A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 para as empresas de telecomunicações da América Latina deve começar sem grandes surpresas, mas isso tende a ser uma boa notícia para o setor.
A leitura do Banco Safra é que o período deve confirmar a continuidade de tendências que já vinham ganhando força ao longo de 2025, como disciplina na precificação, melhora de rentabilidade e avanço gradual de serviços digitais de maior valor.
No Brasil, o ciclo anual de reajustes já está em fase avançada. Telefônica Brasil (VIVT3) e TIM Brasil (TIMS3) elevaram preços em suas bases pós-pagas, em geral com aumentos de um dígito médio a alto, sem sinais relevantes de perda de tração comercial. Esse cenário reforça a expectativa de crescimento de receita e sustenta a expansão das margens operacionais.
Na visão do Safra, o conjunto do setor segue construtivo. O banco mantém recomendação de compra para Telefônica Brasil, com preço-alvo de R$ 42, e para TIM Brasil, com preço-alvo de R$ 27. Para América Móvil (AMXB), a recomendação permanece neutra, com preço-alvo de US$ 22.
Reajustes seguem no centro da tese
O principal tema do trimestre deve continuar sendo a capacidade de repasse de preços. Em um ambiente mais racional, as operadoras conseguiram reajustar planos sem encontrar resistência significativa dos clientes, especialmente no segmento pós-pago, que concentra usuários de maior valor.
Além disso, o movimento ajuda a preservar rentabilidade. Com mais receita por cliente e uma estrutura de custos relativamente mais controlada, as empresas ampliam margens mesmo em um cenário de competição ainda presente.
Outro vetor importante está na mudança do perfil de receitas. Aos poucos, o setor amplia a participação de serviços digitais e de ofertas mais sofisticadas, o que melhora a qualidade do faturamento e reduz a dependência de linhas mais pressionadas, como o pré-pago tradicional.
Telefônica Brasil deve repetir dinâmica favorável
A expectativa do Safra para Telefônica Brasil é de mais um trimestre positivo, em linha com o padrão visto nos períodos anteriores. O banco projeta crescimento de 6,2% da receita líquida na comparação anual, apoiado por um avanço no mesmo ritmo na receita de serviços móveis.
Esse desempenho deve refletir o reajuste aplicado em março nos planos pós-pagos, com aumento próximo de 7% nas novas ofertas comerciais, sem impacto relevante na base de clientes. No pré-pago, a tendência ainda é de queda, embora em ritmo menor, diante da migração natural para planos pós-pagos.
Na operação fixa, a fibra deve seguir como um dos pilares de crescimento. O reajuste de preços implementado em janeiro já deve aparecer no resultado do trimestre. Ao mesmo tempo, a receita com aparelhos tende a desacelerar após um quarto trimestre sazonalmente mais forte.
Para a geração operacional de caixa medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, a projeção é de alta de 13,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo o Safra, uma base de comparação mais favorável em custos comerciais e de infraestrutura deve compensar a pressão trazida pelo reajuste anual de salários.
TIM Brasil deve mostrar trimestre sólido
Para TIM Brasil, o Safra também espera um primeiro trimestre consistente. A projeção é de crescimento de 5,6% da receita líquida na comparação anual, com alta de 5,4% na receita de serviços móveis, impulsionada pelos reajustes feitos entre fevereiro e março.
Na frente de banda larga, a expectativa é de leve aceleração da Ultrafibra. Além disso, o V8 começa a contribuir para o resultado consolidado. A entrada dessa operação adiciona receita, embora com pressão sobre a margem, já que o negócio opera com rentabilidade mais baixa do que a média da companhia.
Ainda assim, o Safra projeta crescimento de 6% do resultado operacional, com expansão de margem de cerca de 20 pontos-base. O ritmo é mais moderado do que em trimestres anteriores, mas ainda indica melhora. Para o lucro líquido, a estimativa é de R$ 896 milhões, o que representa avanço de 10,5% em base anual.
América Móvil deve ter resultado misto no consolidado
A expectativa para América Móvil é mais equilibrada. No consolidado, a receita reportada deve cair 1,2% na comparação anual em pesos mexicanos, pressionada pelo efeito do câmbio sobre as operações na América Latina.
Mesmo assim, o desempenho operacional tende a continuar positivo. O Safra estima alta de 5,4% no resultado operacional ajustado e expansão de 2,6 pontos percentuais na margem, para 41,9%. O movimento deve refletir maior disciplina de custos e um perfil de receitas mais saudável.
O México deve seguir como principal base de sustentação, apoiado pelo pós-pago e por ganhos em banda larga. No Brasil, a operação deve voltar a se destacar, com crescimento de receita e resultado operacional em reais, impulsionado por adições líquidas no pós-pago e avanço na portabilidade. A Colômbia também deve contribuir de forma positiva, com aceleração do resultado operacional e ganho de margem.
O que observar na temporada de balanços
Ao longo das próximas divulgações, o mercado deve acompanhar três pontos principais:
- A capacidade de manutenção dos reajustes sem aumento relevante de cancelamentos.
- O ritmo de expansão das margens em meio à pressão de custos.
- A evolução do mix de receitas em direção a serviços mais rentáveis.
Se esses fatores se confirmarem, o setor tende a reforçar a percepção de resiliência operacional em 2026. Para o Safra, esse cenário segue mais favorável para Telefônica Brasil (VIVT3) e TIM Brasil (TIMS3), que combinam execução mais previsível, disciplina comercial e potencial de captura de valor ao longo do ano.