade para a transmissão dos ativos.
Segundo Ana Paula Frontini, presidente do Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB/SP), a procura por soluções de planejamento sucessório aumentou significativamente após o avanço das discussões sobre a Reforma Tributária.
“O debate sobre sucessão patrimonial ganhou prioridade para muitas famílias que antes adiavam esse planejamento. A preocupação está concentrada nos impactos tributários futuros e na busca por maior previsibilidade e segurança jurídica para os herdeiros”, afirma.
Tendência deve continuar no curto prazo
Os números sugerem que o movimento ainda está em expansão. Após registrar 12.300 escrituras de doação de imóveis em 2023 e 14.222 em 2024, São Paulo atingiu novo recorde em 2025.
Para gestores patrimoniais, escritórios de family office e investidores de elevado patrimônio, o tema tende a permanecer no radar até que as regras estaduais sejam definidas. A combinação de alíquotas potencialmente mais elevadas, tributação progressiva e avaliação baseada em valores de mercado pode aumentar o custo da sucessão patrimonial nos próximos anos.
Nesse contexto, a antecipação de doações e a revisão das estruturas sucessórias vêm se consolidando como uma das principais agendas de planejamento patrimonial para famílias detentoras de ativos imobiliários relevantes.
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