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Braskem avança na troca de controle, mas fragilidade financeira pesa no crédito

Assinatura do contrato de venda da participação da Novonor ao FIP Shine e novo acordo de acionistas com a Petrobras destravam a transição societária da Braskem,

4 minutos
Análise da Braskem

Alavancagem elevada, patrimônio líquido negativo e incertezas no México mantêm a pressão sobre a percepção de risco da Braskem| Foto: Getty Images

A Braskem (BRKM5) entrou em abril com avanços concretos na transferência de controle acionário, mas encerra o período ainda cercada por fragilidades que mantêm o nome sob atenção do mercado de crédito.

Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, a assinatura do contrato definitivo de venda da participação da Novonor ao FIP Shine, assessorando pela IG4 Capital, e a formalização de um novo acordo de acionistas com a Petrobras representam marcos relevantes para a reorganização societária da petroquímica.

Ainda assim, o quadro financeiro da companhia segue pressionado por margens enfraquecidas, forte deterioração da alavancagem e patrimônio líquido negativo.

O movimento mais relevante ocorreu em 17 de abril de 2026, quando a Novonor assinou o contrato definitivo de venda ao FIP Shine.

Dias depois, em fato relevante divulgado em 23 de abril, a Petrobras formalizou a decisão de não exercer os direitos de preferência e de tag along e celebrou novo acordo de acionistas com o fundo, a ser implementado com a conclusão da transferência das ações.

A leitura do mercado é de que a transação reduz incertezas sobre a estrutura de comando da Braskem, embora não elimine, por si só, os desafios de crédito da companhia.

Transferência de controle ganha tração com IG4 e Petrobras

O processo já havia avançado em 6 de março, quando a Superintendência-Geral do Cade aprovou sem restrições a transferência de controle da Braskem para a IG4 Capital, encerrando 73 dias de análise. Segundo o relatório, a operação também já recebeu aval concorrencial no México, na União Europeia e nos Estados Unidos, restando apenas a anuência no âmbito do Foreign Subsidies Regulation (FSR).

Pelo desenho societário acordado, o FIP Shine passará a deter 50,1% do capital votante e 34,3% do capital total da Braskem. A Petrobras ficará com 47% do capital votante e 36,1% do capital total, enquanto a Novonor permanecerá com cerca de 4%, sem direitos de governança. Como parte da operação, a IG4 assumiu o compromisso de registrar uma oferta pública de aquisição (OPA) de até a totalidade das ações em circulação.

Governança compartilhada amplia influência da Petrobras

Mais do que uma mera troca de controle, o novo acordo de acionistas introduz um arranjo de governança compartilhada. As deliberações no conselho de administração e na assembleia geral passam a depender de consenso entre FIP Shine e Petrobras, além de prever paridade na indicação de membros do conselho e da diretoria executiva.

Na prática, o formato amplia a influência da Petrobras sobre a gestão da Braskem, um ponto que já vinha sendo tratado como estratégico pela estatal nos últimos anos. Para o investidor em crédito, isso tende a reduzir ruídos sobre estabilidade decisória no comando da companhia, ainda que permaneça a necessidade de acompanhar como essa convivência será traduzida em execução operacional e disciplina financeira.

Deterioração operacional mantém pressão sobre indicadores

Se, de um lado, a frente societária evoluiu, de outro a estrutura financeira da Braskem continua fragilizada. O relatório do Safra destaca que o resultado de 2025 refletiu a compressão disseminada dos spreads petroquímicos e a redução de volumes em praticamente todos os segmentos de atuação.

A dívida líquida ajustada corporativa, excluindo Braskem Idesa, somou US$ 7,5 bilhões em dezembro de 2025, alta de 19% na comparação anual. Já a alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida ajustada e EBITDA recorrente, alcançou 14,74 vezes, contra 7,42 vezes em dezembro de 2024.

Trata-se de uma piora expressiva, explicada sobretudo pela retração de aproximadamente 40% do EBITDA recorrente, que caiu de US$ 845 milhões para US$ 508 milhões, combinada ao aumento do endividamento líquido.

O diagnóstico reforça uma tese central para o mercado de renda fixa: a melhora institucional no controle não é suficiente, neste momento, para compensar a deterioração dos fundamentos operacionais. Em outras palavras, o risco de governança diminui, mas o risco financeiro continua elevado.

Patrimônio líquido negativo agrava leitura de risco

Outro ponto sensível é a manutenção de patrimônio líquido negativo, indicador que, combinado com margens comprimidas e alavancagem muito acima dos níveis historicamente confortáveis para o setor, reforça a percepção de fragilidade no perfil de crédito da petroquímica.

Esse quadro ajuda a explicar por que, mesmo diante do avanço na reorganização societária, a companhia segue classificada em faixa de alto risco de crédito. No material, a Braskem aparece com rating CC(bra) pela Fitch e brCCC- pela S&P, patamares compatíveis com um cenário de estresse financeiro relevante e baixa margem de segurança para os credores.

Braskem Idesa segue como foco adicional de incerteza

A situação da Braskem Idesa, subsidiária mexicana, adiciona uma camada extra de preocupação à história de crédito da companhia. Segundo o relatório, a operação segue sem acordo com os detentores de bônus após eventos de inadimplência relacionados ao pagamento de juros das notas com vencimento em 2029, em novembro de 2025, e das notas de 2032, em fevereiro de 2026.

Em comunicado divulgado em 9 de abril, a empresa informou que avalia diferentes alternativas para reequilibrar a estrutura de capital da operação mexicana, incluindo eventuais medidas de proteção, embora sem decisão tomada até o momento. A companhia mantém negociações com um grupo ad hoc de credores e conta com assessoria financeira e jurídica nesse processo.

Reestruturação no México pode influenciar percepção do grupo

Ainda que a dívida analisada no indicador corporativo exclua a Braskem Idesa, o impasse no México segue relevante para a leitura consolidada de risco. Isso porque uma reestruturação, especialmente se envolver mecanismos mais duros de proteção ou renegociação com credores, pode afetar a percepção do mercado sobre a capacidade do grupo de estabilizar sua estrutura de capital em diferentes geografias.

Para o investidor institucional, o caso mexicano funciona como variável complementar de monitoramento. Ele não altera sozinho a tese da controladora, mas reforça a visão de que a Braskem atravessa uma fase em que eventos societários positivos convivem com pressões operacionais e financeiras ainda sem solução clara.

O que o mercado deve acompanhar daqui para frente

Os próximos passos tendem a se concentrar em três frentes:

  • A primeira é a conclusão formal da transferência de controle para o FIP Shine, dependente da etapa regulatória remanescente.
  • A segunda é a capacidade de a nova estrutura de governança produzir maior previsibilidade estratégica e eventual melhora na condução corporativa.
  • A terceira, e mais decisiva para o crédito, é a evolução dos fundamentos financeiros da companhia, especialmente margens, geração de caixa, alavancagem e desdobramentos da Braskem Idesa.

No curto prazo, a reorganização societária reduz parte da incerteza institucional e dá novo contorno ao equilíbrio de poder entre os principais acionistas.

Mas, para uma inflexão mais consistente na percepção de risco, o mercado precisará enxergar sinais concretos de recomposição operacional e de desalavancagem.

Até lá, a leitura predominante deve continuar sendo a de uma companhia com governança em rearranjo, porém ainda sob forte pressão financeira.

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