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Crédito desacelera e inadimplência avança no varejo

Dados do Banco Central mostram perda de ritmo nas concessões de crédito, piora no consignado privado e pressão maior sobre pequenas empresas

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O saldo total de crédito avançou 0,4% em fevereiro ante janeiro e cresceu 9,6% em relação ao mesmo mês de 2025 | Foto: Getty Images

O crédito no Brasil perdeu força em fevereiro de 2026. Os dados divulgados pelo Banco Central do Brasil indicam desaceleração no crescimento da carteira do sistema financeiro, com sinais mais fracos entre bancos privados, sobretudo os estrangeiros, e piora da inadimplência em linhas relevantes para pessoas físicas e pequenas empresas.

Na leitura do Safra, o principal ponto de atenção esteve no crédito consignado privado. Embora a modalidade ainda tenha sustentado parte da expansão do varejo, o volume mensal de originações caiu para R$ 7,1 bilhões, abaixo dos R$ 9,2 bilhões registrados em janeiro. O banco avalia que o resultado sofreu influência sazonal negativa do Carnaval, mas observa também uma deterioração mais clara na inadimplência do produto.

Varejo sustenta expansão do crédito

O saldo total de crédito avançou 0,4% em fevereiro ante janeiro e cresceu 9,6% em relação ao mesmo mês de 2025. Trata-se de uma desaceleração frente ao avanço anual de 10,1% observado no mês anterior.

O crédito ao varejo continuou como principal vetor de crescimento. A carteira subiu 0,6% no mês e 11,2% em 12 meses, em ritmo semelhante ao de janeiro. Dentro desse grupo, o consignado seguiu como destaque, com alta de 1,4% no mês, impulsionado por novo avanço do consignado privado, que cresceu 5,9%.

Além disso, o crédito sem consignação em folha aumentou 1,2% no mês e 17% em 12 meses. O volume de cartões de crédito cresceu 16,1% na comparação anual, com maior contribuição do rotativo. Já o financiamento de veículos avançou 1,3% no mês e acelerou para 16,2% em 12 meses.

Crédito para empresas perde força

No segmento corporativo, o desempenho foi mais fraco. O crédito comercial ficou estável na margem, tanto entre grandes companhias quanto entre pequenas e médias empresas. Ainda assim, a desaceleração anual foi mais intensa justamente no grupo de pequenas e médias empresas, que também mostrou piora na qualidade da carteira.

Segundo a análise do Safra, esse movimento reforça uma leitura mais cautelosa para bancos com maior exposição ao crédito empresarial de menor porte, um segmento mais sensível ao custo financeiro e ao ambiente econômico.

Consignado privado concentra piora da inadimplência

A inadimplência acima de 90 dias no sistema financeiro subiu 0,2 ponto percentual em fevereiro, para 4,3%. Entre as linhas para pessoas físicas, a deterioração foi puxada pelo consignado privado e pelos empréstimos pessoais.

No consignado privado, a taxa de inadimplência acima de 90 dias avançou 0,9 ponto percentual no mês, para 6,4%. Para o Safra, o movimento reflete uma combinação de fatores. Entre eles estão a maturação das carteiras mais recentes, a desaceleração das novas concessões e gargalos operacionais.

Os empréstimos pessoais também mostraram piora relevante, com alta de 0,6 ponto percentual na inadimplência de 90 dias. Nos cartões de crédito, o avanço foi mais moderado, de 0,1 ponto percentual. Ainda assim, a leitura do banco aponta deterioração disseminada no varejo, possivelmente com influência sazonal.

Os atrasos entre 15 e 90 dias no varejo subiram de forma leve, o que sugere que a pressão de curto prazo ainda avança de forma gradual, mas sem sinal de alívio consistente.

Pequenas empresas elevam pressão no crédito comercial

No crédito para empresas, a inadimplência acima de 90 dias subiu 0,2 ponto percentual, para 3,3%. O principal vetor negativo veio das pequenas e médias empresas, cuja taxa avançou 0,3 ponto percentual no mês.

Esse dado merece atenção porque combina desaceleração no crescimento da carteira com piora da qualidade do crédito. Em geral, esse cenário tende a exigir postura mais seletiva dos bancos na concessão e maior disciplina na precificação do risco.

Crédito rural mostra melhora parcial

O crédito rural trouxe um sinal mais positivo no curto prazo. A inadimplência entre 15 e 90 dias caiu 0,43 ponto percentual no mês, atingindo o menor nível desde março de 2025. Houve melhora tanto nas linhas com taxas de mercado quanto nas linhas direcionadas.

Ainda assim, o Safra recomenda cautela na interpretação. O banco destaca que o período conta com sazonalidade favorável, marcada por menor volume de pagamentos programados. Além disso, a deterioração observada nos últimos anos começou justamente em março.

Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias no crédito rural avançou 0,31 ponto percentual e renovou a máxima histórica, em 7,4%. Em outras palavras, o alívio no curto prazo não elimina a fragilidade do quadro estrutural.

Spreads sobem e indicam crédito mais caro

Outro destaque do mês foi o avanço dos spreads das novas operações. O spread do front-book subiu 0,8 ponto percentual, para 21,9%. No varejo, a alta foi de 0,5 ponto percentual. No crédito comercial, o aumento foi ainda mais forte, de 1,4 ponto percentual.

Os spreads do estoque de crédito, medidos pelo indicador conhecido como back-book, também avançaram 0,28 ponto percentual. Esse movimento sugere um ambiente de concessão mais conservador e custo mais alto para famílias e empresas.

Análise dos especialistas

A avaliação dos especialistas do Safra aponta um quadro misto para o setor bancário. De um lado, o varejo ainda sustenta a expansão do crédito. De outro, a piora da inadimplência em linhas como consignado privado, empréstimos pessoais e crédito para pequenas empresas exige mais cautela.

No campo rural, a melhora dos atrasos de curto prazo pode trazer algum alívio inicial. Mesmo assim, a manutenção da inadimplência longa em patamar recorde impede uma leitura mais construtiva neste momento.

Assim, o panorama de fevereiro combina crescimento ainda resiliente no varejo com sinais mais claros de deterioração na qualidade dos ativos. Para os bancos, o cenário reforça a importância de disciplina na originação, monitoramento da inadimplência e precificação mais rigorosa do risco.

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