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Bets avançam e expõem disputa com investimentos no orçamento das famílias

Recorte da pesquisa da Anbima mostra crescimento das apostas online, maior adesão entre Geração Z e Millennials e contraste com um mercado de investimentos que avança, mas ainda encontra barreiras de renda e planejamento

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Bets ganham espaço sobretudo entre os mais jovens, enquanto os investimentos seguem mais associados a diversificação, reserva e planejamento | Foto: Getty Images

As apostas online ampliaram presença no cotidiano financeiro dos brasileiros e passaram a disputar atenção, renda disponível e expectativa de ganho sobretudo entre os mais jovens. É o que mostra a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima em parceria com o Datafolha, que identifica uma expansão das bets em paralelo ao amadurecimento gradual da cultura de investimentos no país.

Em 2025, 17% da população afirmaram ter feito apostas online, acima dos 15% registrados na edição anterior. O dado, por si só, não autoriza afirmar uma substituição direta entre aposta e investimento, mas o recorte geracional e comportamental da pesquisa sugere uma tensão crescente entre os dois universos: de um lado, a lógica da construção patrimonial, ainda lenta e limitada pela renda; de outro, a promessa de ganho rápido, fortemente aderente ao público jovem.

Aposta cresce, mas investimento ainda é outra lógica

A Anbima mostra que o Brasil encerrou 2025 com 36% da população investindo em produtos financeiros, o equivalente a 60,6 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, 17% fizeram apostas online.

Embora sejam práticas de natureza distinta, ambas orbitam a mesma questão econômica: o que fazer com a pequena parcela de renda que sobra — ou que se tenta multiplicar.

As bets avançam em um ambiente em que 64% da população ainda não investem e 55% não guardam dinheiro de nenhuma forma. Nesse contexto, a aposta aparece menos como alternativa sofisticada ao investimento e mais como atalho imaginado para obter renda extraordinária, ignorando a questão das probabilidades.

A pesquisa mostra isso com clareza: 39% dos apostadores dizem que fazem bets pela chance de ganhar dinheiro rápido em caso de necessidade, e 37% mencionam a possibilidade de ganhar uma quantia elevada.

Ao mesmo tempo, cresceu de 26% para 32% a parcela dos que veem as apostas como diversão. Já 20% ainda classificam a prática como forma de investir ou juntar dinheiro.

Jovens concentram a adesão às bets

O recorte geracional é o ponto mais eloquente do levantamento. Entre os integrantes da Geração Z, 27% afirmam apostar online. Entre os Millennials, o índice é de 22%. Na Geração X, cai para 10%; entre os Boomers, despenca para 4%.

A pesquisa também mostra que os apostadores, em média, são mais jovens, mais masculinos e têm renda familiar mensal superior à média da população. O perfil sugere que as bets se consolidaram como prática tipicamente digital, associada a familiaridade com aplicativos, maior exposição a redes sociais e uma cultura de consumo financeiro mais imediatista.

Enquanto bets atraem jovens, investimentos mostram outro padrão geracional

O contraste fica mais interessante quando o tema muda de apostas para investimentos. A proporção de investidores varia menos entre as gerações do que a adesão às bets, mas o modo de investir muda bastante conforme a idade.

A Geração Z aparece com carteiras relativamente mais diversificadas, menor dependência da poupança e maior uso de canais digitais. Já os Boomers concentram mais recursos na caderneta e mantêm relação mais tradicional com o sistema financeiro, com maior peso do atendimento presencial no banco.

Em outras palavras, os jovens estão mais expostos tanto às novas formas de investir quanto às novas formas de apostar. A diferença é que os investimentos ainda exigem repertório, paciência e algum excedente financeiro, enquanto as bets operam com linguagem mais simples, promessa instantânea e baixa barreira de entrada.

Diversificação entre jovens não elimina vulnerabilidade

A pesquisa evita conclusões simplistas. O fato de a Geração Z ser mais aberta a produtos financeiros não significa que esteja financeiramente mais protegida. Ao contrário: os jovens se destacam por ter alguma reserva de emergência com mais frequência, mas em geral de curta duração. Para 57% da Geração Z, o dinheiro guardado não sustentaria mais de seis meses.

Isso ajuda a explicar por que a ideia de ganho rápido encontra tração. Em um contexto de proteção patrimonial limitada, a aposta pode funcionar como extensão da ansiedade financeira, e não apenas como entretenimento.

