Crédito desacelera e inadimplência avança no sistema bancário
Dados de agosto do Banco Central mostram moderação na expansão das carteiras e piora da qualidade dos ativos, sobretudo em crédito ao consumidor e operações rurais
3 minutos Publicado em
A alta da inadimplência em cartões, crédito pessoal sem garantia e crédito rural reforça um cenário mais seletivo para os bancos brasileiros | Foto: Getty Images
O crédito no sistema financeiro brasileiro cresceu 0,5% em agosto ante julho e avançou 9,2% em relação ao mesmo mês de 2025, ligeiramente abaixo dos 9,3% registrados no mês anterior. Os dados divulgados pelo Banco Central indicam que a expansão das carteiras segue positiva, mas em ritmo mais moderado.
A desaceleração ocorre em um ambiente de maior seletividade. O crédito direcionado, associado principalmente a programas com recursos ou garantias públicas, avançou 12,9% em 12 meses. Já as modalidades livres cresceram 6,5% no período.
O movimento reforça a dependência do sistema em relação às linhas direcionadas. Ao mesmo tempo, a menor velocidade das operações livres sugere condições mais restritivas para famílias e empresas.
Crédito ao consumidor concentra avanço
As carteiras destinadas a pessoas físicas cresceram 0,8% em agosto e 10,5% em 12 meses. O crédito consignado privado permaneceu como principal vetor de alta, com expansão de 3,6% no mês.
Veículos e arrendamento mercantil avançaram 1,4%, enquanto o crédito imobiliário cresceu 1,1%. Os cartões de crédito registraram alta de 0,7% no saldo total. No entanto, o crédito rotativo avançou 4,8% no mês e 21% em 12 meses, sinalizando uma composição mais arriscada das carteiras.
As concessões no varejo recuaram 1,6% em agosto, sem ajuste sazonal. Ainda assim, o Safra avalia que o crédito consignado privado pode ganhar fôlego nos próximos meses, à medida que o processo de vínculo entre trabalhadores e empregadores se torne plenamente operacional por meio da Dataprev.
Inadimplência sobe em cartões e crédito pessoal
A inadimplência acima de 90 dias no sistema financeiro subiu 0,1 ponto percentual em agosto, para 5%. A piora se concentrou nas linhas voltadas ao consumidor.
Nos empréstimos para pessoas físicas, a taxa de atraso avançou 0,2 ponto percentual, para 6,2%. O crédito consignado privado apresentou aumento de 0,6 ponto percentual, para 10,6%. Nos cartões de crédito, a inadimplência subiu 0,5 ponto percentual, para 10%.
O crédito pessoal sem garantia também registrou deterioração. A taxa de atraso nessa modalidade alcançou 15,6%, com aumento de 0,4 ponto percentual no mês.
A leitura dos dados exige atenção adicional porque agosto já incorpora a mudança no prazo de baixa contábil em cartões de crédito, reduzido de 540 para 360 dias. A alteração eleva a visibilidade da deterioração efetiva dessa carteira.
Crédito rural amplia sinal de alerta
No agronegócio, a inadimplência acima de 90 dias avançou 0,9 ponto percentual em agosto, para 9,7%. Nas operações rurais com taxas de mercado, o indicador chegou a 17,6%, após alta de 2 pontos percentuais no mês.
Embora a inadimplência inicial, entre 15 e 90 dias, tenha recuado 0,2 ponto percentual, para 3,8%, o aumento dos atrasos mais longos aponta dificuldades persistentes de recuperação de crédito no setor.
A dinâmica pode tornar o terceiro trimestre mais desafiador para as instituições financeiras com maior exposição ao agronegócio. Além disso, o avanço dos atrasos nas operações rurais reforça a necessidade de monitorar a evolução das garantias, das renegociações e da capacidade de pagamento dos produtores.
Spreads avançam no varejo
Os spreads de crédito subiram em agosto, principalmente no varejo. O spread total avançou 0,3 ponto percentual, para 21,2%, enquanto o indicador das operações para pessoas físicas aumentou 0,8 ponto percentual, para 27,5%.
No segmento empresarial, o spread recuou 0,8 ponto percentual, para 7,9%. A diferença entre os movimentos evidencia que os bancos seguem ajustando preços diante do aumento do risco nas carteiras de consumo.
O indicador de custo de crédito também avançou, com maior pressão no varejo. Esse cenário combina expansão ainda positiva das carteiras, porém mais concentrada em linhas direcionadas, com deterioração da qualidade dos ativos em modalidades mais sensíveis à renda das famílias e ao ciclo do agronegócio.
Cenário exige cautela
A leitura do Safra é de que os dados de agosto mantêm a tendência observada nos meses anteriores. O crescimento do crédito perde parte do impulso, enquanto a inadimplência continua a pressionar as carteiras de consumo e crédito rural.
Nesse contexto, o ambiente para os bancos brasileiros se torna menos favorável. A evolução dos atrasos, a composição das novas concessões e o comportamento dos spreads devem seguir no centro da atenção dos investidores nos próximos resultados trimestrais.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
Leia também