A deterioração da qualidade dos ativos da carteira de cartões se tornou o principal ponto de atenção para o Porto Bank, braço financeiro da Porto Seguro (PSSA3).
Em reunião com investidores, o presidente-executivo do Porto Bank, Marcos Loução, afirmou que a pressão está concentrada em clientes empreendedores com renda mensal entre R$ 5 mil e R$ 7 mil. Esse grupo teria sofrido perda de renda ou piora na capacidade de geração de recursos.
Segundo a administração, entre 90% e 95% desses clientes não receberiam atualmente um novo limite de cartão após os ajustes nos modelos de avaliação de crédito.
Por isso, o banco decidiu provisionar e baixar parte dessa carteira, em vez de simplesmente elevar as taxas cobradas ou refinanciar as dívidas. A avaliação da administração é que manter operações de crédito rotativo com retorno negativo não representa uma estratégia sustentável.
Banco reduz apetite a risco
O Porto Bank adotou políticas mais restritivas para o crédito rotativo e para o refinanciamento. A revisão de limites também está entre as medidas para conter novas perdas.
A carteira de operações que geram juros representa cerca de 25% do portfólio do banco. Ao mesmo tempo, os saldos de clientes que utilizam os serviços de forma transacional cresceram entre 8% e 10%, enquanto os saldos de clientes que pagam juros avançaram aproximadamente 1%.
Esse movimento indica uma redução gradual da exposição aos clientes considerados menos estratégicos. Na avaliação do Banco Safra, o perfil da carteira do Porto Bank apresenta mais semelhanças com o Itaú Unibanco (ITUB4) do que com o Nubank (ROXO34), principalmente em relação à participação de operações que geram juros e ao apetite a risco.
Cobertura de perdas gera debate
A cobertura da carteira em estágio avançado de atraso está entre 60% e 62%. O percentual parece baixo em comparação com o de outras instituições financeiras.
A administração, porém, apresentou duas explicações. Em uma base comparável, a cobertura estaria mais próxima de 69%, porque a baixa de uma carteira já provisionada reduziu mecanicamente o índice divulgado.
Além disso, o Porto Bank afirma provisionar mais de 100% da formação de créditos inadimplentes com atraso superior a 360 dias. O índice de cobertura também reflete a predominância de operações de varejo na carteira, com pouca exposição a grandes empresas, segmento que costuma exigir níveis maiores de cobertura.
O portfólio ainda inclui operações com garantias, como empréstimos com imóvel ou veículo em garantia. Esses produtos tendem a apresentar menor perda potencial em comparação com linhas sem garantia.
Projeções para 2026 são revisadas
O Porto Bank elevou em aproximadamente R$ 400 milhões as projeções para as perdas esperadas de crédito em 2026. A nova faixa passou a ser de R$ 3,1 bilhões a R$ 3,5 bilhões.
A estimativa de receitas também subiu em cerca de R$ 200 milhões, para uma faixa entre R$ 7,7 bilhões e R$ 8,1 bilhões. Já a projeção para o índice de eficiência passou de 27% a 31% para 24% a 28%.
Parte das mudanças decorre de alterações contábeis. Entre elas estão um novo método de reconhecimento das receitas de consórcios e a reclassificação de recompensas e tarifas de bandeiras como deduções da receita.
Esses ajustes pressionam o resultado do Porto Bank, mas não alteram o resultado consolidado do Grupo Porto.
A administração não apresentou projeções informais para 2027. O banco afirmou que acompanha os riscos relacionados ao crescimento econômico, à atividade e a possíveis cenários de recessão.
Medidas buscam conter perdas
Além da revisão dos limites, o banco pretende reduzir o custo de atendimento e ajustar os benefícios oferecidos nos cartões.
A Porto Seguro também busca diminuir a exposição a clientes que não fazem parte do perfil estratégico da instituição. Esse processo já está em andamento e deve ganhar força à medida que o banco obtenha mais visibilidade sobre o comportamento da carteira.
Outra frente envolve o aprimoramento dos processos de cobrança. A expectativa é melhorar a recuperação de créditos e reduzir o impacto das perdas nos próximos trimestres.
No curto prazo, entretanto, as provisões ainda devem permanecer elevadas.
Produtos garantidos ganham espaço
Diante do cenário mais difícil nos cartões, o Porto Bank pretende acelerar o crescimento de outras verticais.
Entre os destaques estão os consórcios e os produtos com garantia, como empréstimos com imóvel ou veículo em garantia. Segundo a administração, essas operações apresentam boa rentabilidade ajustada ao risco.
A plataforma de empréstimos com veículo em garantia já é de 70% a 75% digital de ponta a ponta. O banco, no entanto, não pretende expandir sua atuação para o financiamento tradicional de veículos nem disputar mercado diretamente com as financeiras ligadas às montadoras.
O negócio de consórcios segue em forte expansão. A análise de risco ocorre durante a contratação, enquanto a liberação da carta de crédito depende da aprovação cadastral.
Ecossistema amplia alternativas
A Porto Seguro também aposta em produtos com pouca ou nenhuma exposição direta ao risco de crédito. É o caso dos títulos de capitalização utilizados em soluções financeiras para aluguel e prestação de garantias.
As receitas dessa frente cresceram 16% em um ano, embora ainda representem uma parcela pequena do total. Para a companhia, existe espaço para ampliar a oferta em um mercado que ainda depende de instrumentos tradicionais, como o cheque caução.
A estratégia é usar o ecossistema da Porto Seguro para diversificar as fontes de receita e reduzir a dependência do desempenho dos cartões.
Safra monitora três indicadores
Para os próximos trimestres, o Safra acompanhará três pontos principais.
O primeiro será a estabilização do custo de risco do Porto Bank. O segundo envolve a velocidade de migração da carteira para produtos garantidos e negócios com menor exposição ao risco de crédito.
O terceiro será a divulgação de informações mais detalhadas sobre a cobertura da carteira de cartões em estágio avançado de atraso nos próximos balanços.
O retorno sobre o patrimônio e o crescimento das receitas também serão importantes para avaliar a expansão do Porto Bank e o ganho de relevância da operação dentro do Grupo Porto.