Choque do petróleo afeta inflação e juros e Banco Safra revê projeções
Segundo o Safra, o choque do petróleo favorece a balança comercial e fiscal, mas prejudica a inflação, a política monetária e a atividade econômica no curto prazo
30/03/2026 3 minutos
A revisão das projeções foi anunciada pelo economista-chefe do Banco Safra, Eduardo Yuki, durante o J.Safra Macro Day | Foto: Divulgação
O Banco Safra revisou o cenário para a economia brasileira em 2026, incorporando o choque do petróleo provocado pela escalada do conflito no Oriente Médio. Segundo a análise do banco, a crise atual tem efeito misto: favorece balança comercial e a conjuntura fiscal, mas prejudica a inflação, a política monetária e a atividade econômica no curto prazo.
A revisão das projeções foi anunciada pelo economista-chefe do Banco Safra, Eduardo Yuki, durante o J.Safra Macro Day, evento realizado nesta segunda-feira, em São Paulo, com autoridades, economistas, executivos e especialistas em política para debater temas que influenciam o ambiente de investimentos. Os debates visam oferecer aos investidores acesso a informações de excelência e conteúdos relevantes para ajudá-los a tomar decisões estratégicas.
Revisão de projeções para a economia brasileira
Na visão do Banco Safra, a alta do petróleo tipo Brent melhora o setor externo e as contas públicas: a projeção de superávit comercial foi elevada para US$ 81 bilhões, o déficit em conta corrente foi estimado em 2,4% do PIB e o déficit primário do governo central melhorou para 0,3% do PIB, refletindo o ganho com exportações de commodities energéticas e maior arrecadação de royalties.
Ao mesmo tempo, o Safra destaca que esse choque piora o quadro inflacionário no curto prazo, ao pressionar custos de produção, fertilizantes, combustíveis e alimentos, o que levou à revisão da projeção do IPCA de 2026 para 4,3%.
Como consequência, o banco entende que o processo de desinflação ficará mais lento e que o Banco Central deverá manter um ritmo mais cauteloso de cortes de juros, com a Selic terminando 2026 em 12,25% ao ano.
Esse ambiente de inflação mais alta, juros ainda elevados e menor confiança tende a enfraquecer a demanda doméstica e o poder de compra das famílias, o que motivou a redução da projeção de crescimento do PIB para 1,6%.
Efeitos da crise externa
O economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento e ex-secretário especial do Ministério da Economia, comentou que, além do conflito no Oriente Médio, a economia global enfrenta novos desafios dinte do “processo dramático” de desrregulamentação e corte de impostos nos Estados Unidos.
Ele chamou o processo de “Trupulência” (turbulência causada pela gestão Trump), e afirmou que o fluxo de investimentos para a China está colapsando. “Os Estados Unidos devem cortar os impostos para as empresas de 27% para 23%, o que transforma o país numa bomba de sucção de investimentos”, disse.
Segundo ele, o conflito no Oriente Médio parece ser mais prejudicial do que vantajoso para a grande maioria dos países. Mas, para alguns poucos (Singapura, Arábia Saudita, Suíça, Argentina e Brasil), o conflito oferece mais benefícios que malefícios. No caso do Brasil, a vantagem vem da produção de alimentos, oferta de energia abundante e presença de minerais críticos (o Brasil tem a segunda maior reserva mundial, atrás apenas da China).
Impacto do choque do petróleo
No painel sobre desafios macroeconômicos, o economista-chefe da Genoa Capital, Igor Velecico, comentou que a magnitude do choque do petróleo ainda é incerta. “Ainda não há sinal de que vai afetar o crescimento, mas o choque é inflacionário”, afirmou.
Daniel Weeks, economista-chefe da Safra Asset, afirmou que a economia mundial está diante do maior choque de energia da história. “Para o Brasil, só o que já aconteceu até agora já representa um grande impacto. E o mundo ainda não cicatrizou dos efeitos da pandemia. É um momento complicado, e temos grande receio de um efeito maior ainda nos preços do petróleo”, afirmou.
Neste contexto, segundo ele, todos os países são perdedores, mas o Brasil pode ser favorecido na balança comercial. Do lado negativo, o ciclo de afrouxamento monetário fica mais complicado, disse.
Perspectiva otimista para a economia brasileira
No encerramento do debate, o economista Eduardo Yuki, do Banco Safra, citou fatores que devem beneficiar a economia brasileira nos próximos anos. Ele citou que a produção de petróleo deve crescer de 3,8 para 5,1 milhões de barris ao dia até 2031. Isso ajuda a melhorar o chamado PIB potencial, ou seja, o quanto o País pode crescer sem pressão inflacionária.
Ele também citou a conversão de pastagens em áreas agrícolas, que pode ampliar em 8% o espaço para a produção agrícola em cinco anos sem desmatamento. Além disso, a produtividade do agronegócio também tende a continuar crescendo. “Sou otimista com o futuro do Brasil”, concluiu.
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