Banco do Brasil revê projeções após 1T26 fraco e acende alerta para BBAS3
Resultado do Banco do Brasil no primeiro trimestre de 2026 veio em linha no lucro líquido, mas a piora da inadimplência no varejo, a pressão sobre o capital e a revisão para baixo das projeções reforçam uma leitura negativa para as ações BBAS3
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Embora o lucro do 1T26 tenha ficado próximo ao esperado pelo mercado, a deterioração do risco de crédito no varejo e a revisão do guidance mudaram o tom da leitura para BBAS3 | Foto: Agência Brasil
O Banco do Brasil (BBAS3) apresentou um conjunto de números no primeiro trimestre de 2026 que, à primeira vista, pareceu menos adverso do que o mercado poderia temer. O lucro líquido ajustado somou R$ 3,431 bilhões, em linha com estimativas próximas às do Safra, mas essa fotografia capturou apenas parte da história.
Na leitura dos especialistas do Banco Safra, o resultado foi negativo para as ações BBAS3. Isso porque os principais vetores de preocupação não estiveram concentrados no lucro em si, mas na composição do balanço, na piora da inadimplência no varejo, na pressão sobre o capital e, sobretudo, na revisão para baixo do guidance de 2026.
A nova projeção do banco para o lucro líquido passou para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, ante intervalo anterior de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões. No ponto médio, o guidance agora aponta para R$ 20 bilhões, patamar que sugere retorno sobre patrimônio (ROE) em torno de 10%, bem abaixo do histórico recente da instituição e aquém do que usualmente sustenta uma tese mais construtiva para o papel.
Revisão de guidance reforça mudança de tom para 2026
A revisão das projeções operacionais foi o principal gatilho para a deterioração da percepção sobre o case.
O Banco do Brasil passou a projetar:
- crescimento do NII entre 7% e 11%;
- custo de crédito entre R$ 65 bilhões e R$ 75 bilhões;
- lucro líquido entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões.
Anteriormente, o banco indicava:
- crescimento de NII entre 4% e 8%;
- custo de crédito entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões;
- lucro líquido entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
Na prática, o novo guidance reconhece um ambiente mais pressionado, principalmente no crédito, e aproxima a projeção oficial da instituição de estimativas já mais conservadoras.
Ainda assim, a avaliação do Safra é que permanece risco de novas revisões negativas, especialmente porque alguns vetores de deterioração parecem ainda em curso.
Varejo passa a ser foco de preocupação adicional
Um dos pontos mais sensíveis do trimestre foi a surpresa negativa na carteira de pessoas físicas. A despesa esperada com perdas de crédito (ECL) no varejo veio acima do esperado, enquanto a inadimplência de 30 dias avançou 89 pontos-base na comparação trimestral.
Segundo a leitura dos analistas, o movimento foi impactado por piora da qualidade dos ativos em cartões de crédito e outras linhas rotativas, justamente segmentos mais sensíveis ao aperto financeiro das famílias e ao custo elevado do dinheiro.
Esse dado muda parcialmente o eixo da preocupação do mercado. Se até então boa parte da atenção estava concentrada no agronegócio, o primeiro trimestre mostrou que o varejo também se tornou um vetor relevante de pressão sobre resultados.
Agronegócio segue pressionado e mantém risco nas estimativas
Embora o varejo tenha surpreendido negativamente, o agronegócio segue no centro do debate sobre risco de crédito do Banco do Brasil. A percepção do Safra após o BB Day já havia sido de uma perspectiva ainda pressionada para o setor, e os dados mais recentes reforçam essa visão.
Os pedidos de Chapter 11 no segmento rural continuam avançando, com abril indicando nova aceleração. A interpretação é de que esse movimento tem sido influenciado pelo efeito do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de insumos agrícolas, além de um cenário de juros elevados por mais tempo.
Nesse contexto, o Safra projeta ECL de R$ 63 bilhões para 2026, enquanto o novo guidance do Banco do Brasil aponta para uma faixa de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões. A distância entre os números indica que, ainda que a casa já tenha revisado suas projeções, há elementos que podem levar a novas reduções caso a deterioração da carteira prossiga.
