Os dados financeiros do primeiro trimestre de 2026 divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam continuidade da melhora operacional do setor de saúde, ainda que em ritmo menor. A leitura dos números reportados ficou distorcida por um evento específico na SulAmérica (SULA11), que registrou cerca de 2,7 bilhões de reais em provisões técnicas, ligadas à transferência de reservas da holding para a operadora.
Os especialistas do Banco Safra acreditam que esse efeito tem caráter majoritariamente não recorrente e explica quase integralmente a aparente piora dos indicadores reportados no período.
Sinistralidade segue em queda, apesar da desaceleração
Desconsiderando o impacto pontual, a sinistralidade subjacente continuou melhorando. A estimativa do Safra aponta recuo de cerca de 115 pontos-base na sinistralidade trimestral, para aproximadamente 77,5%. No acumulado de 12 meses, a queda seria ainda mais relevante, em torno de 139 pontos-base, levando o indicador para perto de 80,0%.
O movimento confirma a tendência positiva dos custos médicos, embora com desaceleração quando comparado ao ritmo observado em 2025.
Rentabilidade atinge o maior nível em anos
A combinação entre melhora operacional e desempenho financeiro mais forte elevou a rentabilidade do setor. O retorno sobre o patrimônio líquido em 12 meses atingiu 16%, o maior patamar em vários anos. O lucro líquido cresceu 71% na comparação anual, apoiado também por um aumento de 50% nos resultados financeiros, beneficiados pelo nível elevado de juros.
Para 2026, o Safra projeta continuidade da melhora da sinistralidade, ainda que em ritmo mais moderado, sustentada por maior controle de utilização e ajustes no mix de planos.
Crescimento de receitas depende cada vez mais de preços
A receita líquida do setor avançou 9,3% na comparação anual no primeiro trimestre de 2026, enquanto o crescimento em 12 meses ficou em 8,9%. O avanço ocorreu principalmente por reajustes de preços, já que a base de beneficiários mostrou desaceleração.
O número total de vidas chegou a 53 milhões, alta de 1,7% em um ano, mas com perda líquida de cerca de 32 mil beneficiários no trimestre. Em contrapartida, a receita por beneficiário cresceu 6,1% em 12 meses.
Operadoras menores lideram repricing
Os dados revelam forte divergência por porte. Operadoras pequenas registraram crescimento de 20,5% na receita por beneficiário e avanço de 21,3% na receita total, bem acima das grandes e médias. Esse desempenho reflete uma estratégia de repricing mais agressiva e maior disciplina após anos de prejuízos.
Como o crescimento da base foi marginal, o ganho veio quase exclusivamente via preço, indicando mudança estrutural no comportamento das empresas.
Desempenho heterogêneo na sinistralidade por porte
A sinistralidade reportada subiu para 80,4%, alta de 180 pontos-base em um ano, movimento totalmente explicado pela provisão da SulAmérica. Ajustando esse efeito, o custo por beneficiário cresceu cerca de 4,3% em 12 meses, abaixo do crescimento da receita por beneficiário, o que gerou um spread positivo.
Entre as grandes operadoras, a aparente piora da sinistralidade não se confirma após ajustes. As médias ficaram praticamente estáveis, enquanto as pequenas apresentaram melhora expressiva, impulsionada pelo forte aumento de preços.
Despesas mais controladas reforçam tendência positiva
O índice combinado reportado subiu para 92,7%, também impactado pelo evento pontual. Excluindo esse efeito, a estimativa do Safra aponta melhora operacional, com redução da proporção de despesas comerciais e administrativas.
O setor de saúde segue em trajetória de recuperação, mas com sinais claros de normalização do ritmo de ganhos após a forte correção observada nos últimos anos.