O futuro da inteligência artificial na maior feira de tecnologia do mundo
CES 2026 representa o marco inicial da integração física da Inteligência Artificial (IA), segundo análise dos especialistas do Banco Safra
14/01/2026 5 minutos
A principal mensagem da feira foi a migração da IA de uma ferramenta baseada em chatbots (na nuvem) para uma IA física, embarcada em robôs autônomos ou vestíveis (wearables) | Foto: Getty Images
A CES 2026 (Consumer Electronics Show), maior feira de tecnologia do mundo, realizada em Las Vegas, continua sendo o principal palco global para inovação em eletrônicos de consumo e um termômetro para o sentimento da indústria de tecnologia.
O evento deste ano, realizado na semana passada, foi além da simples apresentação de gadgets, consolidando-se como o marco inicial da integração física da Inteligência Artificial (IA), segundo análise dos especialistas do Banco Safra.
A principal mensagem da feira foi a migração da IA de uma ferramenta baseada em chatbots (na nuvem) para uma IA física,
embarcada seja em robôs autônomos ou vestíveis (wearables).
Principais tendências da maior feira de tecnologia do mundo
A CES 2026 revelou que a indústria busca curar a fadiga de IA tornando a tecnologia invisível e contextual. Abaixo destacamos três dos principais destaques da feira.
A ascensão dos vestíveis (Wearables 2.0)
Diferentemente dos anos anteriores em que o foco foram os smartphones, a CES 2026 trouxe uma nova tese: para a IA ser verdadeiramente um agente, ela precisa ter os mesmos sentidos do usuário.
O evento mostrou a proliferação de novos formatos, como colares, óculos e anéis inteligentes projetados para “ver” e “ouvir” o ambiente em tempo real.
A lógica da indústria foi facilitar o uso. Enquanto o smartphone exige que o usuário o retire do bolso e abra um app, a nova
geração de wearables oferece uma IA sempre ativa (always-on). Isso abre um novo mercado endereçável para fabricantes de sensores e chips de ultrabaixo consumo, pois a batalha muda de quem tem a melhor tela para quem tem a melhor inferência contextual.
IA embarcada
Um tema recorrente ao longo desses dias de CES 2026, foi a IA embarcada (on-device), uma abordagem que vem ganhando cada vez mais força por conta das necessidades de baixa latência (respostas instantâneas) e, principalmente, privacidade.
Fabricantes deixaram claro que para consumidor e empresas confiarem em agentes de IA que monitoram suas vidas, os dados não podem sair do hardware. Isso valida o ciclo de investimento em processadores mais robustos em PCs e celulares, transformando a independência da internet em uma funcionalidade premium (feature premium).
Robôs autônomos
Sem dúvida, o tema de robôs autônomos foi, se não o tema de maior destaque, o mais debatido e que gerou maior repercussão entre consumidores e imprensa.
O destaque não foi apenas sua destreza mecânica, mas a integração de modelos de linguagem e visão em robôs humanoides e assistentes domésticos.
Além disso, testes de robotáxis sinalizam que a monetização de frotas autônomas está saindo da teoria para testes de campo, potencializando a demanda por chips de inferência veicular de alta performance.
Visão do Banco Safra
O desenvolvimento acelerado da IA física foi apontado pelos executivos da feira como a próxima grande fronteira de uso de dados, sugerindo que o mercado endereçável para hardware de robótica (e a demanda por chips) pode eventualmente rivalizar com o automotivo.
Além disso, essa tendência de uso mais prático e fácil pode ajudar a identificar as formas de monetizar os investimentos da indústria em IA e ajudar a acelerar ainda mais a demanda por chips.
Destaques corporativos
Nvidia: O maior destaque da feira, a Nvidia utilizou o evento para apresentar ao mercado detalhes de seu roadmap para o ano. A Nvidia antecipou para este evento detalhes da capacidade de processamento da nova arquitetura de processadores, o Vera Rubin (figura 1), previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano.
Segundo dados da companhia, os chips Rubin reduzirão o custo de geração de tokens de IA em até dez vezes na comparação com a geração anterior (Blackwell).
Além disso, a arquitetura Rubin promete reduzir em quatro vezes a quantidade de GPUs necessárias para treinamento e inferência. Esses diferenciais do Rubin devem sustentar uma demanda robusta nos próximos anos, que deve, inclusive, superar a previsão de outubro passado de US$ 500 bilhões até o fim de 2026.
Além do hardware, a Nvidia expandiu sua influência em software com o anúncio do Alpamayo, um modelo de direção autônoma com capacidades de raciocínio e planejamento, sinalizando sua intenção de se tornar o sistema operacional padrão também para robótica e mobilidade.
Intel: A Intel apresentou a família Panther Lake (figura 2), baseada no processo de fabricação 18A. A recepção do mercado foi positiva, impulsionada não apenas pelas especificações, mas pela percepção de que a empresa está cumprindo seu roadmap.
O lançamento de um chip dedicado a jogos mobile posiciona a empresa em um nicho de alta margem. Contudo, a tese de Intel ainda permanece atrelada à execução: a capacidade da companhia de entregar esses produtos em volume, sem novos atrasos, é o que determinará a recuperação da confiança institucional.
A recente aproximação da Intel com a Nvidia para potenciais serviços de manufatura sugere que a tecnologia 18A é promissora, mas essa tese de turnaround da fundição ainda carece de validação comercial em larga escala.

Dell Technologies: a empresa mostrou-se com uma postura mais sóbria. A gestão expressou ceticismo quanto ao apelo imediato do AI PC para o consumidor comum, evitando o marketing exagerado visto nos concorrentes. O foco estratégico permanece na renovação das linhas corporativas (Latitude) e premium (XPS), apostando que a demanda
virá da necessidade física de atualização de hardware nas empresas, e não de features de software que o usuário ainda
não valoriza.
Lenovo (sem cobertura): Em contraste com a Dell, a Lenovo buscou criar um ecossistema proprietário com o lançamento da Qira (figura 3), sua IA onipresente, e novos hardwares como o colar inteligente. A estratégia da companhia parece tentar criar um lock-in em que a IA conhece o usuário através de múltiplos dispositivos.
A gestão também alertou sobre potenciais gargalos na cadeia de suprimentos de semicondutores em 2026, sinalizando uma política de gestão de estoques mais robusta para garantir a disponibilidade de componentes em um cenário de alta demanda.
Qualcomm: A Qualcomm reforçou sua narrativa de diversificação para além dos smartphones. A empresa tem posicionado seus chips como a base da democratização da IA no Edge, argumentando que a eficiência energética de sua arquitetura ARM é superior para a nova onda de vestíveis e óculos inteligentes. A empresa tem defendido a tese de que a proliferação de robôs e vestíveis deve expandir seu mercado endereçável para muito além dos smartphones, dado que a inferência local em dispositivos a bateria será o padrão dominante, área em que a empresa possui vantagens técnicas históricas.
AMD: A empresa revelou os chips Instinct MI440X (figura 4), posicionando-os como concorrentes diretos da Nvidia, cujo lançamento está previsto para o fim do ano. Embora as especificações técnicas sejam competitivas, o desafio da AMD continua sendo a adoção de seu software por desenvolvedores. Ainda assim, a empresa mantém seu papel crucial no mercado como a alternativa necessária de alta performance para clientes que buscam diversificar fornecedores e mitigar a dependência única da Nvidia.

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