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Braskem enfrenta dívida elevada, caixa pressionado e risco de crédito

Resultado expõe deterioração do perfil de crédito, com queda de rentabilidade, consumo de caixa e pressão da Braskem Idesa, que entrou em default

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BRKM5

O quadro é agravado pela situação da Braskem Idesa, operação no México que entrou em default após deixar de pagar juros de bonds com vencimentos em 2029 e 2032 | Foto: Getty Images

A Braskem (BRKM5) encerrou 2025 com deterioração expressiva em seus indicadores de crédito, em um ambiente ainda marcado pela fraqueza global do ciclo petroquímico. A combinação entre compressão de spreads internacionais, menor volume de vendas, prejuízo elevado e consumo relevante de caixa levou a alavancagem corporativa da companhia a 14,74 vezes dívida líquida ajustada sobre EBITDA recorrente, mais que o dobro do observado no fim de 2024.

O quadro é agravado pela situação da Braskem Idesa, operação no México que entrou em default após deixar de pagar juros de bonds com vencimentos em 2029 e 2032. O episódio acionou cláusulas de cross-default, ampliou a pressão sobre a percepção de risco da companhia e reforçou o viés negativo para o crédito, ainda que a dívida da subsidiária não tenha recurso direto contra a Braskem S.A.

Apesar disso, a petroquímica preserva, por ora, uma almofada de liquidez relevante. Com caixa de US$ 2,1 bilhões ao fim de 2025, reforçado pelo saque integral de uma linha stand-by de US$ 1 bilhão em outubro, a empresa mantém capacidade para atravessar os vencimentos de 2026.

O ponto central para o mercado, no entanto, deixa de ser apenas liquidez imediata e passa a ser a sustentabilidade da estrutura de capital em um cenário de refinanciamento mais caro e recuperação operacional ainda incerta.

Rentabilidade desaba com ciclo petroquímico ainda deprimido

A receita líquida consolidada da Braskem somou R$ 70,7 bilhões em 2025, queda de 8,6% na comparação anual. O recuo refletiu a piora dos spreads petroquímicos internacionais e a retração dos volumes, com destaque para a queda de 5% nas vendas de resinas no Brasil e de 16% no México.

Mais revelador do enfraquecimento operacional foi o comportamento das margens. O lucro bruto consolidado caiu 74%, para R$ 1,6 bilhão, levando a margem bruta a apenas 2,2%, bem abaixo dos 7,7% registrados em 2024. O EBITDA recorrente recuou 45%, para R$ 3,2 bilhões, enquanto a margem EBITDA encolheu de 7% para 4%.

O segmento Brasil/América do Sul respondeu praticamente sozinho pela geração operacional positiva do grupo. Estados Unidos e Europa tiveram contribuição marginalmente negativa, pressionados pela fraqueza no polipropileno, enquanto o México concentrou a pior deterioração, com prejuízo operacional robusto e reconhecimento de impairment na Braskem Idesa.

Brasil segue como principal âncora operacional

A operação brasileira continua sendo o principal suporte econômico da companhia. Com receita de R$ 51,8 bilhões, o segmento gerou lucro bruto de R$ 3,1 bilhões e resultado operacional de R$ 2,6 bilhões em 2025. Ainda assim, houve perda de fôlego, com taxa média de utilização das centrais petroquímicas de 68%, abaixo dos 72% observados em 2024.

Essa dinâmica mostra que, embora a liderança da Braskem no mercado doméstico siga sendo um ativo estratégico, ela já não é suficiente para neutralizar, sozinha, a deterioração do ambiente global de spreads e demanda.

Prejuízo bilionário reflete efeitos contábeis e fragilidade operacional

A companhia reportou prejuízo líquido consolidado próximo de R$ 11 bilhões em 2025, após perda de R$ 12,1 bilhões em 2024. Embora o resultado tenha sido influenciado por efeitos sem impacto imediato sobre a liquidez, como a provisão de R$ 11,1 bilhões para não realização de ativo fiscal diferido e impairment de R$ 1,4 bilhão ligado à Braskem Idesa, o número reforça a perda de capacidade de geração de valor no atual estágio do ciclo.

Ao mesmo tempo, a linha de outras receitas foi sustentada por créditos tributários extraordinários, como R$ 1,7 bilhão em créditos de CIDE-Combustíveis e R$ 465 milhões em créditos do REIQ. Esses itens ajudaram o resultado operacional, mas têm natureza não recorrente nessa magnitude, o que limita sua capacidade de alterar estruturalmente a percepção de risco.

Geração de caixa piora e cobertura de juros fica abaixo de 1 vez

Se a fotografia do resultado já é fraca, o filme do caixa é ainda mais desafiador. O caixa líquido das atividades operacionais foi negativo em R$ 4,2 bilhões em 2025, revertendo geração positiva de R$ 2,4 bilhões no ano anterior. Antes de juros e imposto de renda, o caixa gerado nas operações caiu para apenas R$ 442 milhões, ante R$ 7,3 bilhões em 2024.

Os desembolsos com o evento geológico de Alagoas consumiram R$ 2,6 bilhões no ano, enquanto os juros pagos chegaram a R$ 4,4 bilhões. Com capex de R$ 3,1 bilhões, a queima de caixa se aprofundou. Pela métrica recorrente da companhia, o consumo foi de R$ 5,9 bilhões.

