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Banco Central eleva juros pela sexta vez consecutiva, para 14,75% ao ano

Enquanto o Copom elevou a a taxa básica de juros (Selic) no nível mais alto em quase 20 anos, nos EUA o Federal Reserve manteve as taxas entre 4,25% e 4,50%

5 minutos

Decisão do Copom confirma palavras do presidente do BC, Gabriel Galípolo, no J. Safra Macro Day: “As expectativas continuam desancoradas, e além das incertezas internacionais temos também a defasagem dos efeitos da política monetária”

O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom) elevou pela sexta vez consecutiva a taxa básica de juros (taxa Selic), que agora passa a ser de 14,75% ao ano.

A elevação de meio ponto porcentual coloca os juros no Brasil no mais alto patamar desde julho de 2006. O aperto monetário faz parte do esforço do Banco Central para conter as expectativas de inflação. A taxa Selic vem subindo desde setembro do ano passado quando estava em 10,5%.

Nos Estados Unidos o Federal Reserve manteve a taxa de juros inalterada no intervalo entre 4,25% e 4,50%, também dentro das expectativas do mercado financeiro. O presidente do FED, Jerome Powell, destacou logo após a decisão que não há pressa para baixar os juros. Diante da incerteza gerada pelas novas tarifas decretadas pelo presidente Donald Trump, ainda não há clareza sobre os próximos passos em relação à política monetária. A expectativa era de que Powell sinalizasse uma possível redução dos juros, diante dos sinais de desaceleração da economia americana.

Copom reafirma preocupação coma inflação acima da meta

No Brasil, a inflação e o núcleo do índice de preços – medida que exclui preços mais voláteis, como alimentos e energia – continuam em alta.

O comunicado do Copom sobre a decisão não sinaliza o que esperar das próximas reuniões: “Para a próxima reunião, o cenário de elevada incerteza, aliado ao estágio avançado do ciclo de ajuste e seus impactos acumulados ainda por serem observados, demanda cautela adicional na atuação da política monetária e flexibilidade para incorporar os dados que impactem a dinâmica de inflação”, diz a nota.

“O Comitê se manterá vigilante e a calibragem do aperto monetário apropriado seguirá guiada pelo objetivo de trazer a inflação à meta no horizonte relevante e dependerá da evolução da dinâmica da inflação, em especial dos componentes mais sensíveis à atividade econômica e à política monetária, das projeções de inflação, das expectativas de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos”.

Ao participar do J.Safra Macro Day, na semana passada, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reafirmou a preocupação do Banco Central com as expectativas de inflação acima da meta. Segundo ele, o nível de incerteza cresceu em abril, e passou a exigir maior cautela por parte da autoridade monetária.

“As expectativas continuam desancoradas, e além das incertezas internacionais temos também a defasagem dos efeitos da política monetária e a necessidade de maior flexibilidade e cautela”, afirmou Galípolo.

Saiba mais

Mercado espera queda dos juros

Para o mercado financeiro, a Selic deve encerrar 2025 em 14,75% ao ano. Para o fim de 2026, a estimativa é de que a taxa básica caia para 12,5% ao ano. Para 2027 e 2028, a previsão é que ela seja reduzida novamente, para 10,5% ao ano e 10% ao ano, respectivamente, conforme a pesquisa Focus do Banco Central realizada semanalmente com especialistas do mercado.

Na edição da pesquisa Focus desta semana, a previsão do mercado financeiro para a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,55% para 5,53% em 2025. Para 2026, a projeção da inflação foi mantida em 4,51%. Para 2027 e 2028, as previsões são de 4% e 3,8%, respectivamente.

A estimativa para 2025 está acima do teto da meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC. Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior 4,5%.

Em março, a inflação fechou em 0,56%, pressionada principalmente pelos preços dos alimentos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar dessa pressão, o IPCA perdeu força em relação a fevereiro, quando marcou 1,31%. No acumulado em 12 meses, a inflação soma 5,48%, também acima da meta do Banco Central.

Íntegra do comunicado do Copom


​Íntegra do comunicado sobre a decisão do Copom de elevar a taxa Selic a 14,75%:

“O ambiente externo mostra-se adverso e particularmente incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de sua política comercial e de seus efeitos. A política comercial alimenta incertezas sobre a economia global, notadamente acerca da m​agnitude da desaceleração econômica e sobre o efeito heterogêneo no cenário inflacionário entre os países, com repercussões relevantes sobre a condução da política monetária. Além disso, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos também têm sido afetados, com fortes reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes em ambiente de maior tensão geopolítica.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho ainda tem apresentado dinamismo, mas observa-se uma incipiente moderação no crescimento. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação.

As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,5% e 4,5%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o ano de 2026, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,6% no cenário de referência (Tabela 1).

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, estão mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

A conjuntura externa, em particular os desenvolvimentos da política comercial norte-americana, e a conjuntura doméstica, em particular a política fiscal, têm impactado os preços de ativos e as expectativas dos agentes. O Comitê segue acompanhando com atenção como os desenvolvimentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Tal cenário prescreve uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período prolongado para assegurar a convergência da inflação à meta.

O Copom decidiu elevar a taxa básica de juros em 0,50 ponto percentual, para 14,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

Para a próxima reunião, o cenário de elevada incerteza, aliado ao estágio avançado do ciclo de ajuste e seus impactos acumulados ainda por serem observados, demanda cautela adicional na atuação da política monetária e flexibilidade para incorporar os dados que impactem a dinâmica de inflação.

O Comitê se manterá vigilante e a calibragem do aperto monetário apropriado seguirá guiada pelo objetivo de trazer a inflação à meta no horizonte relevante e dependerá da evolução da dinâmica da inflação, em especial dos componentes mais sensíveis à atividade econômica e à política monetária, das projeções de inflação, das expectativas de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Diogo Abry Guillen, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, Renato Dias de Brito Gomes e Rodrigo Alves Teixeira.

No cenário de referência, a trajetória para a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus e a taxa de câmbio parte de R$5,70/US$, evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC). O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente. Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária “verde” em dezembro de 2025 e de 2026. O valor para o câmbio foi obtido pelo procedimento usual.

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