Em reunião com o CEO Carlos Mauad, o CFO Gustavo Sechin e o chairman Ricardo Dutra, o Safra observou um discurso mais coeso em torno do crédito como próximo vetor de expansão do PagBank (PAGS34).
O ponto central não foi uma mudança estratégica, mas um avanço na percepção de prontidão. Depois de cerca de 18 meses de preparação, a companhia considera que já possui infraestrutura, sistemas, equipes e governança mais alinhados para operar um ecossistema mais integrado entre crédito, serviços bancários e pagamentos.
Nesse contexto, a administração sustenta a meta de construir uma carteira de crédito de R$ 25 bilhões até 2029. Além disso, manteve as projeções de crescimento anual composto de 10% para o lucro bruto e superior a 16% para o lucro por ação entre 2025 e 2029. O banco também preserva a meta de índice de capital entre 18% e 22%, além de priorizar dividendos e recompras no curto prazo.
Mercado ainda espera sinais mais concretos
A leitura do Safra ficou moderadamente mais construtiva após o encontro. Ainda assim, a recomendação neutra foi reiterada.
A razão é direta. A tese de investimento parece coerente, mas o mercado ainda precisa enxergar a execução do crédito nos números. Hoje, o PagBank negocia a cerca de 6 vezes o lucro estimado para 2026, patamar que sugere pouco espaço para a precificação de uma eventual melhora estrutural do negócio.
Por isso, a assimetria pode se tornar mais favorável se a companhia entregar mais visibilidade sobre a evolução da carteira, a qualidade da originação e o impacto do crédito sobre rentabilidade e crescimento.
Estrutura para crescer já está montada
Segundo a administração, a construção da operação de crédito foi organizada em três frentes.
- A primeira é a de capacidade. Nessa etapa, o banco reforçou sistemas, ampliou equipes de análise e modelagem e fortaleceu controles internos.
- A segunda é a de produto. Aqui, o foco está em empréstimos de capital de giro para pequenas e médias empresas e em crédito ao consumidor dentro da base de clientes da plataforma.
- A terceira é a de governança. De acordo com a companhia, esse pilar já está amplamente estabelecido, o que deve dar suporte a uma expansão mais segura ao longo do tempo.
O discurso da gestão enfatiza uma rampa gradual e sustentável. Em outras palavras, o objetivo não é buscar volume a qualquer custo, mas avançar com mais controle sobre risco e retorno.
Capital de giro lidera a expansão inicial
No curto prazo, a principal frente de crescimento está nos empréstimos de capital de giro para pequenas e médias empresas.
A estratégia atual privilegia operações de menor valor e prazo mais curto. O prazo médio das operações está entre 10 e 11 meses, com duration próxima de cinco meses. O tíquete médio gira em torno de R$ 16 mil, enquanto as taxas se aproximam de 6% ao mês.
Além disso, a originação nessa linha está entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões por trimestre. Por enquanto, a administração evita de forma deliberada exposições de maior valor, o que reforça a postura mais conservadora nesta fase de expansão.
Para selecionar clientes e precificar risco, o PagBank utiliza principalmente modelos de comportamento para análise de pequenas e médias empresas. Essa abordagem busca aproveitar a base transacional já existente na plataforma.
Crédito ao consumidor deve ganhar espaço com o tempo
Embora o capital de giro lidere a etapa inicial, o crédito ao consumidor tende a ampliar participação nos próximos anos.
Segundo a administração, essa vertical deve atuar menos como um motor isolado de crescimento e mais como uma ferramenta para aumentar a entrada de recursos na conta, elevar o engajamento e ampliar o relacionamento com o cliente.
A capacidade de oferecer cartão de crédito logo na entrada do cliente já existe. Mesmo assim, essa frente não aparece como prioridade imediata. Antes, a companhia quer acompanhar com atenção a qualidade da concessão e o comportamento da base.
À medida que a plataforma amadurecer e os modelos de análise acumularem mais dados, o crédito ao consumidor poderá ganhar relevância no portfólio. Se isso ocorrer, a tendência é de contribuição adicional para o lucro bruto e para o aumento do tempo de relacionamento com os clientes.
Foco está em aumentar o valor do cliente
No fim, a mensagem da alta gestão do PagBank aponta para uma ambição maior do que apenas expandir a carteira de crédito.
A companhia quer usar o crédito para aprofundar o vínculo com sua base, ampliar o uso da conta bancária e capturar mais valor por cliente ao longo do tempo. Essa lógica ajuda a sustentar a visão de que pagamentos, banco e empréstimos devem operar de forma cada vez mais integrada.
Por enquanto, no entanto, o Safra considera que a história ainda depende de comprovação prática. A estratégia parece consistente, mas a materialização da tese continuará condicionada à qualidade da execução e à capacidade de transformar essa preparação em crescimento rentável.
O que o investidor deve acompanhar
Os próximos trimestres devem trazer sinais mais relevantes para avaliar a tese em PagBank (PAGS34). Entre os principais pontos de atenção, estão:
- o ritmo de crescimento da carteira de crédito;
- a qualidade da originação e dos modelos de risco;
- a evolução da rentabilidade dessa operação;
- o avanço do crédito ao consumidor dentro da base;
- a capacidade de elevar o valor do cliente sem deteriorar a inadimplência.
Se esses indicadores evoluírem de forma consistente, a percepção do mercado sobre a companhia poderá mudar. Até lá, a visão neutra segue como a leitura mais equilibrada.