Bets avançam onde o planejamento ainda é frágil

O relatório ajuda a entender por que as apostas ganham espaço justamente em uma sociedade que ainda poupa pouco para objetivos estruturais. Apenas 16% dos não aposentados já iniciaram uma reserva para a aposentadoria. Quase um terço da população não possui qualquer reserva de emergência. E 47% convivem com alto estresse financeiro.

Esse pano de fundo importa porque mostra que a ascensão das bets não ocorre em um mercado plenamente financeirizado, mas em um ambiente de fragilidade. Para parte do público, apostar não compete com uma carteira consolidada de investimentos; compete com a ausência de alternativas percebidas de mobilidade financeira no curto prazo.

A aposta recreativa cresce, mas o risco permanece

A edição de 2026 do relatório da Anbima mostra mudança na narrativa das apostas. A motivação ligada à diversão cresceu, enquanto a visão das bets como investimento ficou estável em 20%, abaixo de patamares anteriores. Isso sugere uma normalização cultural da prática, com menos necessidade de justificá-la como estratégia racional de dinheiro.

Ainda assim, o componente de risco segue elevado. O índice de tendência ao vício calculado pela Anbima mostrou que 11% dos apostadores estão na faixa de alto risco. Esse grupo concentra menos capacidade de poupança, menos reserva de emergência e menor participação em investimentos financeiros.

O gasto médio mensal dos apostadores foi de R$ 195,15, e 37% deles desembolsam R$ 100 ou mais por mês. Para famílias com orçamento apertado, trata-se de um montante relevante, especialmente quando comparado à baixa capacidade geral de poupança mostrada no restante da pesquisa.

Golpes também atingem mais os jovens

O recorte geracional traz outro dado importante: as gerações mais jovens também são as mais expostas a fraudes e golpes financeiros. Entre os Millennials, 40% passaram por alguma situação de golpe em 2025; entre a Geração Z, 38%. Nos Boomers, o indicador cai para 24%.

A leitura é consistente com o restante do estudo. Os jovens circulam mais por canais digitais, buscam mais informação online, usam mais ferramentas novas e, por isso, estão mais expostos tanto à inovação financeira legítima quanto aos seus riscos, incluindo fraudes, promessas enganosas e ambientes de aposta.

Bets versus investimentos: disputa de linguagem, tempo e expectativa

O recorte da Anbima mostra que a comparação entre bets e investimentos não deve ser tratada apenas como oposição moral ou regulatória. Há uma disputa concreta por atenção e por renda, especialmente entre os mais jovens.

De um lado, os investimentos oferecem segurança, retorno e construção patrimonial, mas exigem tempo, disciplina e alguma margem orçamentária. De outro, as bets oferecem excitação, promessa de ganho rápido e uma interface simples, aderente à lógica de consumo digital.

Nesse embate, a pesquisa sugere que o desafio do mercado financeiro não é apenas ampliar a oferta, mas tornar a jornada de investimento mais compreensível, acessível e relevante para um público que vive sob pressão financeira e é constantemente assediado por alternativas de gratificação imediata.

O que a pesquisa da Anbima sinaliza

A fotografia traçada pela Anbima mostra que o Brasil de 2026 convive com dois movimentos paralelos. O primeiro é o avanço gradual da cultura de investimentos, com mais conhecimento, maior digitalização e diversificação crescente. O segundo é a expansão das apostas online, especialmente entre os jovens, em um ambiente de baixa reserva, alto estresse e forte busca por soluções rápidas de renda.

Mais do que uma simples disputa entre “apostar” e “investir”, o que o levantamento revela é uma disputa entre horizontes financeiros. De um lado, o longo prazo ainda frágil. De outro, o curto prazo cada vez mais sedutor.

No relatório da Anbima, os produtos financeiros são escolhidos principalmente por retorno, segurança e reserva, ao passo que as bets aparecem fortemente ligadas à busca de ganho rápido e ao entretenimento.

Em termos práticos, o investimento permite acumular recursos, diversificar a carteira, criar reserva de emergência e preparar a aposentadoria; já a aposta não constrói patrimônio de forma previsível e pode ampliar a vulnerabilidade financeira, sobretudo entre quem já tem pouca folga no orçamento.

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