Copom corta juro em 0,25 ponto e indica afrouxamento gradual
Comitê de Política Monetária do BC corta juros com parcimônia para 14,75% ao ano e confirma expectativas, diante da desaceleração da atividade e ameaça de alta do petróleo
18/03/2026 5 minutos
Corte de 25 pontos-base era esperado pela maior parte do mercado financeiro diante da tensão geopolítica no Oriente Médio | Foto: Getty Images
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, inaugurando um ciclo de afrouxamento monetário cauteloso e amplamente esperado pelos especialistas do Banco Safra e pela maior parte do mercado financeiro. A decisão ocorre em um contexto de desaceleração da demanda doméstica e de temor do impacto do preço do petróleo na inflação.
“O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,75% ao ano e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, diz o comunicado do Copom.
Sobre a recente alta do petróleo causada pela tensão geopolítica no Oriente Médio, o Comitê informa que “tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities“.

A leitura predominante é de que o Banco Central optou por uma estratégia gradualista, preservando credibilidade e flexibilidade diante de um ambiente internacional ainda marcado por elevada volatilidade nos preços das commodities, em especial do petróleo, em meio às tensões no Oriente Médio.
Federal Reserve mantém taxa de juros
Nos Estados Unidos, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed) decidiu manter a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, na reunião desta superquarta (18).
A decisão do Fed, amplamente esperada pelo mercado, marca a segunda reunião consecutiva de estabilidade, após três cortes promovidos no segundo semestre do ano passado, em setembro, outubro e dezembro.
No comunicado, o Fomc destacou que a incerteza quanto às perspectivas econômicas permanece elevada, refletindo, sobretudo, os desdobramentos da guerra no Irã e seus impactos ainda difíceis de mensurar sobre a inflação global e o crescimento.
Atividade perde fôlego, mas há sinais de retomada
A análise do Banco Safra aponta que a atividade econômica no Brasil arrefeceu ao longo dos últimos trimestres como resposta aos efeitos defasados da política monetária restritiva. O consumo das famílias permaneceu praticamente estagnado no segundo semestre do ano passado, impactado pelo elevado comprometimento da renda com o serviço da dívida.
No mesmo período, o alto custo de capital afetou de forma significativa o investimento das empresas, que recuou 3,4% no semestre, contribuindo para a redução da absorção doméstica e para o fechamento do hiato do produto.
Primeiros sinais de recuperação em 2026
Indicadores de curto prazo, no entanto, sugerem uma retomada gradual da atividade no primeiro bimestre deste ano, impulsionada, entre outros fatores, pela desoneração do imposto de renda para pessoa física.
Nesse cenário, o Banco Safra mantém a projeção de crescimento real do PIB de 1,7% em 2026, refletindo uma economia ainda contida, mas em processo de normalização.
Espaço para redução do aperto monetário
Diante desse conjunto de fatores, o Banco Safra avalia que há espaço relevante para a redução do grau de aperto monetário. Ainda assim, a elevada volatilidade das commodities recomenda cautela.
Nesse contexto, o corte de 25 pontos-base representa um primeiro passo consistente, alinhado à comunicação do Banco Central e à necessidade de preservar a ancoragem das expectativas.
Íntegra do comunicado do Copom
“O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,1% e 3,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,3% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se:
- (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado;
- (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e
- (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.
Entre os riscos de baixa, ressaltam-se:
- (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;
- (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e
- (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.
O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil.
Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados.
O Comitê julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.
O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,75% a.a. e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.”