Banco do Brasil: lucro surpreende, mas inadimplência acente alerta
Apesar de lucro líquido 4,2% acima da estimativa do Safra, avanço da inadimplência, pressão sobre o patrimônio e estresse no agronegócio mantêm visão negativa para as ações
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Banco do Brasil encerrou o segundo trimestre com aumento da inadimplência em pessoas físicas, empresas e agronegócio, enquanto indicadores de cobertura recuaram | Foto: Getty Images
O Banco do Brasil (BBAS3) apresentou lucro líquido ajustado de R$ 3,908 bilhões no segundo trimestre de 2026, alta de 13,9% em relação ao trimestre anterior e resultado 4,2% acima da estimativa do Banco Safra. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) ficou em 8,3%.
Apesar do desempenho superior ao projetado, os especialistas do Safra mantêm visão negativa para as ações do banco. Na avaliação da instituição, a surpresa positiva no lucro foi secundária diante da piora nos indicadores de qualidade dos ativos e dos impactos negativos sobre o patrimônio líquido.
A principal preocupação está no avanço da inadimplência, especialmente no crédito para pessoas físicas. A inadimplência acima de 90 dias no segmento de cartões de crédito dobrou e alcançou 14,6%. A formação de inadimplência no varejo chegou a R$ 11,8 bilhões no trimestre.
A leitura do Safra é que o resultado do trimestre não oferece evidências suficientes de uma trajetória sustentável de recuperação da rentabilidade.
Inadimplência cresce em todas as principais carteiras
O índice consolidado de inadimplência acima de 90 dias subiu 56 pontos-base na comparação trimestral, para 5,6%. A deterioração foi disseminada entre os principais segmentos da carteira:
| Carteira | Inadimplência acima de 90 dias | Variação no trimestre |
|---|---|---|
| Pessoas físicas | 8,4% | +159 pontos-base |
| Empresas | 3,2% | +31 pontos-base |
| Agronegócio | 6,3% | +5 pontos-base |
| Consolidado | 5,6% | +56 pontos-base |
A formação consolidada de créditos em Estágio 3 avançou para 8,8%, ante 8,3% no primeiro trimestre. Já a formação de NPL alcançou 7,0%, contra 5,0% no trimestre anterior.
Os saldos de NPL cresceram 12,0% na comparação trimestral, enquanto o volume de formação de novos NPL aumentou 40,7%. Ao mesmo tempo, os indicadores de cobertura recuaram, sinalizando menor proteção contra perdas futuras.
Cobertura de crédito perde força
O índice de cobertura total caiu para 148,5%. A cobertura de Estágio 3 recuou para 65,8%, enquanto a cobertura da formação de Estágio 3 ficou em 90,6%.
A cobertura da formação de NPL também diminuiu, para 85,3%. Para o Safra, a combinação entre crescimento da inadimplência e enfraquecimento das coberturas representa um dos principais riscos para os resultados futuros do banco.
Agronegócio continua no centro da tese de recuperação
A carteira de agronegócio avançou 1,6% no trimestre, mas segue apresentando sinais de estresse. Segundo a administração, a proporção de pagamentos em dia ficou em 74% em julho, deterioração considerada relevante porque o mês concentra o maior volume de pagamentos do ano, estimado em R$ 20 bilhões.
A recuperação dessa carteira é fundamental para a tese de investimento do Banco do Brasil. O cenário positivo depende da implementação e da execução bem-sucedidas da medida provisória voltada à renegociação de dívidas rurais.
No primeiro semestre de 2026, o banco registrou aproximadamente R$ 37 bilhões em nova inadimplência e R$ 37 bilhões em provisões líquidas. Para alcançar o limite superior do guidance, o Safra estima que o banco precisará reduzir essa trajetória em pelo menos 11%, ou cerca de R$ 6 bilhões, em um ambiente ainda desafiador para os empréstimos a pessoas físicas.
Crédito cresce de forma moderada
A carteira de crédito ampliada aumentou 0,6% em relação ao primeiro trimestre e 1,5% em 12 meses. O avanço foi impulsionado pelos empréstimos a empresas e ao agronegócio, ambos com crescimento trimestral de 1,6%.
Em contrapartida, a carteira de pessoas físicas recuou 1,2%. Dentro do varejo, o crédito consignado cresceu 1,2%, mas não compensou integralmente as quedas no financiamento de veículos, de 13,6%, e no cheque especial, de 9,1%.
