close

Abra sua conta

Desenrola 2.0 ganha tração, alivia inadimplência e favorece ações dos bancos

Nova fase do programa de renegociação avança em ritmo superior ao da edição anterior, amplia o universo elegível e tende a beneficiar instituições bancárias mais expostas ao crédito ao consumo, com efeitos positivos de curto prazo sobre qualidade de ativos e custo de risco

6 minutos
Bancos desenrola

Comparação entre o Desenrola 1.0 e o Desenrola 2.0 mostra expansão do limite de renda, aumento do teto de dívida por banco e maior uso dos canais próprios das instituições, fatores que ajudam a explicar a aceleração das renegociações nas primeiras semanas do programa. | Foto: Getty Images

O programa Desenrola 2.0 começou com força e já desenha efeitos relevantes para o setor bancário brasileiro no curto prazo. Segundo análise do Banco Safra, os primeiros dias da nova rodada do programa indicam uma reorganização importante em relação ao Desenrola 1.0, com maior capacidade de distribuição pelos próprios bancos, escopo mais amplo de clientes elegíveis e tíquete médio mais elevado.

Para o investidor, a leitura central é objetiva: a iniciativa pode trazer alívio temporário para a qualidade dos ativos dos bancos, sobretudo entre instituições mais expostas a linhas de crédito ao consumo, como cartão, cheque especial e empréstimo pessoal.

Nos dados iniciais reunidos pelo governo federal e analisados pelo Banco Safra, cerca de R$ 485 milhões haviam sido renegociados ou liquidados à vista nos primeiros dias do programa.

O montante equivale a aproximadamente 30% de todo o volume de R$ 1,6 bilhão registrado ao longo dos 18 meses de vida da categoria 1 do Desenrola 1.0, a base mais comparável à nova versão.

O ritmo, portanto, sugere aceleração clara, ainda que os programas não sejam perfeitamente equivalentes em desenho e público-alvo.

Novo desenho aumenta alcance e tração do programa

A diferença mais relevante entre as duas versões está na arquitetura operacional. Enquanto o Desenrola 1.0 tinha foco maior em dívidas de perfil mais social, ligadas a contas básicas e faixas de renda muito baixas, o Desenrola 2.0 avança diretamente sobre passivos bancários mais sensíveis para o sistema financeiro, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.

Além disso, houve ampliação expressiva do público elegível. O limite de renda subiu para até cinco salários mínimos, e o teto de renegociação foi elevado para R$ 15 mil por banco, ante R$ 5 mil na versão anterior. Na prática, isso ampliou tanto a base potencial de adesão quanto o valor médio das operações.

O Safra destaca ainda um ponto operacional decisivo: os clientes passaram a poder aderir ao programa diretamente pelos canais próprios dos bancos, como aplicativo, site e agência. Essa mudança reduz fricções de entrada e tende a sustentar o ritmo de adesão no curto prazo, diferentemente da dependência maior da plataforma governamental observada na rodada anterior.

Tíquete médio maior reforça impacto financeiro

Com o novo escopo, o tíquete médio por cliente subiu para cerca de R$ 2 mil, aproximadamente o dobro do observado no primeiro programa, quando girava em torno de R$ 1 mil. Para os bancos, isso amplia a capacidade de reciclagem de carteiras problemáticas e acelera o reconhecimento de recuperação em operações antes classificadas como deterioradas.

Efeito esperado é positivo para qualidade dos ativos

Do ponto de vista financeiro, o Desenrola 2.0 atinge justamente o universo em que a qualidade de crédito do sistema bancário brasileiro permanece mais pressionada.

A avaliação do Safra é que o programa converte exposições deterioradas em novas originações com garantia do FGO (Fundo de Garantia de Operações do Governo Federal, que cobre os bancos contra calotes, permitindo que eles ofereçam descontos nas dívidas), produzindo um duplo efeito positivo.

De um lado, há impacto no resultado, porque valores recuperados em créditos já provisionados tendem a aparecer como reversão de custo de risco, descontados os abatimentos concedidos. De outro, há efeito no balanço, já que a renegociação ou liquidação dessas exposições pode reduzir o indicador de inadimplência.

As liquidações à vista são vistas como particularmente relevantes nesse processo, porque se concentram nas faixas de desconto mais elevadas, que podem chegar a 90%.

Ainda que o caixa efetivamente recebido possa ficar abaixo do valor residual contábil da operação inadimplente, o Safra considera o resultado positivo diante da baixa expectativa histórica de recuperação dessas linhas.

Alívio deve aparecer já no 2T26

A expectativa do Banco Safra é que a melhora nos indicadores de inadimplência comece a aparecer já no segundo trimestre de 2026, uma vez que os clientes tendem a renegociar logo no início da janela do programa.

