Copom avalia iniciar corte de juros com inflação em alta e guerra
Reunião de março ocorre sob sinalização de flexibilização monetária, mas com surpresa inflacionária recente e incertezas externas que testam o ritmo do afrouxamento
13/03/2026 Atualizado em 16/03/2026 3 minutosBanco Safra projeta um corte inicial de 0,25 ponto porcentual, com a Selic caminhando para 11,50% ao fim de 2026 | Foto: Getty Images
A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 17 e 18 de março de 2026, ganhou status de ponto de virada para a política monetária.
Após manter a Selic em 15% ao ano no encontro anterior, pela quinta reunião seguida, o Banco Central sinalizou de forma explícita a intenção de iniciar a flexibilização na reunião de março, condicionada à confirmação do cenário esperado.
A leitura predominante entre analistas é de que o ciclo de cortes deve começar agora, ainda que sob forte dose de prudência. O Banco Safra projeta um corte inicial de 0,25 ponto porcentual, com a Selic caminhando para 11,50% ao fim de 2026, em um processo gradual e dependente da evolução da inflação e das expectativas.
A expectativa anterior, de um corte de 0,5 ponto porcentual, passou a ser considerada menos provável no atual cenário.

Inflação surpreende e testa o ritmo do afrouxamento da Selic
O principal elemento de tensão para a decisão de março veio da inflação. O IPCA de fevereiro avançou 0,70%, acima das projeções internas e do consenso de mercado (0,64%). Embora a inflação em 12 meses tenha desacelerado para 3,81%, ainda dentro do intervalo da meta, a composição do índice acendeu alertas.
O resultado confirmou a sinalização já mais adversa do IPCA‑15, que registrou 0,84% no mês, com desvio relevante frente às expectativas. Além dos choques concentrados, houve elevação do índice de difusão e dos núcleos, indicando pressão inflacionária mais disseminada na margem.

Leitura do Safra: impacto negativo, mas limitado
Para os economistas do Safra, a surpresa inflacionária tem caráter pontual e tende a perder força nas próximas leituras, à medida que itens voláteis — como passagens aéreas — devolvam parte da alta e a atividade econômica siga em ritmo moderado.
A instituição mantém a projeção de IPCA em 3,70% ao fim de 2026, avaliando que o dado recente é negativo, mas não compromete o cenário de desinflação gradual.
Cenário externo adiciona volatilidade
Além do quadro doméstico, o Copom enfrenta um ambiente internacional mais incerto. A instabilidade nos preços do petróleo, associada a tensões geopolíticas no Oriente Médio, impõe riscos adicionais às expectativas inflacionárias globais.
Para uma economia aberta como a brasileira, oscilações mais fortes nas commodities energéticas podem contaminar preços internos e exigir postura mais conservadora da autoridade monetária.
Comunicação do BC indica corte, mas sem pressa
No comunicado e na ata da última reunião, o Banco Central deixou claro que antevê, “em se confirmando o cenário esperado”, iniciar a flexibilização da política monetária em março, ao mesmo tempo em que reforçou que o compromisso com a meta exige serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo.
A projeção oficial de inflação do BC para o terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante, permaneceu em 3,2%, assumindo uma Selic em 14,50% em março e 12,25% ao fim de 2026, além de câmbio partindo de R$ 5,35 por dólar.
A apreciação recente do real e as surpresas inflacionárias de curto prazo tendem a reconfigurar essas estimativas, mas sem alterar, por ora, o direcionamento estratégico.
Impactos para investimentos e mercado financeiro
A expectativa de início do ciclo de cortes tende a influenciar a precificação dos ativos. Juros ainda elevados continuam favorecendo a renda fixa, enquanto a sinalização de queda abre espaço para reprecificação gradual da bolsa, sobretudo em setores mais sensíveis ao custo de capital.
O ritmo do afrouxamento, no entanto, será determinante para a intensidade desse movimento.
Conclusão: março inaugura o ciclo, com viés de cautela
O Copom chega à reunião de março com sinal verde para começar a cortar juros, mas pressionado por uma inflação que voltou a surpreender e por riscos externos relevantes.
A expectativa é de um início parcimonioso, compatível com o diagnóstico de desinflação em curso, porém ainda frágil. Para o mercado, mais do que o corte em si, o foco estará no tom do comunicado e nas pistas sobre a trajetória da Selic ao longo de 2026.
Leia também: