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Crédito privado fica mais seletivo com juros, inadimplência e risco fiscal

Relatório do Safra mostra que a piora fiscal, a reprecificação da Selic e o enfraquecimento gradual do ciclo de crédito elevaram a seletividade no mercado de renda fixa privada

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Crédito Privado relatório do Safra

Estudo do Safra indica abertura concentrada de spreads no mercado secundário, sobretudo em saneamento, saúde e distribuição de energia, enquanto emissores defensivos mantêm maior resiliência | Foto: Getty Images

O mercado de crédito privado brasileiro passou a operar com seletividade mais intensa no início do segundo trimestre de 2026. A combinação entre risco fiscal elevado, inflação ainda desconfortável em serviços, atividade resiliente e avanço da inadimplência levou investidores a recalibrar prêmios no mercado secundário, com pressão concentrada em setores e emissores mais vulneráveis.

Relatório do Banco Safra mostra que, embora a renda fixa siga oferecendo retorno competitivo, o ambiente deixou de favorecer uma compressão disseminada de spreads.

Em vez disso, o movimento recente tem premiado nomes defensivos e punido estruturas mais expostas a eventos de crédito, ruído contábil, revisão de rating ou risco regulatório.

Reprecificação da Selic muda a dinâmica dos ativos

A curva de juros ajuda a explicar parte dessa mudança. Em novembro de 2025, a mediana do Focus apontava Selic de 12,25% para dezembro de 2026.

Agora, a taxa esperada passou a 13,00%. Ao longo de dezembro e janeiro, o mercado chegou a embutir percepção ainda mais dura para o ciclo, com a reunião de janeiro de 2026 do Copom sendo precificada em até 15,00%.

Mais recentemente, os contratos passaram a refletir cortes mais fortes em 2027. Ainda assim, a mensagem para o crédito é clara: o alívio monetário ficou mais distante no curto prazo, e isso aumenta a sensibilidade do mercado à qualidade dos balanços corporativos.

Inadimplência sobe e reforça piora do ciclo

O relatório aponta que a inadimplência total do Sistema Financeiro Nacional subiu de 4,05% em novembro de 2025 para 4,44% em fevereiro de 2026, com leve recuo para 4,33% em março.

Nas pessoas físicas, o quadro segue mais pressionado, especialmente em recursos livres, com taxa de 7,19% em fevereiro e 7,03% em março.

Entre empresas, a deterioração também ganhou relevância. Nas micro, pequenas e médias empresas, a inadimplência passou de 5,38% para 6,01%.

Nas grandes companhias, a taxa avançou de 0,47% para 0,60%, o que sugere que o aperto financeiro deixou de ser restrito aos elos mais frágeis da economia.

Saneamento concentra maior estresse do mês

O principal foco de abertura de spreads em abril foi o setor de saneamento. Segundo o Safra, um evento de crédito relevante envolvendo companhias ligadas ao grupo Aegea, após revisão contábil e atraso na divulgação de balanços, desencadeou reprecificação relevante no mercado secundário.

Nos títulos indexados ao IPCA, a mediana do spread de saneamento abriu 66 pontos-base no mês, com mais da metade dos papéis negociando acima do rating de referência. Entre os maiores movimentos de abertura apareceram títulos de SPE Saneamento Rio 1, Águas do Rio 4, Ambiental Ceará e Ciclus.

No CDI+, a pressão também foi expressiva. Debêntures da Equipav Saneamento e da Aegea figuraram entre as maiores aberturas do período, consolidando o setor como principal ponto de estresse do mês.

Saúde tem alívio em Hapvida e nova pressão em Dasa

O setor de saúde apresentou um comportamento mais dividido. Os papéis da Hapvida lideraram os fechamentos de spread no CDI+, em movimento interpretado pelo banco como ajuste técnico depois de o mercado já ter embutido cenários mais severos.

O BCBF16, da holding da companhia, registrou o maior fechamento absoluto da amostra.

Na direção oposta, ativos da Dasa voltaram a abrir de forma relevante, reforçando que a seletividade do investidor permanece elevada mesmo dentro de um mesmo setor.

Risco fiscal continua no centro da precificação

O Safra avalia que o principal vetor macro de preocupação segue sendo o quadro fiscal. A dívida líquida do setor público em relação ao PIB saiu de 65,17% em novembro de 2025 para 66,83% em março de 2026. Já a dívida bruta ultrapassou 80% do PIB, atingindo 80,07%.

O peso dos juros também aumentou. Os juros nominais chegaram a 8,35% do PIB, equivalentes a R$ 1,08 trilhão, enquanto o déficit nominal acumulado em 12 meses alcançou 9,41% do PIB. Esse quadro ajuda a manter elevado o prêmio exigido pelos investidores em ativos domésticos, sobretudo nos segmentos de maior risco.

Real valorizado sustenta fluxo, mas não elimina seletividade

O câmbio funciona como contraponto positivo parcial. A PTAX de venda caiu de R$ 5,34 em novembro de 2025 para R$ 5,23 em março de 2026, chegando a R$ 4,93 em 6 de maio.

A valorização do real foi sustentada pelo diferencial de juros reais entre Brasil e Estados Unidos e pela recuperação dos fluxos estrangeiros de portfólio.

Mesmo assim, o alívio cambial não foi suficiente para uniformizar o mercado de crédito. O que prevalece é uma dispersão maior entre setores, empresas e estruturas de emissão.

Energia e nomes defensivos preservam melhor desempenho

Em contraste com os segmentos mais pressionados, parte da infraestrutura segue com perfil mais resiliente. No IPCA+, geração e transmissão de energia mantiveram melhor qualidade relativa, com spreads mais estáveis e menor distorção frente aos ratings. Em distribuição, porém, houve pressão adicional por conta do caso Enel São Paulo.

Os índices de renda fixa ainda sustentam desempenho positivo em 12 meses. Até 8 de maio, o IDA-DI acumulava retorno de 14,1%, enquanto o IDA-IPCA subia 8,4%. O resultado mostra que o mercado continua atrativo, mas com prêmio mais dependente de análise fina de risco.

Mercado abandona leitura linear do crédito

A principal conclusão do relatório é que o crédito privado brasileiro entrou em uma fase em que a seleção de ativos se tornou decisiva.

A renda fixa permanece favorecida por juros elevados e perspectiva futura de afrouxamento monetário, mas o investidor já não remunera da mesma forma papéis de qualidade defensiva e emissores sujeitos a eventos específicos.

O mercado, em outras palavras, deixou para trás uma leitura linear do crédito. Em 2026, retorno e risco passaram a caminhar de forma ainda mais seletiva.

Cley Scholz

Jornalista formado pela PUC-PR com pós em gestão de empresas jornalísticas na ESPM. Trabalhou como repórter e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, JT, Agência Estado, revista Veja e portal de Economia do Estadão. LinkedIn

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