A composição do crescimento reforça a cautela do Safra: embora o saldo de crédito tenha aumentado, os segmentos mais expostos à deterioração da renda das famílias e à inadimplência continuam pressionados.
Resultado operacional mostra melhora, mas não elimina riscos
O resultado financeiro líquido totalizou R$ 27,5 bilhões, crescimento de 9,6% em 12 meses e estabilidade na comparação trimestral. O desempenho foi sustentado pelo resultado financeiro líquido não relacionado a crédito, que avançou 3,4% no trimestre e 22,1% em um ano.
Esse crescimento compensou parcialmente a queda de 2,0% no resultado financeiro líquido gerencial de crédito. As provisões líquidas recuaram 2,1% no trimestre e ficaram 2,6% abaixo da projeção do Safra, favorecidas por um aumento de 51% nas recuperações de crédito.
Com isso, o custo de risco caiu para 6,0%, redução de 16 pontos-base em relação ao trimestre anterior. O resultado financeiro líquido ajustado ao risco cresceu 5,2% na comparação trimestral e ficou 3,1% acima da estimativa da equipe de análise.
As receitas de tarifas aumentaram 4,2% em 12 meses e 3,4% no trimestre. As despesas operacionais recuaram 3,5% na comparação sequencial e ficaram 4,6% abaixo da estimativa, contribuindo para a melhora do índice de eficiência, que passou a 33,5%.
O resultado antes das provisões subiu 4,6% no trimestre e 10,8% em 12 meses, para R$ 23,5 bilhões. Já o lucro antes dos impostos avançou 39,9%, alcançando R$ 5,0 bilhões.
Patrimônio líquido sofre impacto de obrigações atuariais e tributos
Além da qualidade dos ativos, o Safra identifica novos ventos contrários para a capacidade de geração de resultados do Banco do Brasil.
A revisão da taxa de desconto utilizada na avaliação atuarial das obrigações relacionadas a benefícios a empregados, incluindo Previ e Cassi, provocou impacto negativo estimado em R$ 7 bilhões no patrimônio líquido.
O banco também acumulou R$ 3,5 bilhões em ativos fiscais diferidos relacionados a prejuízos fiscais. Considerando o total de ativos fiscais diferidos, o montante chegou a R$ 5,3 bilhões, enquanto os passivos fiscais diferidos somaram R$ 4 bilhões negativos.
Na avaliação do Safra, o impacto combinado de R$ 9,3 bilhões sobre o patrimônio líquido tangível pode representar uma pressão anualizada de aproximadamente R$ 1 bilhão no resultado financeiro líquido. Esse efeito tende a aumentar o custo de carregamento do patrimônio e limitar a recuperação do retorno sobre o capital.
Capital regulatório também recua
A posição de capital do Banco do Brasil apresentou deterioração no trimestre. O índice de capital principal, ou CET-1, caiu 32 pontos-base, para 11,27%.
O índice de Basileia recuou 31 pontos-base, para 13,9%, enquanto o índice de capital Tier 1 também terminou o período em 13,3%, com queda de 31 pontos-base.
Embora os níveis permaneçam positivos, a trajetória dos indicadores de capital adiciona uma camada de incerteza à análise, sobretudo em um cenário de aumento da inadimplência e necessidade potencial de novas provisões.
Conclusão: lucro acima da estimativa não muda a tese
Para o Safra, o resultado do segundo trimestre deve ser interpretado com cautela. A melhora do lucro, das despesas operacionais e do custo de risco foi compensada pela deterioração dos ativos, pelo aumento da inadimplência no varejo e pelos impactos negativos no patrimônio líquido.
A recuperação da rentabilidade continua dependente de uma melhora expressiva na carteira de agronegócio e da efetiva implementação das medidas de renegociação de dívidas rurais. Até que esses fatores se materializem, os principais riscos permanecem sem solução.
A avaliação do Safra, portanto, é que o resultado do 2T26 pouco contribui para aumentar a confiança em uma recuperação sustentável dos resultados do Banco do Brasil.
Este material foi preparado e distribuído pelo Banco Safra S.A. O conteúdo disponibilizado em O Especialista possui caráter meramente informativo e educacional, não constituindo oferta, solicitação, recomendação ou aconselhamento de investimento. Antes de investir, verifique seu perfil de investidor, os riscos envolvidos e consulte os documentos dos produtos.
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