Crédito privado recua, mas fundos retomam emissões de debêntures
Levantamento do Banco Safra com base em dados da Anbima mostra queda anual de 24% nas emissões de renda fixa, enquanto debêntures incentivadas e demanda de fundos de investimento sustentam o mercado de capitais
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Emissões de debêntures incentivadas somaram R$ 26,3 bilhões em julho de 2026, mantendo infraestrutura como principal destinação dos recursos captados no mercado de capitais | Foto: Getty Images
O mercado brasileiro de crédito privado apresentou desaceleração em julho de 2026, após o forte ciclo de emissões observado nos anos anteriores. Segundo análise do Banco Safra com base em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), foram emitidos R$ 46,5 bilhões em títulos de renda fixa no mês.
O volume representa uma queda de aproximadamente 24% em relação a julho de 2025, quando as emissões alcançaram R$ 61,4 bilhões. Na comparação mensal, houve retração de cerca de 17% ante junho de 2026, que registrou R$ 56 bilhões.
A redução foi influenciada principalmente pela menor emissão de debêntures, em um movimento de acomodação após a expansão observada em 2024 e 2025. Ainda assim, o mercado permanece em patamar relevante, com o estoque de crédito corporativo alcançando R$ 1,98 trilhão em julho, ante R$ 1,889 trilhão ao final de 2025.
Mercado de capitais mantém crescimento anual
Considerando instrumentos de renda fixa, renda variável e híbridos, as emissões primárias no mercado de capitais movimentaram R$ 67,9 bilhões em julho. O resultado ficou acima dos R$ 65,3 bilhões registrados no mesmo mês do ano anterior, alta de aproximadamente 4%.
A composição do volume, porém, mudou. A queda de R$ 13,2 bilhões nas emissões de debêntures foi compensada pelo avanço de outras classes de ativos, especialmente:
- Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs): alta de R$ 8,3 bilhões em relação a julho de 2025;
- Follow-ons: crescimento de R$ 9,2 bilhões na mesma comparação;
- Instrumentos híbridos: participação de 17% do mercado de capitais no mês, acima dos 14% observados no segundo trimestre.
Com isso, a renda fixa respondeu por 68% das emissões primárias no mercado de capitais em julho, contra 80% no segundo trimestre. A renda variável representou 14%, enquanto os instrumentos híbridos alcançaram 17%.
Debêntures incentivadas seguem como principal fonte de captação
As debêntures incentivadas totalizaram R$ 26,3 bilhões em julho, com queda de 18% em relação ao mesmo mês de 2025, mas alta de 52% ante junho de 2026.
O volume correspondeu a 38,7% das emissões totais do mercado de capitais. Mesmo com a retração anual, os títulos continuam desempenhando papel central no financiamento de projetos de infraestrutura e permanecem como uma das principais alternativas de captação para empresas.
A predominância da infraestrutura na destinação dos recursos foi mantida: 100% das debêntures incentivadas emitidas em julho foram classificadas nessa categoria, segundo os dados compilados pela Anbima.
Debêntures corporativas sofrem queda mais acentuada
As debêntures não incentivadas, voltadas principalmente à captação corporativa, somaram R$ 6,8 bilhões em julho. O resultado representa queda de 52% em relação a julho do ano anterior, apesar da alta de 10% na comparação com junho.
A destinação dos recursos mostra uma concentração relevante em necessidades financeiras das companhias. Do volume emitido:
- 32% foram destinados ao pagamento de dívidas;
- 15% tiveram como objetivo a gestão ordinária;
- 3% foram direcionados à infraestrutura;
- 44% não tiveram destinação informada;
- 6% foram classificados em outras finalidades.
A elevada participação da categoria “não informado” limita a leitura sobre o uso efetivo dos recursos e indica que parte relevante das operações não permite uma avaliação detalhada da finalidade econômica da captação.
Fundos de investimento voltam a ampliar participação
Um dos principais sinais da atualização mensal foi a retomada da demanda dos fundos de investimento nas ofertas primárias de debêntures.