Em outras palavras, o impacto pode ser relativamente rápido para instituições com maior exposição às carteiras elegíveis.

O principal risco apontado, porém, é o de redefault, isto é, a reincidência de inadimplência após a renegociação. Esse fator limita a leitura estruturalmente otimista e sugere que o benefício mais evidente, ao menos por ora, é de curto prazo.

Nubank lidera, bancos tradicionais ganham escala e Inter perde espaço

A fotografia inicial do programa mostra concentração relevante entre os agentes mais expostos ao crédito de varejo. O Nubank aparece como principal destaque, com cerca de 46% de participação de mercado no Desenrola 2.0, acima dos aproximadamente 29% registrados na categoria 1 do Desenrola 1.0.

Na sequência aparecem Banco do Brasil, com cerca de 20%, Itaú, com 17%, e Santander, com 12%. Segundo o Safra, tanto Banco do Brasil quanto Santander já superaram, em poucos dias, todo o volume registrado por eles ao longo da vida da categoria comparável da edição anterior.

O movimento reforça a avaliação de que bancos com plataformas mais robustas de distribuição e presença relevante em crédito ao consumo tendem a capturar a maior parte do efeito positivo. Também sugere uma combinação entre capacidade operacional, base de clientes ativa e relevância em linhas elegíveis.

Bradesco também entra no grupo potencialmente beneficiado

Embora não apareça entre os líderes de market share, o Bradesco é citado entre os nomes que podem se beneficiar da melhora de qualidade de ativos, especialmente pela relevância de seus livros de cartão e varejo. Na visão do Safra, os principais favorecidos nesse processo são Nubank, Banco do Brasil, Itaú, Santander e Bradesco.

Na outra ponta, instituições com perfil mais concentrado em crédito consignado tendem a capturar menos efeito do programa. O Safra cita Pine e Mercantil como exemplos de casas menos expostas ao universo diretamente impactado.

Inter é a principal divergência em relação ao ciclo anterior

Entre os casos de maior contraste, o Inter se destaca negativamente. Os volumes registrados até aqui equivalem a apenas 3% do total obtido pela instituição na categoria 1 do Desenrola 1.0. Com isso, sua participação de mercado recuou de cerca de 12% para 1%.

A mudança sugere menor competitividade relativa nesta fase inicial, seja por composição de carteira, estratégia comercial, perfil de clientes ou capacidade de captura via canais próprios. Ainda é cedo para interpretar o dado como tendência definitiva, mas o desvio chama atenção por destoar do avanço observado entre os principais pares.

Expansão do programa vai além das famílias e amplia o alcance econômico

Outro elemento importante do Desenrola 2.0 é que ele não se restringe às famílias. A estrutura atual também contempla frentes para micro e pequenas empresas, estudantes com dívidas do Fies e produtores rurais, o que amplia o alcance macroeconômico da política pública.

No segmento empresarial, o material do Safra destaca mudanças em linhas como ProCred 360 e Pronampe, com alongamento de prazo, ampliação de carência e elevação do limite de crédito por tomador. No caso do Fies, a nova rodada prevê perdão integral de juros e multas em determinados casos, além de descontos relevantes sobre principal para pagamentos à vista ou renegociações longas. Já no agro, o programa foi reaberto e estendido até 20 de dezembro de 2026, com foco também em pequenos produtores.

Embora o efeito imediato para as ações bancárias esteja mais concentrado nas carteiras de varejo pessoa física, a amplitude da nova rodada reforça o caráter mais abrangente da política de desalavancagem e reestruturação de passivos.

O que o investidor deve observar daqui para frente

Para o mercado, o ponto central não é apenas o volume inicial, mas a capacidade de o programa se traduzir em melhora consistente dos indicadores de crédito sem deterioração posterior. Alguns vetores merecem monitoramento:

  1. Velocidade de adesão nas próximas semanas;
  2. Conversão em recuperação efetiva de carteiras já provisionadas;
  3. Impacto sobre NPL e custo de risco nos balanços do 2T26;
  4. Comportamento da inadimplência recorrente após renegociação;
  5. Diferença de execução entre bancos e fintechs.

Em termos de posicionamento setorial, o relatório mantém viés mais construtivo para nomes com maior capacidade de captura operacional e exposição relevante ao crédito ao consumo. Entre as recomendações destacadas pelo Safra, permanecem com visão Outperform: Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Nubank (NU) e Inter (INTR). Banco do Brasil (BBAS3), Santander Brasil (SANB11), Pine (PINE4) e BMEB4 aparecem com recomendação Neutral.

