Copom reduz Selic a 14,5% ao ano e reforça cautela diante da pressão da inflação
Decisão do Comitê e Política Monetária do BC ocorre em meio à alta do petróleo, avanço da inflação e incerteza geopolítica; Banco Safra projeta juros de 14% no fim de 2026
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Copom cortou a Selic pela segunda vez seguida em 0,25 ponto percentual, mas manteve sinalização cautelosa diante da inflação pressionada por combustíveis e alimentos | Foto: Getty Images
Copom entrega corte esperado e leva Selic a 14,5%
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, no que representa a segunda queda consecutiva dessa magnitude desde que a Selic atingiu 15% ao ano, maior nível em quase duas décadas.
A decisão da terceira reunião do ano veio em linha com a expectativa predominante do mercado, segundo a edição mais recente do boletim Focus, e confirma a opção da autoridade monetária por um processo de flexibilização gradual, em ambiente ainda marcado por elevada incerteza externa e resistência inflacionária doméstica.
No comunicado, o Copom justificou a decisão com base no cenário internacional mais adverso e no impacto da alta do petróleo sobre a inflação, em meio à guerra no Oriente Médio, fator que passou a contaminar tanto os índices correntes de preços quanto as expectativas para os próximos meses.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, diz o comunicado da decisão.
Inflação e petróleo impõem limite ao espaço para novos cortes
A leitura do Banco Central ocorre em um momento de piora relevante do quadro inflacionário. A prévia da inflação oficial, medida pelo IPCA-15, acelerou para 0,89% em abril, pressionada principalmente pelos grupos de combustíveis e alimentos. Em 12 meses, o índice passou a 4,37%, acima dos 3,9% observados em março.
Segundo o boletim Focus, a expectativa para a inflação de 2026 subiu para 4,86%, ultrapassando o teto da meta contínua estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Pelo sistema em vigor desde janeiro de 2025, a meta central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que estabelece limite superior de 4,5%.
Meta contínua eleva sensibilidade da política monetária
No novo regime, a meta deixa de ser verificada apenas no fechamento de dezembro e passa a ser apurada mensalmente com base na inflação acumulada em 12 meses. Na prática, isso torna a condução da política monetária mais sensível à trajetória corrente dos preços e amplia a importância das expectativas na calibragem da Selic.
Esse desenho reforça a cautela do Banco Central em um momento em que choques externos, como a escalada do petróleo, podem dificultar a convergência da inflação à meta mesmo com sinais de desaceleração gradual da atividade doméstica.
Safra vê continuidade cautelosa da flexibilização
Na avaliação do Banco Safra, a economia brasileira ainda absorve os efeitos do aperto monetário agressivo promovido ao longo do ciclo anterior, mesmo após o início da flexibilização em março, quando a Selic foi reduzida de 15% para 14,75% ao ano.
O banco observa que a transmissão dos juros elevados para a economia real continua pressionando especialmente empresas mais dependentes de capital, com menor previsibilidade de receita ou estrutura de capital mais alavancada. Por essa razão, o corte recente não deve ser interpretado como o início de um ciclo clássico e intenso de afrouxamento monetário.
Processo de calibração, não de afrouxamento acelerado
A própria comunicação do Copom, na avaliação do Safra, sugere uma postura mais comedida. Na ata da reunião de março, o comitê deixou de indicar de forma explícita a continuidade dos cortes e passou a afirmar que a magnitude dos próximos movimentos, bem como o próprio sentido do processo de calibração, dependerá das informações incorporadas ao longo do tempo.
Para o Safra, ainda existe espaço para reduções adicionais, uma vez que a taxa básica segue em patamar restritivo e a economia começa a mostrar moderação em indicadores mensais. A instituição projeta a Selic em 14% ao ano no fim de 2026, em trajetória de continuidade cautelosa da flexibilização monetária.
Atividade mostra desaceleração, mas não elimina o viés contracionista
Embora o primeiro trimestre de 2026 deva registrar um PIB próximo de 1%, com impulso parcial do setor agropecuário, o Safra pondera que esse desempenho não altera a avaliação de fundo de que a política monetária permanece contracionista.
O ponto central, nessa leitura, é medir quanto espaço existe para aliviar os juros sem comprometer o processo de convergência inflacionária. Esse equilíbrio tornou-se mais delicado com a piora do ambiente externo, especialmente após a valorização do petróleo no mercado internacional.
