A Viveo (VVEO3) entregou um primeiro trimestre de 2026 melhor do que o esperado na operação. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustado somou R$ 208 milhões, com alta de 31% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O número ficou 18% acima da estimativa do Safra e 19% acima do consenso de mercado. Na avaliação do banco, o principal vetor positivo foi a expansão da margem bruta, apoiada por disciplina de preços, menor custo de produtos e melhora no mix entre canais.
A receita líquida, por outro lado, somou R$ 2,832 bilhões, com alta de 2% na comparação anual, mas ficou 3% abaixo da estimativa do Safra. Assim, o trimestre combinou receita mais fraca com rentabilidade operacional melhor.
Mercado deve voltar atenção para a dívida
Apesar da surpresa positiva na operação, o foco dos investidores tende a migrar para a estrutura de capital. Em 13 de maio de 2026, a companhia convocou assembleias de debenturistas para 8 de junho de 2026 com o objetivo de alterar o cronograma de amortização da quarta, quinta e sexta emissões de debêntures.
O movimento envolve R$ 1,1 bilhão em dívida de curto prazo e obrigações relacionadas a aquisições com vencimento em 2026, diante de uma posição de caixa de R$ 533 milhões.
Na leitura do Safra, trata-se de uma iniciativa defensiva de gestão de passivos. O banco vê essa decisão como um sinal de que a geração de caixa orgânica pode não ser suficiente para cumprir a curva atual de vencimentos sem ajustes.
Hospitais sustentam receita, enquanto outras áreas perdem força
Entre os segmentos, Hospitais e Clínicas foi o principal suporte da receita. A unidade somou R$ 2,123 bilhões, com alta de 5% em um ano e desempenho em linha com a estimativa do Safra.
O resultado refletiu recuperação de volume após o ciclo de renegociações comerciais concluído em 2025, com apoio das vendas de medicamentos e materiais. Ainda assim, o reajuste mais baixo de preços de medicamentos em 2026 reduziu o efeito positivo típico de pré-compra no primeiro trimestre.
Nas demais divisões, o desempenho foi mais fraco. Laboratórios e Vacinas registrou R$ 316 milhões, com queda de 7% na comparação anual e resultado abaixo da estimativa do banco. O segmento de varejo totalizou R$ 204 milhões, com recuo de 8%, pressionado por reajustes acima da inflação, que reduziram volumes, ainda que tenham sustentado o lucro bruto. Já a área de serviços somou R$ 190 milhões, com queda de 4%, após ajustes em contratos de manipulação oncológica.
Margem bruta atinge melhor nível em quase três anos
O principal destaque positivo do trimestre foi a rentabilidade. A margem bruta alcançou 15,8%, com alta de 1,97 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025 e nível acima da projeção do Safra.
Segundo o banco, esse foi o melhor patamar desde o segundo trimestre de 2023. Mesmo com receita abaixo do esperado, o lucro bruto chegou a R$ 446 milhões e superou a estimativa em 5%.
As despesas com vendas, gerais e administrativas ficaram praticamente estáveis como proporção da receita. Com isso, a margem operacional ajustada avançou para 7,3%, no sexto trimestre seguido de expansão sequencial.
Resultado financeiro pesa e mantém prejuízo
A melhora operacional, no entanto, não chegou à última linha do balanço. As despesas financeiras líquidas somaram R$ 173 milhões e pioraram 70% na comparação anual.
Esse aumento refletiu a ausência de um ganho extraordinário com recompra de debêntures registrado no primeiro trimestre de 2025, além do impacto de juros mais altos. Como consequência, a Viveo reportou prejuízo líquido ajustado de R$ 35 milhões.
O resultado ficou mais pressionado do que no mesmo período do ano anterior. Na prática, o avanço operacional não foi suficiente para compensar o peso do resultado financeiro.
Geração de caixa segue negativa
A geração de caixa continuou pressionada no trimestre. O Safra estima fluxo de caixa para o acionista negativo em R$ 117 milhões, considerando o fluxo operacional após investimentos, despesas financeiras e pagamentos ligados a aquisições.
Ainda assim, houve melhora no ciclo de conversão de caixa, que caiu cinco dias em relação ao mesmo período do ano anterior, para 54 dias. O prazo médio de recebimento recuou, os dias de estoque também caíram e o prazo de pagamento subiu ligeiramente.
Esses movimentos ajudaram a aliviar parte da pressão operacional, mas ainda não foram suficientes para levar a companhia a uma geração de caixa positiva.
Alavancagem recua, mas quadro segue apertado
A dívida líquida da Viveo encerrou março em R$ 2,883 bilhões, com alta de R$ 99 milhões em relação ao trimestre anterior. Apesar disso, a alavancagem caiu para 3,88 vezes, o menor nível desde o terceiro trimestre de 2024.
O indicador ficou abaixo do limite contratual de 4 vezes previsto para o primeiro trimestre de 2026. No entanto, ao incluir R$ 720 milhões em obrigações futuras relacionadas a aquisições, a alavancagem sobe para 4,77 vezes.
Para o Safra, esse quadro reforça que a renegociação da dívida melhora o perfil de vencimentos, mas não resolve o principal. Em outras palavras, o refinanciamento pode comprar tempo, porém não elimina a pressão estrutural sobre o balanço.
Análise dos especialistas
Na avaliação do Safra, a Viveo entregou um trimestre operacionalmente positivo, com avanço de margem, disciplina de custos e resultado acima do esperado. Ainda assim, a situação financeira tende a dominar a percepção do mercado nos próximos meses.
A convocação das assembleias para reprogramar amortizações reforça a leitura de aperto de liquidez. Além disso, a geração de caixa ainda insuficiente e o volume de compromissos de curto prazo mantêm elevada a pressão sobre a tese de investimento.
Em resumo, a Viveo começou 2026 com sinais claros de melhora operacional, mas ainda sem resolver o principal desafio do caso, que segue concentrado em caixa, dívida e liquidez.