A Oncoclínicas (ONCO3) entregou um resultado fraco no primeiro trimestre de 2026 e reforçou a percepção de que a companhia atravessa uma situação financeira delicada. Na avaliação do Safra, o principal ponto de atenção segue sendo a liquidez.
A posição de caixa caiu de R$ 518 milhões no fim de 2025 para R$ 124 milhões ao fim de março de 2026. Ao mesmo tempo, a soma da dívida líquida com obrigações ligadas a aquisições chegou a R$ 3,27 bilhões, o equivalente a 5,2 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Além disso, toda a dívida financeira bruta está classificada no curto prazo. Esse quadro mantém no centro da tese de investimento as negociações em andamento com credores para reprogramar amortizações financeiras e compromissos relacionados a aquisições.
Receita cai com escassez de medicamentos
A receita líquida da Oncoclínicas somou R$ 1,161 bilhão no primeiro trimestre, com queda de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior e resultado 14% abaixo da estimativa do Safra.
Segundo a companhia, a escassez de medicamentos a partir de março retirou cerca de R$ 40 milhões da receita bruta. O problema decorreu da pressão sobre o fluxo de caixa, que limitou a capacidade de compra de medicamentos em condições comerciais normais.
Além disso, o número de procedimentos caiu 23% em um ano, para 133 mil. A retração refletiu tanto a falta de medicamentos quanto o encerramento de relações com pagadores que consumiram capital de giro excessivo ao longo de 2025.
Por outro lado, o tíquete médio em oncologia subiu 14%, para R$ 10.585. O avanço foi impulsionado por repasses de preços e pela saída de contratos menos favoráveis.
Resultado operacional fica no vermelho
O desempenho operacional foi o principal ponto negativo do trimestre. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustado ficou negativo em R$ 49 milhões, com margem negativa de 4,2%.
O número ficou muito abaixo da estimativa do Safra, que apontava R$ 139 milhões, com margem de 10,3%. Na prática, o resultado mostrou forte perda de alavancagem operacional em um momento de menor atividade e maior pressão de custos.
A companhia atribuiu esse desempenho à escassez de medicamentos, a compras pontuais feitas com distribuidores locais em condições menos favoráveis e ao reconhecimento de um ajuste na provisão para perdas de crédito, promovido pela nova gestão.
Esse ajuste somou R$ 119 milhões. Dentro desse movimento, uma provisão de R$ 148 milhões relacionada à Unimed Leste Fluminense foi o maior impacto individual para a passagem até o resultado reportado.
Mesmo ajuste gerencial mostra margem pressionada
A administração indicou que, ao excluir os efeitos da escassez de medicamentos e da revisão da provisão para perdas, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustado teria sido de cerca de R$ 110 milhões, com margem de 9,2%.
Ainda assim, esse patamar continuaria bem abaixo da margem dos últimos 12 meses observada no primeiro trimestre de 2025, de 17,5%. Em outras palavras, mesmo sob uma leitura ajustada, o trimestre já indicaria uma operação mais fraca do que a registrada há um ano.
O prejuízo líquido alcançou R$ 439 milhões, pressionado também por despesas financeiras de R$ 157 milhões.
Consumo de caixa leva liquidez a nível crítico
A geração de caixa foi outro ponto de forte preocupação. A Oncoclínicas consumiu R$ 394 milhões em caixa no trimestre, movimento que levou a liquidez a um nível considerado crítico.
Esse consumo refletiu R$ 153 milhões de saída operacional, R$ 66 milhões em pagamento de juros, R$ 87 milhões em amortização líquida de dívida, R$ 29 milhões em investimentos e R$ 66 milhões em pagamentos relacionados a aquisições.
Na conta do Safra, o fluxo de caixa para o acionista ficou negativo em R$ 314 milhões, considerando fluxo operacional, investimentos, despesas financeiras e pagamentos de aquisições.
Ao mesmo tempo, o capital de giro ficou negativo em nove dias, ante 40 dias positivos um ano antes. O prazo médio de recebimento ficou em 90 dias, os estoques caíram para 13 dias por causa da escassez de medicamentos e o prazo médio de pagamento subiu para 111 dias após renegociações com fornecedores.
Perfil da dívida agrava o risco financeiro
O perfil da dívida amplia a pressão sobre a tese. A dívida financeira bruta totaliza R$ 3,33 bilhões e está integralmente classificada no curto prazo, inclusive debêntures com vencimento final apenas em 2029.
Entre os passivos, a tranche de certificado de recebíveis imobiliários de R$ 1,59 bilhão, com vencimento majoritário em dezembro de 2026, representa 47% da dívida total. Sozinha, essa parcela equivale a mais de dez vezes a posição atual de caixa da companhia.
A administração também informou que iniciativas inorgânicas estão em revisão, sinalizando uma postura mais cautelosa diante da restrição financeira.
Análise dos especialistas
Na visão do Safra, o resultado do primeiro trimestre de 2026 reforça as preocupações com a tese de investimento em Oncoclínicas. A combinação entre fraqueza operacional, consumo elevado de caixa e estrutura de dívida pressionada torna o cenário especialmente desafiador no curto prazo.
A escassez de medicamentos afetou a operação e ajudou a explicar parte do resultado. Ainda assim, mesmo ao excluir efeitos extraordinários, a margem permaneceu em nível baixo, o que sugere uma deterioração mais ampla do negócio.
Por isso, o banco entende que caixa, serviço da dívida e liquidez seguem como as principais variáveis a monitorar. Em resumo, a Oncoclínicas começou 2026 sob forte pressão financeira, com necessidade clara de estabilizar a operação e reequilibrar a estrutura de capital.