Como a Selic afeta crédito, consumo e investimento
A Selic é a taxa básica de juros da economia e serve de referência para as operações com títulos públicos federais no Sistema Especial de Liquidação e Custódia. Além disso, funciona como principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação.
Quando eleva a Selic, o BC busca conter a demanda por meio do encarecimento do crédito e do estímulo à poupança, o que tende a aliviar a pressão sobre os preços. Em contrapartida, juros mais altos reduzem o ímpeto de consumo, investimento e expansão da atividade econômica.
No movimento inverso, a redução da taxa tende a baratear o crédito e favorecer produção e consumo. Ainda assim, o repasse ao tomador final não é automático, porque os bancos também consideram fatores como inadimplência, margem de lucro e custos administrativos na definição das taxas cobradas.
Mercado acompanha os próximos passos do BC
Com a Selic agora em 14,5% ao ano, o mercado passa a observar com mais atenção os próximos dados de inflação, atividade e expectativas para avaliar se haverá espaço para novas reduções nos encontros seguintes do Copom.
A sinalização mais recente do Banco Central indica que a trajetória futura seguirá dependente dos desdobramentos do cenário internacional e da capacidade de a inflação retornar ao intervalo compatível com a meta contínua. Nesse contexto, o corte desta reunião reforça menos a ideia de um ciclo acelerado de queda de juros e mais a de um ajuste gradual, condicionado a um ambiente ainda instável.
Íntegra do comunicdo do Copom
”O ambiente externo permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,9% e 4,0%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,5% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, perante a indefinição acerca dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de restrições de oferta de petróleo e seus derivados; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.
O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados. O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.
O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,50% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David e Paulo Picchetti.”
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A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e serve como referência para operações com títulos públicos federais no Sistema Especial de Liquidação e Custódia. Ela funciona como o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação e influencia diretamente o crédito, consumo e investimento na economia.
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O Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual para 14,5% ao ano como parte de um processo gradual de flexibilização monetária. A decisão considerou o cenário internacional adverso, o impacto da alta do petróleo sobre a inflação devido à guerra no Oriente Médio, e a necessidade de aliviar os efeitos do aperto monetário anterior na economia real.
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Quando o Banco Central eleva a Selic, o crédito fica mais caro, estimulando a poupança e reduzindo o consumo e investimento, o que alivia a pressão sobre os preços. No movimento inverso, a redução da taxa tende a baratear o crédito e favorecer a produção e consumo. No entanto, o repasse ao tomador final não é automático, pois os bancos também consideram inadimplência, margem de lucro e custos administrativos.
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A meta central de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, estabelecendo um limite superior de 4,5%. No novo regime em vigor desde janeiro de 2025, a meta deixa de ser verificada apenas em dezembro e passa a ser apurada mensalmente com base na inflação acumulada em 12 meses, tornando a política monetária mais sensível à trajetória corrente dos preços.
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O Banco Central mantém cautela porque a inflação acelerou, com o IPCA-15 atingindo 0,89% em abril e 4,37% em 12 meses, ultrapassando a meta contínua. Além disso, as expectativas de inflação para 2026 subiram para 4,86%, acima do teto de 4,5%, e a indefinição sobre os conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços das commodities aumentam a incerteza.
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O Banco Central sinalizou que a trajetória futura da Selic seguirá dependente dos desdobramentos do cenário internacional e da capacidade de a inflação retornar ao intervalo compatível com a meta contínua. O corte desta reunião reforça a ideia de um ajuste gradual e condicionado a um ambiente ainda instável, não de um ciclo acelerado de queda de juros.
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A guerra no Oriente Médio pressiona a inflação principalmente através da alta do petróleo, afetando tanto os índices correntes de preços quanto as expectativas futuras. Esse cenário de incerteza exige cautela do Banco Central, pois os conflitos podem dificultar a convergência da inflação à meta mesmo com sinais de desaceleração gradual da atividade doméstica.
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Embora o primeiro trimestre de 2026 deva registrar um PIB próximo de 1%, com impulso do setor agropecuário, a política monetária ainda permanece contracionista. O Banco Central está medindo cuidadosamente quanto espaço existe para aliviar os juros sem comprometer o processo de convergência inflacionária, especialmente diante da piora do ambiente externo.
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