Em julho, os fundos absorveram 49% das emissões, acima dos 38% registrados no primeiro trimestre e dos 14% observados no segundo trimestre de 2026. O movimento sugere uma recomposição da demanda institucional por crédito privado, depois de uma participação mais moderada no segundo trimestre.
Os intermediários financeiros responderam por 33% das subscrições, enquanto pessoas físicas ficaram com 3%. Outros investidores institucionais e estrangeiros representaram 16%.
A maior presença dos fundos ocorre em um ambiente no qual a estrutura de remuneração dos títulos continua concentrada em indexadores pós-fixados. Em julho, 77% das debêntures foram indexadas ao CDI mais spread, enquanto 16% foram vinculadas ao IPCA e 7% utilizaram outros indexadores.
Estrutura de garantias
As emissões também apresentaram perfil de crédito mais concentrado em títulos sem garantia real. Em julho, 89% das debêntures eram quirografárias, enquanto 11% contavam com garantia real.
Entre as debêntures não incentivadas, a proporção quirografária foi ainda maior, alcançando 95%. Nas incentivadas, os títulos quirografários representaram 65%, e aqueles com garantia real, 35%.
A estrutura exige atenção adicional à qualidade de crédito dos emissores, à capacidade de geração de caixa e às condições de recuperação em eventual cenário de estresse. Em títulos quirografários, a ausência de garantia real pode elevar a exposição do investidor ao risco de crédito corporativo.
CRAs e CRIs têm volume reduzido no mês
As emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) somaram R$ 3 bilhões em julho, segundo os dados apresentados no relatório do Safra.
O volume ficou abaixo dos R$ 12 bilhões registrados no primeiro trimestre e dos R$ 15 bilhões do segundo trimestre. A queda foi acompanhada por uma redução no número de operações, que passou de 116 no primeiro trimestre e 159 no segundo trimestre para 35 em julho.
A composição dos investidores variou entre os dois instrumentos. Nos CRAs, os intermediários financeiros responderam por 48% das subscrições, seguidos por fundos de investimento, com 23%, e pessoas físicas, com 20%.
Nos CRIs, os fundos de investimento foram responsáveis por 63% das compras, enquanto pessoas físicas participaram com 24% e intermediários financeiros, com 7%.
Mercado externo permanece sem novas emissões
De acordo com a atualização do Banco Safra, não houve registro de emissões externas em junho e julho de 2026.
O último dado apresentado para maio indica captação externa de R$ 56,1 bilhões, integralmente concentrada em títulos de dívida. A taxa média desses papéis foi de 6,4%, abaixo dos 6,9% registrados no primeiro trimestre e dos 8% observados no quarto trimestre de 2025.
A ausência de novas operações nos meses mais recentes sugere um ambiente ainda seletivo para captações internacionais, especialmente diante da necessidade de conciliar custo de financiamento, risco cambial e condições de liquidez nos mercados globais.
Leitura para o mercado de crédito
Os dados de julho apontam para três movimentos principais no crédito privado brasileiro.
O primeiro é a acomodação do volume de emissões, após o ciclo de crescimento observado nos últimos anos. A retração nas debêntures não incentivadas foi particularmente expressiva e indica maior seletividade ou menor disposição das empresas para acessar o mercado em condições menos favoráveis.
O segundo é a resiliência das debêntures incentivadas, que continuam relevantes para o financiamento de infraestrutura, mesmo após a redução em relação aos volumes de 2024 e 2025.
O terceiro é a retomada da participação dos fundos de investimento, que pode contribuir para reabrir o mercado de crédito corporativo e melhorar a capacidade de distribuição de novas ofertas. A evolução dessa demanda, contudo, dependerá da percepção de risco, da remuneração oferecida pelos títulos e da trajetória das taxas de juros.
Para os investidores, a combinação de indexação majoritária ao CDI, elevada participação de emissões quirografárias e concentração em emissores corporativos reforça a necessidade de análise individual de cada operação. O volume total captado, por si só, não substitui a avaliação de risco de crédito, estrutura de garantias, prazo, liquidez e capacidade financeira do emissor.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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