A piora operacional teve impacto direto sobre os indicadores de solvência. A cobertura de juros, medida pela relação entre EBITDA recorrente e juros pagos, caiu para 0,87 vez, ante 1,49 vez em dezembro de 2024. Em termos práticos, isso significa que a geração operacional corrente já não cobre integralmente a despesa financeira da dívida.

Capex menor sinaliza foco em preservação de liquidez

O plano de investimentos para 2026, excluindo Braskem Idesa e REIQ Investimentos, é de US$ 465 milhões, cerca de 31% abaixo da média dos últimos seis anos. Todo o montante previsto está classificado como investimento operacional, voltado à manutenção e segurança, o que indica postura conservadora e prioridade para preservação de caixa.

Projetos de expansão, como o Transforma Rio, seguem condicionados à obtenção de financiamento, reforçando que a agenda de crescimento perdeu espaço para a gestão da liquidez e da estrutura de capital.

Default da Braskem Idesa amplia percepção de risco

A situação da Braskem Idesa tornou-se um dos principais vetores de preocupação para credores e investidores. A subsidiária mexicana registrou prejuízo líquido de R$ 4,5 bilhões em 2025, em meio a restrições no acesso a etano local, spreads comprimidos e custos logísticos elevados com matérias-primas importadas.

Após o não pagamento de juros do bond 2029 em novembro de 2025 e do bond 2032 em fevereiro de 2026, houve deflagração de cross-default e reclassificação de R$ 12,1 bilhões em dívidas para o passivo circulante. A contratação de assessores para conduzir a reestruturação indica que o processo pode avançar para soluções mais profundas, inclusive com potencial uso de instrumentos jurídicos típicos de reorganização.

Embora a dívida da Braskem Idesa seja non-recourse em relação à Braskem S.A., o episódio contamina a leitura de risco do grupo, especialmente em um momento em que a holding já opera com alavancagem elevada e baixa cobertura de juros.

Liquidez ainda protege 2026, mas refinanciamento tende a cobrar prêmio alto

A Braskem terminou 2025 com dívida bruta consolidada de US$ 12 bilhões, sendo US$ 9,4 bilhões na companhia e US$ 2,6 bilhões na Braskem Idesa. Excluindo a subsidiária mexicana, o caixa de US$ 2,1 bilhões cobre em quase 1,4 vez a dívida de curto prazo, incluindo juros, o que reduz o risco de estresse imediato ao longo de 2026.

Ainda assim, a leitura de mercado permanece cautelosa. O saque integral da linha stand-by de US$ 1 bilhão, com vencimento em dezembro de 2026, concentra pressão de curto prazo. Mais adiante, os vencimentos de 2028 e 2030 desenham uma parede de amortização relevante em um contexto de custo de capital mais alto e menor tolerância do mercado a emissores alavancados.

Proteção regulatória ajuda, mas não resolve a tese de crédito

No front doméstico, a Braskem se beneficia de medidas regulatórias que podem aliviar parcialmente a pressão operacional. Entre elas estão o antidumping provisório sobre PE dos Estados Unidos e Canadá, a manutenção da tarifa de importação de 20% para resinas, a publicação do PRESIQ e a ampliação do REIQ em março de 2026.

Essas iniciativas tendem a melhorar a competitividade da indústria química nacional e podem gerar ganho estimado de até R$ 1,5 bilhão no EBITDA de 2026, segundo o material analisado. Ainda assim, esse suporte é insuficiente, por si só, para reverter uma alavancagem tão elevada. A recomposição mais consistente do perfil de crédito continua dependente de uma melhora cíclica mais ampla no mercado petroquímico internacional.

Mudança de controle pode abrir nova etapa para a companhia

Outro elemento relevante no radar é a potencial mudança de controle. Em dezembro de 2025, a Novonor informou a celebração de acordo vinculante para transferência dos créditos garantidos por ações da Braskem a veículo ligado à Vórtex Capital, com assessoria da IG4. A operação já recebeu aprovação do Cade em março de 2026, sem restrições, e ainda depende de autorizações em outras jurisdições.

Para o mercado, a entrada de um novo controlador pode representar uma inflexão estratégica, seja por eventual revisão da política de capital, seja por maior disposição para reestruturações financeiras e operacionais. No curto prazo, porém, o tema adiciona complexidade a uma companhia que já enfrenta pressão simultânea sobre operação, crédito e governança.

O que o investidor deve observar daqui para frente

A atualização de crédito da Braskem sugere que a companhia entra em 2026 em posição frágil, mas não ainda em ruptura. O caixa disponível oferece tempo, porém esse tempo precisará ser convertido em melhora de fundamentos. Para o investidor em crédito, os principais pontos de monitoramento passam por:

Indicadores-chave no radar

  • evolução dos spreads petroquímicos globais;
  • capacidade de recomposição de margens no Brasil;
  • andamento da reestruturação da Braskem Idesa;
  • custo e acesso a refinanciamento da dívida corporativa;
  • captura efetiva dos benefícios regulatórios em 2026;
  • eventual mudança de estratégia com novo controlador.

Em síntese, a Braskem preserva escala, posição dominante e liquidez suficiente para enfrentar o curto prazo, mas seu perfil de crédito se deteriorou de forma significativa. Sem melhora operacional mais consistente e sem alívio estrutural da alavancagem, a companhia tende a seguir sob forte escrutínio do mercado de dívida.

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