Resultado operacional teve leitura mista
Do lado operacional, o balanço trouxe sinais contraditórios. O NII total atingiu R$ 27,4 bilhões, com alta de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior e queda de 1% na comparação trimestral, desempenho 1% acima da estimativa do Safra.
O número, porém, foi beneficiado principalmente pelo NII não relacionado a crédito, favorecido por menor custo de funding. Houve uma queda de 6% trimestre contra trimestre nas despesas de captação, apoiada por menores emissões de letras de crédito do agronegócio e por efeito de calendário. Também houve melhora sequencial na contribuição da Patagonia, com avanço de 2% no período.
Margem com clientes recua
Se o NII consolidado mostrou alguma resiliência, a fotografia do negócio bancário recorrente foi menos favorável. O NII de crédito ficou abaixo do esperado, e a margem financeira com clientes recuou 70 pontos-base, sinalizando compressão em uma linha central para a rentabilidade do banco.
Essa dinâmica reforça a percepção de que o trimestre não deve ser lido apenas pelo número final do lucro, mas pela qualidade da geração de resultado. Em instituições financeiras, um lucro em linha pode esconder deterioração relevante quando sustentado por fatores menos recorrentes ou por efeitos compensatórios fora da atividade principal.
Capital pode pesar na tese de investimento em Banco do Brasil
Outro ponto de atenção foi a posição de capital. O índice CET1 ficou 19 pontos-base abaixo da estimativa do Safra, pressionado pela contabilização de R$ 4 bilhões em novos créditos tributários diferidos (DTAs) relacionados a prejuízos fiscais a compensar.
A avaliação é que o tema pode voltar a figurar como risco de cauda para o banco. Em um momento em que o custo de crédito sobe e a visibilidade sobre a qualidade dos ativos diminui, a robustez de capital passa a ter peso ainda maior na análise de bancos listados.
Para o investidor, isso significa que a discussão sobre BBAS3 não se limita mais ao ritmo de lucro ou ao valuation. Ela passa também pela capacidade da instituição de atravessar um ciclo de maior pressão sem comprometer de forma mais significativa seus indicadores prudenciais.
Receitas com tarifas crescem, mas despesas operacionais também sobem
As receitas com tarifas avançaram 5% em base anual, com destaque para gestão de ativos, mostrando que o banco ainda preserva alguma diversificação de receitas fora do crédito.
Por outro lado, o opex veio 3% acima da estimativa do Safra e subiu 2% na comparação trimestral, levando o índice de eficiência a 35%, alta de 139 pontos-base no trimestre. Embora o patamar ainda não seja alarmante para os padrões do setor, o movimento adiciona pressão a um resultado já afetado por maiores provisões e menor rentabilidade.
O que muda para BBAS3
A leitura final do Safra é de que o resultado do primeiro trimestre configura “um tipo diferente de frustração”. O lucro em linha evitou um choque imediato no número principal, mas não impediu a piora qualitativa da percepção sobre a tese.
Os principais pontos que devem orientar a reação do mercado são:
- revisão para baixo do guidance de lucro;
- elevação relevante da projeção de custo de crédito;
- piora da inadimplência no varejo;
- continuidade das pressões no agronegócio;
- fragilidade adicional na posição de capital.
Nesse contexto, a expectativa é de reação negativa das ações, já que o mercado tende a ajustar preços não apenas ao resultado reportado, mas à nova trajetória esperada de rentabilidade e risco.
Conclusão
O resultado do Banco do Brasil no 1T26 foi formalmente alinhado às expectativas no lucro líquido, mas substancialmente mais fraco quando observados os fundamentos que importam para a precificação da ação.
A revisão do guidance, a piora da carteira de pessoas físicas, a persistência dos riscos no agronegócio e a pressão sobre o capital sugerem um 2026 mais desafiador para o banco.
Para BBAS3, isso implica uma mudança de regime na narrativa de investimento: de um banco visto pela força de rentabilidade e resiliência operacional para uma instituição que, ao menos no curto prazo, passa a exigir maior prêmio de risco do mercado.
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