Casas Bahia entra em recuperação judicial e acelera redução da operação
Companhia protocolou o pedido no domingo, após divulgar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre; Safra vê aumento dos riscos de liquidez, execução e negociação com credores
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Companhia protocolou o pedido em 16 de agosto, um dia após divulgar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre; Safra vê aumento dos riscos de liquidez, execução e negociação com credores | Fotos: Getty Images
O Grupo Casas Bahia (BHIA3) protocolou, em 16 de agosto de 2026, pedido de recuperação judicial para reorganizar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em obrigações com bancos, fundos de investimento, seguradoras, fornecedores, locadores e trabalhadores. O processo envolve a companhia e nove subsidiárias e foi apresentado à Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo.
A decisão ocorreu após a divulgação dos resultados do segundo trimestre, que evidenciaram a deterioração da situação financeira da varejista. Em relatório publicado em 17 de agosto, o Banco Safra classificou o desempenho como negativo e afirmou que o pedido judicial aumenta os riscos de execução do plano, de negociação com credores e de liquidez.
Segundo a companhia, a recuperação judicial foi necessária diante da restrição de liquidez e do fracasso de alternativas de financiamento estruturadas anteriormente. O grupo afirmou que pretende manter suas operações físicas e digitais durante o processo de reorganização.
“A recuperação judicial faz parte de uma reorganização do passivo da empresa de forma mais ampla”, afirmou Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia.
Prejuízo bilionário foi influenciado por ajustes contábeis
O Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. O resultado foi impactado principalmente por R$ 3,5 bilhões em despesas operacionais não recorrentes e pela baixa contábil de R$ 5,7 bilhões em ativos fiscais diferidos.
Os ajustes foram realizados após a revisão das projeções financeiras da empresa e o lançamento da segunda fase do Plano de Transformação. Entre os efeitos reconhecidos estão:
- R$ 502 milhões em despesas relacionadas à reestruturação;
- R$ 210 milhões associados a ativos fixos e ao fechamento de lojas;
- R$ 971 milhões em perdas de valor de ágio e outros ativos intangíveis;
- R$ 1,8 bilhão em provisões relacionadas ao provável não cumprimento de metas contratuais;
- R$ 5,7 bilhões em baixa de ativos fiscais diferidos.
Excluindo esses efeitos, a administração estimou um prejuízo líquido ajustado de R$ 978 milhões e uma perda antes de impostos de R$ 1,1 bilhão.
Os lançamentos reduziram o patrimônio líquido da companhia para R$ 8,3 bilhões negativos. A EY, responsável pela revisão das demonstrações financeiras intermediárias, não emitiu conclusão sobre os números, citando incerteza relevante relacionada à continuidade operacional da empresa.
Receita cresce, mas fica abaixo das projeções
A receita líquida alcançou R$ 7 bilhões no segundo trimestre, alta de 2% em relação ao mesmo período de 2025, mas 6% abaixo da estimativa do Safra.
O volume bruto de mercadorias, ou GMV, somou R$ 10,5 bilhões, praticamente estável na comparação anual e 2% acima da projeção do banco. O desempenho foi sustentado principalmente pelas categorias principais da companhia e pela expansão das vendas próprias no comércio eletrônico.
O GMV de produtos vendidos diretamente pela companhia, conhecido como 1P, cresceu 15% em 12 meses, no quinto trimestre consecutivo de expansão. O GMV total do comércio eletrônico avançou 6%, enquanto o volume do marketplace, ou 3P, recuou 6,7%.
Apesar da queda no volume do marketplace, a receita permaneceu estável e a taxa de comissão, conhecida como take rate, subiu de 12,5% para 13,1%. O movimento reflete a estratégia de priorizar a rentabilidade do canal em vez de ampliar vendas sem retorno econômico adequado.
Nas lojas físicas, as vendas mesmas lojas recuaram 3,2%, diante de uma base de comparação forte e da menor disponibilidade de estoques.
Margem bruta avança, mas EBITDA recua
O lucro bruto chegou a R$ 2,4 bilhões, com margem bruta de 33,7%, expansão de 2,84 pontos percentuais em relação ao segundo trimestre de 2025.
A melhora foi atribuída à maior participação de categorias mais rentáveis, como linha branca, televisores e produtos portáteis e sazonais. Também contribuíram condições comerciais mais favoráveis em parcerias estratégicas de comércio eletrônico e o aumento das receitas de publicidade associado à Copa do Mundo.