Leitura de mercado: alívio tático, não solução estrutural

A mensagem final do relatório é de natureza tática. O Desenrola 2.0, ao menos neste início, melhora a dinâmica de renegociação e pode produzir efeitos favoráveis de curto prazo sobre lucro e qualidade dos ativos dos bancos mais expostos. Isso é particularmente relevante em um momento em que o mercado segue atento à trajetória de inadimplência, provisões e rentabilidade do varejo bancário.

Mas o programa, por si só, não elimina os desafios estruturais do crédito de baixa renda no Brasil. O efeito positivo mais imediato decorre da limpeza parcial das carteiras e da recuperação de créditos problemáticos. A sustentabilidade desse ganho dependerá da qualidade da nova originação, da disciplina de pagamento dos clientes renegociados e do ambiente macroeconômico à frente.

Em síntese, o Desenrola 2.0 começa mais forte que a edição anterior e cria um vetor adicional de suporte para o setor bancário no curto prazo. Para o investidor, trata-se menos de uma virada estrutural e mais de um catalisador relevante para os resultados dos próximos trimestres.

O Desenrola 2.0 é um programa do governo federal que permite a renegociação de dívidas bancárias com descontos significativos. Diferentemente da versão anterior, o programa 2.0 ampliou o escopo para incluir dívidas mais sensíveis ao sistema financeiro, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Os clientes podem aderir diretamente pelos canais dos bancos (aplicativo, site ou agência), com limite de renda de até cinco salários mínimos e teto de renegociação de R$ 15 mil por banco.

O Desenrola 2.0 apresenta mudanças operacionais significativas em relação à versão anterior. Enquanto o Desenrola 1.0 focava em dívidas de perfil social com renda muito baixa, o 2.0 avança sobre passivos bancários mais sensíveis. O limite de renda subiu de forma não especificada para até cinco salários mínimos, o teto de renegociação aumentou de R$ 5 mil para R$ 15 mil por banco, e o tíquete médio por cliente praticamente dobrou de R$ 1 mil para R$ 2 mil. Além disso, os clientes agora podem aderir diretamente pelos canais dos bancos, reduzindo fricções de entrada.

O programa converte exposições deterioradas em novas originações com garantia do FGO (Fundo de Garantia de Operações), produzindo um duplo efeito positivo. Primeiro, há impacto no resultado, pois valores recuperados em créditos já provisionados aparecem como reversão de custo de risco. Segundo, há efeito no balanço, já que a renegociação ou liquidação dessas exposições reduz o indicador de inadimplência. As liquidações à vista são particularmente relevantes porque se concentram nas faixas de desconto mais elevadas, que podem chegar a 90%.

Segundo análise do Banco Safra, a melhora nos indicadores de inadimplência deve começar a aparecer já no segundo trimestre de 2026. Isso ocorre porque os clientes tendem a renegociar logo no início da janela do programa. O impacto pode ser relativamente rápido para instituições com maior exposição às carteiras elegíveis, embora o principal risco seja o redefault, ou seja, a reincidência de inadimplência após a renegociação.

Os principais beneficiados são Nubank, Banco do Brasil, Itaú, Santander e Bradesco, que possuem maior exposição ao crédito ao consumo e plataformas robustas de distribuição. O Nubank lidera com cerca de 46% de participação de mercado no programa, seguido pelo Banco do Brasil (20%), Itaú (17%) e Santander (12%). O Inter, que teve participação relevante no Desenrola 1.0, apresenta menor tração nesta versão, com apenas 1% de participação de mercado, sugerindo menor competitividade relativa nesta fase inicial.

Não. Embora o efeito imediato para as ações bancárias esteja mais concentrado nas carteiras de varejo pessoa física, o Desenrola 2.0 também contempla frentes para micro e pequenas empresas, estudantes com dívidas do Fies e produtores rurais. Para empresas, há mudanças em linhas como ProCred 360 e Pronampe com alongamento de prazo e ampliação de carência. Para estudantes, há perdão integral de juros e multas em determinados casos, além de descontos relevantes sobre principal.

O principal risco apontado é o redefault, ou seja, a reincidência de inadimplência após a renegociação. Esse fator limita uma leitura estruturalmente otimista do programa e sugere que o benefício mais evidente é de curto prazo. A sustentabilidade do ganho dependerá da qualidade da nova originação, da disciplina de pagamento dos clientes renegociados e do ambiente macroeconômico à frente.

Não. O Desenrola 2.0 é uma solução tática, não estrutural. Embora melhore a dinâmica de renegociação e produza efeitos favoráveis de curto prazo sobre lucro e qualidade dos ativos dos bancos, o programa por si só não elimina os desafios estruturais do crédito de baixa renda no Brasil. O efeito positivo mais imediato decorre da limpeza parcial das carteiras e da recuperação de créditos problemáticos, funcionando como um catalisador relevante para os resultados dos próximos trimestres.
Abra sua conta