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Copom reforça sinal ‘dovish’ após corte da taxa Selic para 13,75%

Comunicado do Banco Central retirou menções a sinais mistos na atividade e indicou desaceleração mais disseminada, especialmente nos setores cíclicos

4 minutos
Copom

Copom apontou desaceleração mais espalhada da atividade econômica, mas preservou o tom de cautela diante das expectativas de inflação ainda acima da meta | Foto: Getty Images

O comunicado da reunião do Comitê de Política Monetária, que reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano, reforçou no mercado a percepção de uma comunicação mais dovish, termo usado para caracterizar uma autoridade monetária menos inclinada a manter ou ampliar o aperto dos juros.

O documento trouxe ajustes de linguagem que sustentam essa leitura. O Banco Central retirou a referência anterior a “sinais mistos entre setores” e passou a afirmar que a atividade econômica mostra moderação gradual, sobretudo nos segmentos mais cíclicos.

A mudança sugere que a desaceleração deixou de se concentrar em pontos específicos da economia e passou a apresentar alcance mais amplo. Ainda assim, o Comitê destacou que a atividade permanece resiliente e que o mercado de trabalho continua aquecido.

A expectativa do Banco Safra é de que o arrefecimento da atividade e a melhora dos indicadores de preços permitirão a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário para 13,25% a.a. até o final deste ano e 11,00% a.a. em 2027.

O banco mantém a projeção de crescimento de 1,9% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e de 1,4% em 2027.

Inflação também mostrou melhora

A ata também adotou tom mais favorável na avaliação da inflação. O Copom retirou o advérbio “ligeiramente” ao tratar da desaceleração da média das medidas subjacentes de inflação.

Na prática, a alteração reforça a mensagem de que a melhora dos núcleos inflacionários ganhou relevância na avaliação da autoridade monetária. A inflação cheia e as medidas subjacentes desaceleraram nas divulgações mais recentes e ficaram abaixo do limite superior da meta, embora ainda acima do objetivo central.

Mesmo com essa melhora, o Banco Central manteve atenção especial às expectativas de inflação. A pesquisa Focus indica projeções de 4,9% para 2026 e de 4,3% para 2027, ambas acima da meta.

Por que o tom foi considerado dovish

A leitura dovish decorre principalmente de três elementos da ata: reconhecimento de uma desaceleração mais disseminada da atividade econômica, avaliação mais positiva sobre a trajetória recente da inflação subjacente e manutenção da Selic em patamar restritivo, ao mesmo tempo em que o Copom sinaliza que calibrará o ciclo de cortes conforme a evolução dos dados.

Esse conjunto de mensagens tende a fortalecer a expectativa de continuidade da flexibilização monetária. No entanto, a ata não indica uma sequência automática ou acelerada de reduções da Selic.

O Comitê reiterou que o tamanho total do ciclo dependerá de novas informações sobre inflação, expectativas, atividade, política fiscal, câmbio e cenário internacional.

Dovish e hawkish: entenda a diferença

No mercado financeiro, os termos dovish (pombo) e hawkish (falcão) descrevem a inclinação de bancos centrais diante do equilíbrio entre inflação, crescimento e emprego.

Uma postura dovish, associada à imagem da pomba, indica maior disposição para reduzir juros ou para evitar um aperto monetário excessivo. Essa abordagem costuma ganhar espaço quando a atividade perde força e a inflação mostra sinais de arrefecimento.

Já uma postura hawkish, associada ao falcão, prioriza o combate à inflação, mesmo que a manutenção de juros elevados restrinja o crédito, reduza o consumo e desacelere a economia no curto prazo.

No caso da ata mais recente, a percepção dovish não significa que o Banco Central abandonou a cautela. O documento preserva a preocupação com expectativas desancoradas, inflação de serviços, riscos fiscais, câmbio e choques de commodities.

Riscos ainda limitam cortes mais intensos

O balanço de riscos para a inflação continua assimétrico para cima. Entre os fatores monitorados pelo Copom estão uma eventual persistência da inflação de serviços, novos choques de petróleo e energia, efeitos climáticos sobre alimentos, depreciação cambial e estímulos à demanda acima do crescimento potencial da economia.

Além disso, o ambiente externo permanece incerto, com atenção aos conflitos no Oriente Médio, à volatilidade dos ativos e das commodities e à condução dos juros nas economias avançadas.

Por outro lado, uma desaceleração doméstica mais intensa, uma perda de força maior da economia global e a queda dos preços de commodities poderiam contribuir para uma inflação mais baixa.

O que investidores devem acompanhar

Para os investidores, a mensagem central da ata é que o ciclo de queda dos juros pode prosseguir, mas seguirá condicionado aos dados. A velocidade dos próximos movimentos dependerá, sobretudo, do comportamento das expectativas de inflação e da percepção de risco fiscal.

A atividade econômica, o mercado de trabalho, a inflação de serviços, o câmbio e os preços do petróleo devem permanecer entre os principais vetores para a precificação da curva de juros e dos ativos locais.

Dez recados do Copom para investidores

  1. Corte da Selic para 13,75% a.a.: o Copom iniciou/avançou na flexibilização monetária, mas mantém uma postura prudente.
  2. Não há indicação de cortes acelerados ou pré-definidos: a magnitude total do ciclo dependerá dos próximos dados de inflação, atividade, expectativas e cenário externo.
  3. Inflação corrente melhorou, mas ainda não está confortavelmente na meta: inflação cheia e núcleos desaceleraram, porém seguem acima da meta de inflação.
  4. Expectativas continuam desancoradas: o Focus aponta IPCA de 4,9% em 2026 e 4,3% em 2027, ambos acima da meta. Esse é um dos principais limitadores para uma queda mais rápida dos juros.
  5. Projeção do próprio Copom converge gradualmente: no cenário de referência, o IPCA projetado é de 5,2% em 2026, 3,9% em 2027 e 3,2% no 1º trimestre de 2028 — ainda acima da meta no horizonte relevante.
  6. Balanço de riscos segue assimétrico para cima: predominam riscos inflacionários ligados a petróleo, clima, energia, câmbio depreciado, demanda doméstica resiliente e inflação de serviços persistente.
  7. Atividade desacelera, mas continua resiliente: há moderação principalmente em setores cíclicos, enquanto o mercado de trabalho permanece aquecido. Isso reduz o espaço para cortes agressivos.
  8. Fiscal e câmbio permanecem no radar: o Comitê reforça que desenvolvimentos fiscais podem afetar ativos financeiros, expectativas e a condução monetária.
  9. Cenário externo aumenta a cautela: conflitos no Oriente Médio, incerteza sobre juros em economias avançadas e maior volatilidade de commodities e ativos elevam os riscos para emergentes.
  10. Leitura para investidores: a mensagem é de ciclo de queda de juros com ritmo dependente dos dados, e não de afrouxamento amplo. Para os mercados, a trajetória de expectativas de inflação, o câmbio, o petróleo e a percepção fiscal devem seguir determinando a precificação da curva de juros.

Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.

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