O avanço da margem, porém, não foi suficiente para compensar a piora das despesas de venda e o desempenho mais fraco das lojas físicas. O EBITDA ajustado caiu 9%, para R$ 518 milhões, ficando 14% abaixo da estimativa do Safra.
A margem EBITDA ajustada recuou de 8,3% para 7,4%. As despesas financeiras líquidas, por sua vez, alcançaram R$ 1,3 bilhão, alta de 11% em relação ao ano anterior e 7% acima da projeção do banco.
Redução da dívida não significa geração de caixa
A companhia informou uma redução de R$ 3,8 bilhões na dívida líquida acumulada em 12 meses. O número, contudo, inclui aproximadamente R$ 4,2 bilhões em dívidas convertidas em participação acionária.
Na avaliação do Banco Safra, descontado esse efeito, a empresa apresentou consumo de caixa de aproximadamente R$ 400 milhões em 12 meses. O banco destacou que a redução da dívida reportada não deve ser interpretada integralmente como resultado de geração operacional de caixa.
A companhia também conseguiu melhorar o ciclo financeiro em 31 dias na comparação anual. Os estoques recuaram 17 dias, para 75 dias, enquanto o prazo total com fornecedores aumentou 14 dias, para 142 dias.
O estoque caiu R$ 685 milhões em um ano e R$ 1,2 bilhão em relação ao trimestre anterior. O movimento refletiu tanto a disciplina de capital de giro quanto as restrições ao crédito comercial e à capacidade de compras.
Embora o consumo de caixa em 12 meses tenha diminuído R$ 800 milhões em relação ao primeiro trimestre de 2026, o Safra avaliou que a melhora sequencial não elimina a pressão sobre a liquidez da companhia.
Fase 2 prevê uma Casas Bahia menor
A recuperação judicial ocorre paralelamente à segunda fase do Plano de Transformação, que prevê o redimensionamento da companhia para uma escala compatível com sua capacidade de geração de retorno.
A primeira medida anunciada foi o fechamento de 298 lojas de baixo desempenho, o equivalente a aproximadamente 30% da base de unidades. A empresa também prevê uma redução estrutural de custos e despesas.
Prioridade passa a ser caixa e rentabilidade
A nova etapa inclui:
- revisão dos canais digitais;
- adequação de estoques e capital de giro;
- redução dos investimentos;
- busca por alternativas para diminuir o custo financeiro;
- foco em margem e geração de caixa;
- menor exposição a volumes que não apresentem retorno econômico.
A estratégia representa uma mudança de prioridade. Em vez de perseguir crescimento de vendas a qualquer custo, a companhia pretende concentrar recursos nas atividades com maior capacidade de geração de caixa e retorno sobre o capital empregado.
Para o Safra, a redução da operação pode contribuir para diminuir a necessidade de capital, mas a implementação do plano ocorrerá em um ambiente de elevada incerteza. A recuperação judicial adiciona complexidade à renegociação das dívidas e à preservação das relações com fornecedores e demais credores.
Mercado acompanha riscos de execução e renegociação
O pedido de recuperação judicial deverá concentrar a atenção dos investidores em três frentes: a capacidade de manter a operação, a velocidade de negociação com credores e a efetividade das medidas de redução de custos e capital de giro.
O Grupo Casas Bahia afirmou que continuará operando em seus canais físicos e digitais, atendendo clientes e trabalhando com fornecedores durante o processo. A companhia também informou que convocará uma assembleia geral extraordinária para ratificar o pedido apresentado em caráter de urgência.
Em sua cobertura, o Safra manteve a classificação “Underperform” para as ações BHIA3. O relatório indicava preço de mercado de R$ 0,66 e preço-alvo de 12 meses de R$ 1,20, com base nas premissas e metodologias próprias da instituição.
A avaliação, contudo, ressalta que o relatório de análise não constitui recomendação personalizada de investimento. As ações podem não ser adequadas a todos os investidores, e decisões devem considerar objetivos, tolerância a risco, situação financeira e análise independente.
O principal desafio da varejista, daqui em diante, na visão do Safra, será transformar a reorganização judicial em uma estrutura financeira sustentável sem comprometer a operação, a relação com fornecedores e a capacidade de recuperar margens em um ambiente ainda adverso para o consumo e o crédito.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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