Quando a Seleção do Brasil entra em campo, o consumo de energia despenca
Jogos da seleção à noite na Copa do Mundo tendem a reduzir a demanda de energia no Sistema Interligado Nacional, com efeito limitado para o setor elétrico.
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Jogador Danilo Santos, da Seleção brasileira, comemora gol na partida contra Panamá: Copa deve coincidir com o pico de consumo de energia e provocar quedas temporárias de demanda no sistema elétrico brasileiro | Foto: Getty Images
Os jogos da Seleção brasileira na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, marcados para a noite no horário de Brasília, devem reduzir a demanda de eletricidade no país e alterar a curva de carga do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Ainda assim, os especialistas do Banco Safra avaliam que o impacto financeiro para o setor elétrico deve ser restrito, com efeitos mais visíveis sobre distribuidoras no segundo e no terceiro trimestres desse ano.
Jogos noturnos devem pressionar a demanda
A análise do Safra mostra que partidas da seleção brasileira em Copas do Mundo costumam reduzir de forma consistente a demanda por energia no Brasil. Em alguns casos, a queda chegou a 15%, sobretudo quando os jogos ocorreram no período da noite.
Para chegar a essa conclusão, os especialistas do Safra analisaram o comportamento da carga horária de eletricidade no SIN entre 2002 e 2022. O estudo reúne dados validados do Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, em 33 partidas, cinco subsistemas e mais de 52 mil observações por hora.
Para a edição de 2026, o ponto central está no horário. Como os três jogos da fase de grupos da seleção brasileira acontecerão às 19h e às 21h30 no horário de Brasília, o efeito esperado é duplo.
De um lado, o consumo diário deve cair, já que a demanda costuma começar a recuar entre uma e duas horas antes do início das partidas. De outro, a queda tende a se intensificar justamente após o pico diário de consumo, concentrado entre 18h e 20h.
Horário importa mais do que fase ou país-sede
O principal determinante para a oscilação da carga não é a fase da competição nem o país-sede, mas sim o horário de início das partidas no Brasil.
Isso significa que um jogo da fase de grupos pode provocar uma queda maior na demanda do que uma partida eliminatória, dependendo da hora em que for disputado.
O efeito reflete não apenas o interesse do torcedor, mas também o nível de carga já existente naquele momento do dia, que pode ampliar ou comprimir a variação observada.
O país-sede influencia sobretudo por causa do fuso horário. Em 2026, como Estados Unidos, México e Canadá estarão apenas uma hora atrás de Brasília, os jogos tendem a coincidir diretamente com o período de maior consumo no sistema brasileiro. Por isso, o impacto potencial sobre a curva de carga deve ser mais relevante.
Copa de 2014 surge como principal referência
Entre as últimas seis edições do torneio, o Safra considera a Copa de 2014 a base histórica mais apropriada para comparação com 2026.
Há duas razões principais:
- A semelhança na distribuição dos horários, com maior concentração de partidas à tarde e à noite, mais próximas do pico de demanda;
- O contexto sazonal de junho e julho, diferente do padrão observado na Copa de 2022, disputada no fim do ano.
Essa combinação pode tornar a edição de 2026 atípica para o sistema elétrico. Segundo os especialistas, o torneio reúne condições para produzir uma redução de demanda potencialmente inédita no histórico recente, sobretudo se o desempenho da seleção brasileira levar o país a acompanhar o campeonato por mais tempo.
ONS prepara operação especial para o sistema
Diante desse cenário, o ONS já anunciou um protocolo operacional específico para os jogos da fase de grupos do Brasil.
A diretriz prevê acompanhamento especial do SIN nas duas horas anteriores e nas duas horas posteriores a cada partida. Além disso, o operador determinou a proibição de intervenções que possam resultar em corte de carga, exceto em situações inevitáveis, e reforçou o monitoramento contínuo das condições meteorológicas durante os jogos.
Se a seleção brasileira avançar no torneio, a tendência é que essa operação especial seja mantida nas fases seguintes.
Menor consumo não elimina necessidade de geração térmica
Embora a demanda de energia deva cair durante os jogos, o Safra não vê espaço para uma redução expressiva da carga térmica no sistema.
A expectativa do banco é de manutenção de um nível razoável de despacho térmico, o que pode reforçar a segurança operacional do sistema, especialmente no controle de tensão. Em outras palavras, a queda do consumo não deve significar relaxamento na gestão da oferta de energia.
Esse ponto ajuda a explicar por que o impacto setorial tende a ser limitado. Mesmo com volumes mais fracos no período, o sistema deve seguir operando com suporte relevante de geração, o que reduz o risco de desequilíbrios operacionais mais agudos.
Efeito para distribuidoras deve ser restrito
Do ponto de vista corporativo, o Safra avalia que distribuidoras de energia podem sentir algum efeito negativo ao longo do segundo e do terceiro trimestres de 2026, diante da redução temporária no consumo.
Ainda assim, a leitura é de que o impacto será bastante limitado. Isso ocorre porque a queda de demanda tende a se concentrar em momentos específicos, ligados aos jogos da seleção brasileira, sem alterar de forma estrutural o comportamento do mercado de energia no país.
O que o investidor deve observar
Para o investidor, a principal conclusão é que a Copa do Mundo de 2026 pode provocar ruídos operacionais e estatísticos relevantes no setor elétrico, mas não deve mudar a tese estrutural das empresas.
O ponto de atenção estará na intensidade da queda de carga nos horários dos jogos e na eventual sensibilidade de distribuidoras aos volumes mais fracos. Ao mesmo tempo, a preparação antecipada do ONS e o suporte operacional do sistema reduzem o risco de impactos mais profundos para o setor.
Em síntese, a Copa deve mexer com o consumo de energia no Brasil. No entanto, a avaliação do Safra é que o efeito econômico sobre as empresas será pequeno, ainda que o comportamento da carga durante o torneio mereça monitoramento próximo.
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