Crédito desacelera, enquanto inadimplência avança e pressiona bancos
Carteira de crédito do sistema cresce 9,5% em 12 meses, mas deterioração nos segmentos de consumo, consignado privado e agronegócio reforça a percepção de um ciclo mais maduro e menos favorável ao setor bancário
4 minutos Publicado em
Dados de julho do Banco Central indicam desaceleração do crédito e piora da inadimplência em diferentes modalidades, especialmente entre consumidores e produtores rurais | Foto: Getty Images
A divulgação dos dados de crédito referentes a julho de 2026 pelo Banco Central do Brasil (BCB) reforçou a percepção de que o ciclo de expansão do mercado está em estágio avançado. Na avaliação do Banco Safra, o cenário combina crescimento mais lento das carteiras com deterioração adicional da qualidade dos ativos na maioria dos segmentos.
A carteira total de crédito do sistema cresceu 0,3% em relação a junho e avançou 9,5% na comparação anual, abaixo da alta de 9,7% registrada no mês anterior. O desempenho continua sustentado principalmente pelo crédito direcionado, que cresceu 12,8% em 12 meses, enquanto o crédito livre avançou 7%.
Para o Safra, a leitura da divulgação é negativa para o setor bancário. O ambiente aponta para menor dinamismo das concessões e pressão persistente sobre a inadimplência, o que justifica uma postura cautelosa em relação às ações dos bancos.
Crédito direcionado sustenta expansão da carteira
A composição do crescimento continua concentrada em linhas associadas a programas governamentais e ao crédito direcionado. Esse segmento avançou 12,8% em 12 meses, ritmo significativamente superior ao observado no crédito livre.
Entre as pessoas físicas, a carteira cresceu 0,8% no mês e 10,8% em um ano, ligeiramente acima da expansão anual de 10,7% registrada em junho. O consignado privado foi o principal vetor de crescimento, com alta de 3,8% no mês.
Também contribuíram para a expansão os cartões de crédito, com crescimento de 2,4%, e o crédito imobiliário, que avançou 1,3% na comparação mensal.
Consignado do INSS melhora e favorece Banco Mercantil
Um dos destaques positivos foi o avanço das concessões de crédito consignado para beneficiários do INSS. A modalidade cresceu 14,8% em relação a junho, marcando mais um mês de recuperação.
O movimento sustenta uma visão construtiva do Safra para o Banco Mercantil, que possui exposição relevante ao segmento. Ainda assim, a melhora nas concessões ocorre em um ambiente de deterioração mais ampla da qualidade do crédito ao consumidor, o que exige acompanhamento da evolução dos atrasos e das perdas.
Cartão rotativo revela composição mais arriscada
O crescimento da carteira de cartões de crédito foi liderado pela modalidade rotativa, que avançou 2,5% no mês e 20,8% em 12 meses. Para o Safra, a concentração do crescimento nessa linha é um sinal de maior risco na composição da carteira.
O crédito rotativo costuma refletir maior necessidade de financiamento de curto prazo por parte das famílias e, em geral, apresenta custo mais elevado e maior probabilidade de atraso. A deterioração dos indicadores dessa modalidade reforça a preocupação com o comportamento do consumidor em um ambiente de endividamento ainda elevado.
As concessões de crédito rural, por sua vez, recuaram 1% no mês, indicando menor dinamismo em uma das principais linhas de financiamento da economia brasileira.
Inadimplência supera 4% e piora em consumo e agronegócio
O índice de inadimplência acima de 90 dias do sistema subiu 30 pontos-base em julho, para 4,9%. A deterioração foi observada tanto nas carteiras de varejo quanto nas operações corporativas.
Entre os bancos públicos, excluindo o BNDES, o indicador avançou 46 pontos-base no mês. Nos bancos privados domésticos, a alta foi de 10 pontos-base.
Para o Safra, o principal ponto negativo da divulgação foi a piora das linhas de crédito ao consumidor e do agronegócio.
Consignado privado atinge inadimplência de dois dígitos
Nas operações destinadas às pessoas físicas, a inadimplência aumentou 40 pontos-base na comparação mensal. O consignado privado foi o principal foco de pressão, com alta de 130 pontos-base, atingindo 10%.
O resultado é particularmente relevante porque a modalidade vinha apresentando forte crescimento da carteira. A combinação entre expansão acelerada e aumento dos atrasos pode pressionar as despesas com provisões dos bancos nos próximos trimestres.
Também houve piora nas modalidades sem garantia. A inadimplência dos cartões de crédito subiu 40 pontos-base, enquanto o crédito pessoal sem garantia avançou 130 pontos-base.
A evolução dos indicadores sugere que os efeitos positivos esperados do programa Desenrola sobre a qualidade do crédito permanecem limitados, especialmente nas linhas de maior risco.
Agronegócio amplia pressão sobre os ativos
No crédito rural, a inadimplência acima de 90 dias aumentou 130 pontos-base, para 8,8%. A deterioração foi liderada pelas operações contratadas a taxas de mercado, cuja inadimplência subiu 240 pontos-base, para 15,5%.
A inadimplência inicial, medida pelos atrasos entre 15 e 90 dias, também avançou, embora em ritmo mais moderado. O indicador aumentou 12 pontos-base, para 4%.
Na avaliação do Safra, a piora reforça a leitura de que a queda nos índices de pagamentos em dia mencionada pelo Banco do Brasil na apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026 deve pressionar a qualidade dos ativos no terceiro trimestre. Até o momento, não há sinais claros de estabilização no curto prazo.
Pequenas empresas concentram deterioração no segmento corporativo
A inadimplência das empresas subiu 20 pontos-base em julho, para 4,2%. O movimento foi influenciado principalmente pelas pequenas e médias empresas, cuja taxa aumentou 30 pontos-base.
Entre as grandes companhias, o indicador permaneceu relativamente estável, em 0,8%, com alta mensal de 10 pontos-base. A diferença reforça a maior vulnerabilidade financeira das empresas de menor porte diante de custos de financiamento elevados, menor capacidade de absorção de choques e maior dependência do crédito bancário.
Spreads do varejo recuam, mas não eliminam risco
Os spreads das novas operações recuaram em julho. O spread total do chamado front-book caiu 10 pontos-base em relação a junho, para 24,1%.
A retração foi mais intensa no varejo, com queda de 40 pontos-base, para 45%. No segmento corporativo, os spreads avançaram 10 pontos-base, para 22%.
Já o spread do estoque de crédito, medido pelo Índice de Custo do Crédito (ICC), recuou 5 pontos-base, para 15,1%.
A redução dos spreads no varejo pode indicar alguma acomodação nas condições de concessão, mas ocorre simultaneamente à piora dos indicadores de inadimplência. Para os bancos, esse quadro pode limitar a capacidade de compensar o aumento do risco por meio da precificação das novas operações.
Perspectiva permanece cautelosa para o setor bancário
A combinação de desaceleração do crédito e piora da inadimplência sugere um ambiente progressivamente menos favorável para os bancos. Embora algumas modalidades, como o consignado do INSS, apresentem sinais positivos, os focos de deterioração são amplos e abrangem consumidores, pequenas empresas e produtores rurais.
Na avaliação do Safra, o cenário deve manter a pressão sobre provisões, custo do risco e rentabilidade do setor nos próximos trimestres. A ausência de sinais consistentes de estabilização recomenda seletividade entre as instituições financeiras e cautela com a trajetória dos resultados.
Em síntese, os dados de julho reforçam a visão de um ciclo de crédito mais maduro, com menor potencial de expansão e qualidade de ativos ainda em deterioração.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
Leia também