A temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 confirmou um cenário operacional mais sólido para o setor de transporte.
De modo geral, as companhias sob cobertura do Safra avançaram em volumes, preservaram a disciplina comercial e reforçaram o controle de custos.
Ainda assim, o ambiente financeiro seguiu desafiador. Juros elevados, despesas financeiras mais pesadas e pressão seletiva de preços continuaram a influenciar o desempenho das ações.
No segmento de infraestrutura, os resultados vieram resilientes. A recuperação de volumes e o crescimento de tráfego deram suporte à operação, embora o efeito positivo tenha sido parcialmente compensado por pressões tarifárias e pelo maior custo da dívida.
A Rumo (RAIL3) registrou forte crescimento de volumes, com alta de 14,8% na comparação anual. No entanto, a queda de 11,2% nas tarifas médias reduziu parte desse avanço e levou a receita e o resultado operacional a ficarem abaixo do esperado. Mesmo assim, a alavancagem permaneceu estável em 1,9 vez.
A Hidrovias do Brasil (HBSA3) apresentou recuperação operacional relevante, com o resultado operacional medido pelo EBITDA voltando a R$ 160 milhões, impulsionado pela normalização das condições dos rios. Por outro lado, a base de comparação favoreceu o desempenho, enquanto o atual nível de preço da ação já parece refletir boa parte dessa melhora.
A Motiva (MOTV3) entregou expansão consistente de margens e crescimento de 24% no EBITDA na comparação anual. O desempenho foi sustentado por rodovias pedagiadas e novas concessões. Ainda assim, a empresa segue com potencial mais limitado, já que a alavancagem de 3,6 vezes e as despesas financeiras elevadas continuam a restringir a percepção de valor.
A EcoRodovias (ECOR3) foi um dos destaques do trimestre. A companhia combinou crescimento orgânico de tráfego, entrada de novos ativos e disciplina de custos. Como resultado, apresentou margens fortes, avanço dos resultados e uma relação entre risco e retorno considerada atrativa.
Locação mantém bom ritmo com preços firmes e maior uso da frota
As empresas de locação também entregaram resultados operacionais consistentes no quarto trimestre de 2025. O setor foi beneficiado por preços mais firmes, maior utilização dos ativos e demanda resiliente. Mesmo assim, o peso das despesas financeiras continuou a limitar a conversão operacional em lucro.
A Movida (MOVI3) se destacou em execução. A margem EBITDA avançou 250 pontos-base e chegou a 40,7%, sustentada por preços fortes e crescimento de volumes tanto no aluguel de carros quanto na gestão e terceirização de frotas. Apesar disso, os custos financeiros ainda restringem o avanço do lucro líquido, embora a trajetória de alavancagem tenha melhorado.
A Localiza (RENT3) voltou a mostrar consistência operacional. A companhia manteve o retorno sobre o capital investido acima do custo de capital, com spread de 5,5%, apoiada por margens robustas no aluguel e por uma alocação disciplinada de recursos. Esse desempenho reforça a leitura de qualidade operacional superior e de geração de valor no longo prazo.
A Vamos (VAMO3) apresentou fundamentos sólidos em sua plataforma de locação. A margem EBITDA dessa divisão atingiu 90,0%, o que evidencia força operacional. Ainda assim, as margens consolidadas e o lucro líquido sofreram pressão de um mix maior de venda de ativos e das despesas financeiras mais altas. Mesmo nesse contexto, a avaliação da ação segue atrativa e as projeções divulgadas pela companhia vieram acima do esperado, o que sustenta uma visão construtiva.
Logística avança em eficiência, mas lucro ainda sofre com custo da dívida
No segmento de logística, o trimestre também trouxe melhora operacional. As empresas avançaram em eficiência, reprecificação de contratos e controle de despesas. Por outro lado, o custo financeiro elevado ainda impediu uma recuperação mais forte do resultado final.
A Simpar (SIMH3) registrou crescimento de 16,5% no EBITDA na comparação anual, impulsionada principalmente pelo desempenho de Movida e Vamos. No entanto, no nível da holding, o resultado seguiu pouco inspirador. A alta dos juros elevou o custo da dívida e pressionou os lucros, apesar da melhora relevante da alavancagem para 3,0 vezes após a venda de ativos.
A JSL (JSLG3) foi um dos destaques operacionais do período. A companhia entregou alta de 16,4% no EBITDA e expansão de 505 pontos-base na margem, que alcançou 20,6%. O movimento foi apoiado por menores despesas operacionais e por uma reprecificação bem-sucedida dos contratos. Ainda assim, o lucro líquido recuou por causa das despesas financeiras maiores. Em contrapartida, a desalavancagem sequencial e o ganho de eficiência sustentam uma visão positiva para a ação.
O que o setor de transporte sinaliza para os investidores
O encerramento da temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 reforça uma mensagem clara para o investidor. A operação das empresas de transporte segue em trajetória construtiva. Houve recuperação de volumes, melhora de margens e maior disciplina na gestão. No entanto, a estrutura de capital ainda faz diferença relevante entre as companhias.
Em outras palavras, a seleção de ativos tende a continuar decisiva no setor. Empresas com balanços mais equilibrados, capacidade de repassar preços, disciplina de custos e melhor retorno sobre o capital devem seguir mais bem posicionadas. Ao mesmo tempo, companhias com dívida mais pesada e maior sensibilidade aos juros ainda enfrentam um ambiente mais desafiador para transformar ganho operacional em valorização das ações.