Copom reduz Selic, mas vê cenário mais desafiador para inflação
Mesmo com Selic a 14,25% ao ano, Copom avalia inflação resistente, riscos externos elevados e necessidade de juros altos por mais tempo
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Banco Central do Brasil sinaliza cautela na condução da política monetária diante da inflação e do cenário externo incerto | Foto: Getty Images
A ata da 279ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada nos dias 16 e 17 de junho, mostra que o Banco Central do Brasil decidiu reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano, mas reforça que o ambiente econômico exige cautela, serenidade e uma política monetária restritiva por período prolongado.
O documento indica que, apesar do corte de juros, o cenário para a inflação se deteriorou desde a reunião anterior, com aceleração do IPCA, medidas subjacentes pressionadas e expectativas de inflação desancoradas em horizontes mais longos.
Inflação segue acima da meta
Segundo o Copom, as leituras mais recentes da inflação cheia e dos núcleos superaram o limite superior da meta, afastando-se ainda mais do objetivo estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional.
As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus permanecem acima da meta, com projeções de 5,30% para 2026 e 4,10% para 2027. No cenário de referência do Banco Central, a inflação projetada para o quarto trimestre de 2027 está em 3,7%, acima do centro da meta.
Riscos externos elevam a incerteza
O Comitê avalia que o ambiente externo permanece incerto, especialmente em função dos conflitos no Oriente Médio e das indefinições sobre a política econômica dos Estados Unidos. Esse cenário tem elevado a volatilidade nos mercados financeiros e nos preços de commodities, com impactos relevantes para economias emergentes.
As últimas divulgações de inflação ao consumidor e ao produtor já refletem efeitos desses choques, sobretudo via petróleo e seus derivados, além de custos de energia.
Atividade econômica e mercado de trabalho
No cenário doméstico, o Copom observa aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre de 2026, com setores mais cíclicos retomando protagonismo. O mercado de trabalho segue resiliente, com taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e rendimentos reais crescendo acima da produtividade.
Apesar disso, o Comitê destaca que a política monetária restritiva já produz efeitos sobre a demanda agregada, especialmente por meio da desaceleração do crédito, em particular dos empréstimos livres.
Expectativas desancoradas exigem juros altos por mais tempo
Um dos principais pontos da ata é o reconhecimento de que houve uma desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos, especialmente para 2028. Segundo o Copom, esse ambiente eleva o custo de desinflação e exige uma restrição monetária maior e por mais tempo do que seria necessário em outros contextos.
O Comitê reforça que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária são essenciais para garantir a convergência da inflação à meta com menor custo para a atividade econômica.
Política fiscal no radar
A ata também destaca o papel da política fiscal na dinâmica inflacionária. O Copom reitera que a previsibilidade, a credibilidade e a atuação contracíclica da política fiscal são fundamentais para reduzir o prêmio de risco e favorecer a convergência da inflação.
Segundo o Comitê, o enfraquecimento do esforço fiscal, o aumento do crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra da economia, reduzindo a potência da política monetária.
Decisão e próximos passos
Ao decidir pela redução da Selic para 14,25% ao ano, o Copom avalia que a medida é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta, ao mesmo tempo em que suaviza as flutuações da atividade econômica.
Para as próximas reuniões, o Comitê sinaliza que os passos futuros do ciclo de calibração dependerão da evolução do cenário, especialmente da inflação, das expectativas e dos desdobramentos do ambiente externo, reforçando a mensagem de cautela na condução da política monetária.