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Reforma tributária deve redesenhar setor de locação de veículos

Mudanças no sistema de impostos tendem a elevar a carga nominal das locadoras, mas a recuperação mais rápida de créditos pode reduzir o custo dos investimentos e reforçar a vantagem competitiva das empresas de maior porte


A reforma tributária deve alterar de forma estrutural o modelo econômico das locadoras de veículos no Brasil. A avaliação surgiu em reunião com representantes da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, a Abla, e especialistas tributários, que discutiram os principais vetores de transformação do setor.

A principal mudança envolve a substituição de tributos atuais por um imposto sobre valor agregado estimado em 28%. Na prática, a nova regra tende a ampliar a incidência tributária tanto sobre a locação de veículos quanto sobre a venda de ativos das companhias.

Hoje, a carga tributária direta das locadoras permanece relativamente baixa, na faixa de 2% a 3% após créditos de PIS e Cofins. Ao mesmo tempo, o setor já convive com uma carga indireta relevante na compra de veículos, na manutenção e na reposição de peças. Segundo dados citados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a carga bruta nessa cadeia pode chegar a 44%.

Crédito mais rápido pode aliviar custo de investimento

Apesar do aumento da carga nominal, o novo sistema deve criar um mecanismo importante de compensação. A não cumulatividade mais ampla permitirá a geração de créditos sobre despesas operacionais e, sobretudo, sobre a compra de veículos.

Esse ponto pode produzir um efeito relevante sobre a rentabilidade do setor. A estimativa discutida na reunião indica recuperação de 20% a 30% do valor do ativo em um intervalo de dois a três meses. Com isso, o custo econômico do investimento tende a cair de forma expressiva.

Ainda assim, o saldo final não deve eliminar a pressão tributária. A leitura predominante é que a carga efetiva sobre a receita das locadoras pode subir para patamares próximos de 10%, mesmo com o benefício dos créditos acelerados.

Adaptação operacional entra no centro das atenções

A transição para o novo regime também deve exigir ajustes relevantes nas empresas. Sistemas, controles e processos internos precisarão ser adaptados para acomodar a nova lógica de apuração e aproveitamento de créditos.

Além disso, alguns pontos seguem no radar do setor. Entre eles estão o tratamento das empresas enquadradas no Simples Nacional, com custo adicional estimado em cerca de 2%, e a eventual incidência de imposto seletivo ao longo da cadeia. Como esse tributo não gera créditos, ele pode ampliar pressões indiretas de custo.

Vantagem financeira das grandes empresas segue relevante

Ao mesmo tempo, a dinâmica competitiva do setor continua marcada por forte assimetria de capital. As grandes locadoras operam com custo de captação significativamente mais baixo do que pequenos e médios concorrentes.

A diferença pode chegar a 300 pontos-base. Na prática, grandes empresas captam em níveis próximos de CDI mais 2%, enquanto operadores menores dependem de linhas mais caras, perto de CDI mais 5%. Esse diferencial afeta diretamente escala, capacidade de formar preços e retorno sobre o capital.

As companhias de maior porte também contam com acesso mais amplo a funding de longo prazo. Já os pequenos e médios operadores seguem mais dependentes de crédito ao consumidor, o que limita a expansão, mesmo em um ambiente em que os spreads tenham mostrado alguma acomodação.

Aluguel diário enfrenta disputa maior por preço

No segmento de aluguel diário de veículos, o ambiente competitivo aparece mais pressionado. Trata-se de um mercado mais maduro e sensível a preço, o que dificulta o repasse de custos sem impacto sobre a demanda.

Esse cenário tende a comprimir margens, sobretudo para empresas com menor escala e estrutura de capital mais cara. Por isso, o ganho de eficiência e a disciplina comercial devem seguir como fatores centrais para a sustentação dos resultados.

Frotas oferecem ambiente mais previsível

Em contraste, os segmentos de gestão e terceirização de frotas mostram uma dinâmica mais racional. Contratos de prazo mais longo e maior visibilidade de crescimento ajudam a sustentar condições mais equilibradas de concorrência.

Esse perfil favorece previsibilidade de receita e capacidade maior de planejamento. Ainda assim, a expansão de operadores regionais mais enxutos, com presença relevante em licitações locais, amplia a competição em nichos específicos.

Crédito ainda limita avanço de pequenos e médios

Pequenos e médios participantes continuam encontrando espaço para crescer em mercados regionais. Estruturas operacionais mais leves e maior agilidade comercial ajudam essas empresas a disputar contratos e ampliar presença local.

Por outro lado, a limitação de acesso a crédito segue como principal trava para o ganho de escala. Esse fator tende a preservar a vantagem estrutural das grandes locadoras, especialmente em um setor intensivo em capital e dependente de renovação constante de frota.

O que o investidor deve acompanhar

Para o investidor, a principal conclusão é que a reforma tributária pode mudar de forma relevante a estrutura de custos e retornos do setor de locação de veículos. O efeito final dependerá da velocidade de recuperação dos créditos, da adaptação operacional das empresas e da capacidade de repasse de preços em cada segmento.

Além disso, a diferença de custo de capital deve continuar como elemento decisivo para a competição. Em um mercado no qual escala, funding e eficiência operacional têm peso crescente, as empresas mais capitalizadas tendem a preservar vantagem importante nos próximos anos.


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