Crédito para veículos acelera, mas inadimplência limita alívio para locadoras
Expansão das concessões para pessoas físicas reforça a renovação de frota no setor, mas níveis ainda elevados de inadimplência e custo financeiro seguem no radar de Localiza e Movida
3 minutos Publicado em
Dados do Banco Central mostram avanço de 45% nas novas concessões de crédito para veículos a pessoas físicas em março de 2026, enquanto a inadimplência de 90 dias subiu para 6%, mantendo pressão sobre o custo de financiamento do setor | Foto: Getty Images
O mercado de crédito para veículos no Brasil voltou a mostrar tração em março de 2026, com avanço expressivo das concessões para pessoas físicas, em um movimento que tende a sustentar a renovação de frota das companhias de aluguel de carros.
Ainda assim, a combinação entre inadimplência elevada e juros em patamar historicamente alto impede uma leitura mais construtiva para o segmento, segundo análise do Safra.
Dados atualizados do Banco Central do Brasil mostram que o volume de novas operações de crédito para aquisição de veículos por pessoas físicas somou R$ 22,7 bilhões em março, alta de 45% na comparação anual.
Ao mesmo tempo, a taxa média de juros da linha recuou 67 pontos-base em relação a fevereiro, para 26,6%, acumulando queda de 198 pontos-base em 12 meses.
No segmento corporativo, porém, o movimento foi menos favorável. As novas concessões de crédito para veículos destinadas a empresas recuaram 6% ante março de 2025, para R$ 4,3 bilhões. A taxa de juros caiu 49 pontos-base no mês, para 18,5%, mas ainda se manteve 82 pontos-base acima do nível de um ano antes.
Crédito cresce, mas qualidade da carteira piora
A leitura do Banco Safra destaca que a expansão do crédito ocorre em paralelo à deterioração da inadimplência, o que reduz o potencial de melhora estrutural nas condições de financiamento.
Entre pessoas físicas, a taxa de inadimplência avançou 16 pontos-base na comparação trimestral, para 6,0%, patamar 128 pontos-base superior ao de um ano antes. No crédito corporativo para veículos, o indicador subiu 19 pontos-base em relação ao mês anterior, para 4,7%, alta de 183 pontos-base na base anual.
Inadimplência acima de 90 dias segue como ponto de atenção
Além da inadimplência corrente, o relatório chama atenção para a evolução do indicador de atraso acima de 90 dias, que alcançou 5,9%, ante 4,6% em fevereiro. Para o Safra, esse comportamento reforça a percepção de risco no mercado de crédito automotivo e pode limitar uma queda mais consistente do custo de funding ao longo dos próximos meses.
Na prática, embora a maior oferta de crédito favoreça a reposição e a expansão de frota, a piora da qualidade da carteira tende a ser incorporada pelos agentes financeiros na precificação das novas operações.
Efeito sobre Localiza e Movida é neutro
A avaliação do Safra para as locadoras permanece neutra. O banco entende que o aumento do volume financiado continua a oferecer suporte ao ciclo de renovação de frota em todo o setor, mas pondera que os fundamentos de crédito ainda não permitem uma revisão mais positiva para as companhias.
Para a Localiza (RENT3), o Safra manteve recomendação Outperform, com preço-alvo de R$ 54,80, ante cotação atual de R$ 49,29, o que implica potencial de valorização de 11%. Já para a Movida (MOVI3), a recomendação foi mantida em Neutral, com preço-alvo de R$ 11,30, abaixo da cotação de R$ 13,55, indicando potencial de variação de -17%.
Assimetria entre as teses de investimento
A diferença de recomendação entre as duas companhias sugere que, mesmo em um contexto setorial pressionado pelo custo de capital, o Safra enxerga maior resiliência operacional e melhor relação risco-retorno em Localiza do que em Movida.
Ainda assim, a mensagem central do relatório é que o ambiente para as locadoras segue dependente da trajetória do crédito automotivo. Se, por um lado, a expansão das concessões é um vetor positivo para a atividade, por outro, juros ainda altos e inadimplência persistente podem encarecer o financiamento e reduzir o ritmo de renovação das frotas.
O que o mercado deve monitorar
Nos próximos meses, investidores deverão acompanhar principalmente três variáveis:
- A evolução da inadimplência no crédito para veículos, especialmente nos atrasos acima de 90 dias;
- A trajetória das taxas de juros cobradas em financiamentos automotivos para pessoas físicas e empresas;
- O impacto dessas condições no capex e na renovação de frota de locadoras listadas, com efeitos potenciais sobre margens, depreciação e retorno sobre capital.
Para o mercado acionário, o dado de março traz um sinal misto: há melhora relevante em volume de crédito, especialmente no varejo, mas ainda não suficiente para dissipar os riscos associados ao custo financeiro do setor.
Em um segmento intensivo em capital como o de locação de veículos, a transmissão entre condições de crédito, renovação de ativos e rentabilidade continua sendo o principal eixo de análise.
Leia também:
Leia também