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Brasil–EUA: subdesempenho histórico do comércio bilateral

Tarifaço da era Trump, investigações da Seção 301 e baixa integração comercial revelam riscos limitados no curto prazo, mas evidenciam oportunidades estruturais perdidas entre as duas economias

2 minutos
brasil vs. eua

Portos e terminais de carga simbolizam o comércio Brasil–EUA, marcado por baixo aproveitamento do potencial econômico entre as duas maiores economias do Hemisfério Ocidental | Foto: Getty Images

O comércio entre Brasil e Estados Unidos constitui um paradoxo relevante da economia internacional contemporânea. Embora se trate de duas grandes economias — uma desenvolvida e outra emergente —, a intensidade comercial entre ambos permanece modesta. O Brasil registra atualmente um PIB nominal de US$ 2,6 trilhões, enquanto suas exportações totais somaram US$ 350 bilhões em 2025, o equivalente a 13,5% do PIB.

Esse indicador coloca o país em posição atípica no cenário internacional. Entre as economias do G20, apenas Estados Unidos e Argentina apresentam proporção de exportações em relação ao PIB inferior à brasileira, evidenciando o peso do mercado interno e a limitada inserção externa.

A relação comercial Brasil–EUA configura, nas palavras do especialista em globalização Marcos Troyjo, um “case exemplar de deseconomia, subdesempenho e oportunidades desperdiçadas”.

Os Estados Unidos e a escala do mercado importador

Importações que superam economias inteiras

Com PIB nominal de US$ 31 trilhões, os Estados Unidos importam cerca de 12% de sua produção, o que representa aproximadamente US$ 3,7 trilhões em compras externas. Esse montante supera, isoladamente, o PIB da França e equivale ao PIB somado de todos os países do continente africano.

Apesar dessa escala, o Brasil responde por apenas 1% das importações norte-americanas, algo em torno de US$ 37 bilhões, proporção que já era reduzida mesmo antes da escalada recente de tensões comerciais.

O tarifaço e a virada neoprotecionista

A política de “Comércio Justo e Recíproco”

Em 2 de abril de 2025, durante a segunda presidência de Donald Trump, o governo norte-americano anunciou a chamada “Política de Comércio Justo e Recíproco”, popularmente conhecida como tarifaço. A medida impôs novas alíquotas de importação a todos os parceiros comerciais, com base em instrumentos emergenciais previstos na IEEPA (International Emergency Economic Powers Act).

Essas tarifas, no entanto, enfrentaram questionamentos jurídicos e acabaram derrubadas pela Suprema Corte em fevereiro de 2026, reduzindo seu impacto direto e imediato.

A Seção 301 como instrumento central

Investigações ampliam incertezas

Paralelamente ao tarifaço, os EUA ampliaram o uso de instrumentos tradicionais de política comercial, com destaque para as investigações da Seção 301, conduzidas pelo USTR (United States Trade Representative). Atualmente, 76 países estão sob algum tipo de investigação.

  • 16 países, como China, Índia, México, Taiwan e a União Europeia, são investigados por suposta capacidade industrial excessiva.
  • 60 países enfrentam apurações relacionadas à alegada utilização de mão de obra forçada.
  • Um grupo seleto — que inclui Brasil, Coreia do Sul, China, Nicarágua e Vietnã — é alvo de investigações mais amplas e específicas.

Impacto potencial sobre as exportações brasileiras

Risco concentrado, efeito macroeconômico limitado

Caso os Estados Unidos venham a aplicar tarifas adicionais às exportações brasileiras como resultado das investigações da Seção 301, estima-se que 25% das vendas do Brasil ao mercado americano seriam afetadas. Em valores absolutos, isso representa cerca de US$ 9,4 bilhões, o equivalente a 2,7% do total exportado pelo país.

Do ponto de vista macroeconômico, o impacto é relativamente contido: o valor sujeito a novas tarifas corresponderia a aproximadamente 0,36% do PIB brasileiro. Ainda assim, os efeitos setoriais e sobre cadeias específicas podem ser relevantes, sobretudo em segmentos industriais com maior valor agregado.

Um “case” de oportunidades desperdiçadas

A combinação de baixa integração produtiva, ausência de acordos estruturais e recorrentes barreiras comerciais ajuda a explicar por que duas economias de grande porte mantêm um intercâmbio aquém de seu potencial, destaca o especialista Marcos Troyjo.

No médio e longo prazos, a superação desse quadro exigirá mais do que a mitigação de riscos tarifários: passa por estratégia comercial ativa, convergência regulatória, integração em cadeias globais de valor e maior previsibilidade institucional.

Cley Scholz

Jornalista formado pela PUC-PR com pós em gestão de empresas jornalísticas na ESPM. Trabalhou como repórter e editor nos jornais O Estado de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, JT, Agência Estado, revista Veja e portal de Economia do Estadão. LinkedIn

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