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Combustíveis: margens avançam apesar da queda nas vendas

Dados da ANP mostram retração mensal nos volumes de diesel, gasolina e etanol, mas o ambiente para as distribuidoras foi parcialmente compensado por margens mais altas, desconto dos preços domésticos e estabilidade de participação de mercado entre as líderes

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Combustíveis

Diesel nozzle from a gas station filling a truck tank.

Em fevereiro, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reportou queda de 1,9% na comparação mensal nos volumes combinados de vendas de diesel, gasolina e etanol, para 10,6 milhões de metros cúbicos. Embora o dado aponte desaceleração da demanda no curto prazo, a leitura para o setor de distribuição de combustíveis não foi uniformemente negativa.

Na avaliação dos especialistas em investimentos do Safra, o principal contraponto à retração dos volumes veio da melhora das margens de comercialização e da manutenção de uma estrutura de preços domésticos ainda descontada em relação ao preço de paridade de importação (IPP), especialmente no diesel. Esse quadro favorece, em maior medida, as distribuidoras com acesso mais robusto ao suprimento da Petrobras.

Queda de volumes não impediu melhora da leitura operacional

O recuo das vendas em fevereiro atingiu o conjunto dos principais combustíveis do ciclo leve e pesado. Ainda assim, a dinâmica de preços e abastecimento trouxe sinais mais construtivos para o segmento.

Desde o último relatório do Safra, a Petrobras elevou o preço do diesel em R$ 0,38 por litro, enquanto o governo suspendeu a cobrança de tributos federais sobre o combustível. Esses efeitos, porém, ainda não estavam refletidos no dado mais recente da ANP, o que sugere que parte do impacto sobre demanda e rentabilidade ainda deve aparecer nas próximas leituras.

No comparativo com o IPP, os preços domésticos seguiam com desconto expressivo: 86% no diesel e 64% na gasolina, segundo o material do Safra. Em paralelo, a margem do diesel aumentou R$ 0,83 por litro, enquanto a da gasolina avançou R$ 0,20 por litro desde o relatório anterior.

Desconto ante o IPP reforça vantagem competitiva das grandes distribuidoras

A combinação entre preços domésticos defasados e alta nos custos internacionais amplia a relevância da origem de suprimento. Na prática, quando o combustível importado encarece mais rapidamente do que o produto adquirido da Petrobras, empresas com maior acesso ao abastecimento da estatal tendem a preservar melhor suas margens.

Importações mais caras elevam assimetria no setor

Segundo a análise do Safra, parte da expansão observada nas margens — sobretudo no diesel — pode refletir não apenas melhora operacional, mas também o encarecimento do combustível importado frente ao preço de referência da Petrobras, utilizado no cálculo.

Essa dinâmica reforça a vantagem relativa das três grandes distribuidoras em momentos de pressão altista nos preços internacionais. Em cenários assim, a escala logística, a capacidade de negociação e a maior parcela de suprimento doméstico se tornam diferenciais competitivos relevantes.

Importação de diesel russo avança e segue no radar

Se, por um lado, as margens trouxeram alívio, por outro o avanço das importações de diesel permaneceu como ponto de atenção. Em fevereiro, as importações consolidadas do combustível cresceram 5% na margem, impulsionadas por um salto de 98% nos volumes originados da Rússia.

O movimento merece monitoramento porque pode alterar a dinâmica competitiva e a formação de preços no mercado doméstico, especialmente em um ambiente de maior volatilidade internacional. Para os analistas, esse foi o principal vetor negativo do período.

Market share resiliente sustenta tese para incumbentes

Mesmo com queda de volumes em todas as empresas incumbentes, a participação de mercado das líderes mostrou resiliência. A Vibra (VBBR3) manteve market share estável em 20,9%, enquanto a Raízen (RAIZ4) ampliou sua fatia em 17 pontos-base, para 18,9%, e a Ipiranga avançou 16 pontos-base, para 17,4%. Já as demais distribuidoras perderam 33 pontos-base no período.

Raízen e Ipiranga se destacam na captura de participação

O ganho de share de Raízen e Ipiranga indica capacidade de execução comercial em um ambiente operacional mais desafiador. Em um setor de margens historicamente comprimidas, avanços, ainda que modestos, podem ter efeito relevante sobre percepção de competitividade e potencial de rentabilidade.

Outro fator favorável veio do biodiesel. O preço médio do produto até março estava 5,8% abaixo da média de fevereiro, o que tende a aliviar parte da pressão de custos no blend obrigatório e contribuir para a sustentação das margens do diesel.

Leitura para o investidor

Do ponto de vista de mercado, o quadro de fevereiro combina um sinal misto de demanda com indicadores operacionais mais benignos para as grandes distribuidoras.

A retração de volumes impõe cautela quanto ao ritmo de consumo, mas a expansão das margens, o desconto dos preços domésticos ante o IPP e a queda do biodiesel compõem um pano de fundo mais favorável para a rentabilidade do setor.

Entre os destaques positivos, o Safra aponta:

  • margens mais altas em gasolina e diesel;
  • preços domésticos do diesel negociados com desconto em relação ao IPP;
  • continuidade da queda nos preços do biodiesel;
  • ganho de participação de mercado por Raízen e Ipiranga.

No campo negativo, o principal ponto foi:

  • aumento dos volumes de diesel importado.

Para a Petrobras, a visão segue positiva no material de referência, com recomendação outperform e preço-alvo de R$ 43,00 para PETR4. Já para o segmento de distribuição, a mensagem central é que, apesar da fraqueza nos volumes em fevereiro, a estrutura de margens e o posicionamento competitivo das líderes continuam oferecendo suporte à tese de investimento.

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