A Motiva (MOTV3, ex-CCR) reportou forte avanço do EBITDA ajustado em 2025, totalizando R$9,5 bilhões (+15,0% a/a), com margem de 62,3% (+5,3 p.p. a/a). Os indicadores de retorno também tiveram crescimento relevante, com ROE de 20,1% (+11,2 p.p.) e ROIC de 12,5% (+6,6 p.p.), acompanhando o crescimento de 25% do lucro líquido.
Contudo, a alavancagem consolidada subiu para 3,6x Dívida Líquida/EBITDA Ajustado (+0,3x a/a), refletindo o desembolso recorde de R$8,5 bilhões com CAPEX e a aquisição de novos ativos.
A conclusão da venda da plataforma de aeroportos para a ASUR por R$11,5 bilhões irá contribuir para a desalavancagem. O perfil de dívida permanece bem alongado (duration de 5,9 anos, custo CDI-0,25%) e a posição de caixa supera a dívida de curto prazo em 5,5x, enquanto o resultado financeiro líquido negativo de R$3,1 bilhões (+26,5% a/a) evidencia a pressão do cenário de juros elevados sobre a geração de caixa e segue como fator de atenção.
Resultado operacional da Motiva (MOTV3)
Em 2025, a receita líquida consolidada totalizou R$15,3 bilhões (+5,2% a/a, com margem EBITDA ajustada de 62,3% (+5,3 p.p. a/a). O crescimento da receita foi impulsionado por:
- (i) reajustes tarifários (destaque para rodovias estaduais de São Paulo e Motiva Pantanal);
- (ii) início de arrecadação dos novos ativos (Rota Sorocabana e PRVias); e
- (iii) crescimento de 10,2% nas receitas complementares.
No segmento de trilhos, a receita tarifária cresceu 2,9% em 2025 a/a, com demanda comparável +2,1%. Os ganhos na margem EBITDA vieram em grande parte da redução de 33% de custos caixa a/a e antecipação da meta de OPEX/Receita Líquida (38% em 2025) para 37,5%.
O tráfego consolidado de rodovias apresentou queda de 5,3% em 2025 a/a, embora na base comparável o crescimento tenha sido de 2,4% (excluindo ViaOeste, Rota Sorocabana e PRVias).
A queda consolidada reflete o término do contrato da ViaOeste e efeitos climáticos adversos (ViaCosteira -2,8% por base pós-enchentes no RS; Motiva Pantanal -1,3% por condições climáticas e maior competição na exportação).
Fluxo de caixa
O fluxo de caixa livre ficou negativo em -R$2,8 bilhões, explicado por:
- (i) CAPEX recorde de R$ 8,5 bilhões, substancialmente acima do FCO de R$5,7 bilhões);
- (ii) investimentos em novos ativos ainda em fase de ramp-up; e
- (iii) obras aceleradas em concessões existentes (Dutra, Linha 4-Amarela, subestações Linhas 8 e 9).
A queima de caixa explica a necessidade de captações líquidas no período, com a entrada de R$13,1 bilhões em 2025, contra pagamentos de principal de R$5,7 bilhões e juros de R$2,7 bilhões. A companhia também pagou R$294 milhões em dividendos intermediários em dezembro de 2025.

Alavancagem
O indicador Dívida Líquida/EBITDA (incluindo operação aeroportos) atingiu 3,6x, contra 3,3x em 2024. A alta está relacionada ao financiamento do capex via dívida, crescimento no custo da dívida (acompanhando aumento nos juros) e maturação de ativos, que ainda não contribuem plenamente para o EBITDA.
Com a venda das operações de aeroportos para o grupo mexicano ASUR por R$11,5 bilhões em nov/25, a alavancagem cai potencialmente para próximo de 2,5x, assim que a transação for concluída.
A Motiva mira uma faixa de alavancagem de 2,5x a 3,5x no horizonte de investimentos relevantes até 2035. O covenant mais restritivo limita o pagamento de dividendos quando a alavancagem bater 4,5x.
Estrutura da dívida
Composta majoritariamente por debêntures, que somam R$30,1 bilhões, ou ~70% do total, complementadas por R$7,1 bilhões em empréstimos e financiamentos (16%) – desconsidera a dívida de aeroportos, em torno de R$6,0 bilhões.
A exposição por indexador (após hedge) é majoritariamente atrelada ao CDI (51%) e ao IPCA (35%), resultando em um custo médio equivalente a CDI – 0,25% e uma duration alongada de 5,9 anos.
O cronograma de amortização é bem distribuído e concentrado no longo prazo, com 54% dos vencimentos ocorrendo somente a partir de 2032, sem concentrações relevantes no curto prazo.
Liquidez
A posição de caixa consolidada de R$9,3 bilhões é confortável e cobre as amortizações de 2026 (R$1,7 bilhão) em mais de 5,5x. Considerando os vencimentos de 2026 e 2027 combinados (R$3,8 bilhões), a cobertura ainda é de 2,4x.
Avaliação dos analistas do Banco Safra
A companhia apresenta bom perfil de crédito, sustentado por margens operacionais elevadas, portfólio diversificado de concessões com receitas previsíveis e perfil de dívida bem alongado (duration 5,9 anos, custo CDI-0,25%), segundo a análise do Banco Safra.
O banco destaca os esforços para reduzir custo-caixa e atingir meta Opex, que geraram ganhos de eficiência. Por outro lado, a alavancagem de 3,6x combinada com dívida bruta de R$37,6 bilhões (ex-aeroportos), capex recorrente de ~R$8,5 bi/ano e resultado financeiro líquido negativo elevado impõem pressão relevante sobre a
geração de caixa.
A perspectiva é neutra pois, embora a venda dos aeroportos e a maturação de novos ativos reduzem potencialmente a alavancagem, o cenário de juros elevados e a necessidade contínua de investimentos pesados limitam a visibilidade de desalavancagem no curto prazo. Nesse sentido, o Safra considera válida a iniciativa da companhia em limitar a alavancagem em 3,5x para os próximos anos.