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ANÁLISE

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Alta do petróleo favorece fábricas de ônibus e pode beneficiar a Marcopolo

Se as tarifas aéreas continuarem sob pressão e o transporte rodoviário mantiver ganho de competitividade, a Marcopolo (POMO4) pode colher benefícios no segmento interestadual


Os preços do petróleo voltaram ao centro das atenções e reacenderam uma discussão relevante para o setor de transportes: como a alta do Brent altera a demanda entre ônibus e avião.

Na avaliação do Safra, esse movimento pode beneficiar o transporte rodoviário interestadual, embora o efeito final sobre a Marcopolo (POMO4) siga neutro no curto prazo. Mesmo assim, o banco elevou o preço-alvo da ação para R$ 9,10 em 12 meses e manteve a recomendação de compra.

Petróleo muda a conta entre avião e ônibus

O avanço do Brent impacta de forma distinta os dois modais. Isso ocorre porque o querosene de aviação acompanha mais de perto os preços internacionais do petróleo, enquanto o diesel teve, ao longo do período recente, maior apoio governamental no Brasil.

Desde o início da guerra, o querosene de aviação acumulou alta de 53%. Já o diesel subiu 24%. Essa diferença altera a estrutura de custos das empresas de transporte e amplia a pressão sobre as companhias aéreas.

Segundo estimativas com base em dados de Azul (AZUL4), Gol (GOLL4) e LATAM, o combustível representa cerca de 33% das despesas operacionais das empresas aéreas. No transporte rodoviário, essa fatia varia entre 25% e 33%.

Com isso, para preservar margens, as companhias aéreas teriam de reajustar tarifas em 17%. No caso dos operadores rodoviários, o repasse necessário ficaria em torno de 8%. Em outras palavras, o choque de petróleo pesa mais sobre o transporte aéreo.

Ônibus interestadual pode ganhar espaço

O Safra observa, desde 2023, um padrão claro no mercado. Quando as passagens aéreas sobem, o transporte rodoviário interestadual tende a ganhar participação.

Esse comportamento reforça a tese de migração de demanda entre modais. Na prática, viagens de média distância podem se tornar mais competitivas para o ônibus, sobretudo em um cenário de renda pressionada e busca por alternativas mais baratas.

Para a Marcopolo, essa mudança pode sustentar a demanda por veículos voltados ao transporte rodoviário interestadual. Além disso, esse segmento costuma contar com uma reposição de frota mais previsível.

Segmento urbano ainda enfrenta entraves

Por outro lado, o cenário segue mais desafiador no transporte urbano. As operadoras atuam sob concessões municipais e dependem de reajustes tarifários que, muitas vezes, enfrentam resistência política.

Como resultado, aumentam as incertezas sobre fluxo de caixa e rentabilidade. Em vários casos, subsídios públicos compensam apenas parte da pressão de custos. Esse ambiente tende a adiar decisões de renovação de frota e, por consequência, reduz a demanda por novos ônibus urbanos.

Assim, embora o segmento rodoviário ofereça um vetor positivo, a fraqueza do mercado urbano limita uma recuperação mais forte para a fabricante.

Safra vê impacto neutro para a Marcopolo

Ao ponderar esses dois movimentos, o Safra considera o efeito neutro para a POMO4. De um lado, a companhia pode se beneficiar de um eventual deslocamento de passageiros do avião para o ônibus interestadual. De outro, o segmento urbano continua pressionado por fatores regulatórios e políticos.

Portanto, o potencial de alta em uma frente acaba compensado pelas limitações da outra. Essa leitura ajuda a explicar por que a avaliação operacional não mudou de forma relevante, mesmo em um contexto de preços de energia mais altos.

Preço-alvo sobe para R$ 9,10

O Safra atualizou suas estimativas para a Marcopolo após incorporar os resultados do quarto trimestre de 2025 e revisar premissas macroeconômicas.

A nova projeção considera receita de R$ 9,578 bilhões em 2026, queda de 1,7% em relação à estimativa anterior. A revisão reflete principalmente câmbio mais fraco, projetado em R$ 5,14 por dólar, e menores volumes de ônibus urbanos, parcialmente compensados por maiores entregas ao Ministério da Saúde e ajustes nas projeções relacionadas ao Caminho da Escola.

O banco também revisou o EBITDA para R$ 1,712 bilhão, com margem de 17,9%. Já a estimativa de lucro líquido para 2026 subiu 4,7%.

Com isso, o Safra elevou o preço-alvo da ação para R$ 9,10 em 12 meses, ante R$ 9,00 anteriormente. O novo valor implica potencial de valorização de 30%, com manutenção da recomendação de compra.

Ação negocia abaixo da média histórica

Aos preços atuais, a Marcopolo negocia a 6,9 vezes preço sobre lucro. Esse patamar fica cerca de 2% abaixo da média histórica da companhia.

Esse desconto, ainda que pequeno, reforça a visão construtiva do Safra para o papel. Ao mesmo tempo, o banco segue atento aos fatores que podem alterar o ritmo de demanda e a rentabilidade da empresa nos próximos trimestres.

Quais são os principais riscos

Entre os principais riscos para a tese de investimento em Marcopolo, o Safra destaca:

  • piora do ambiente macroeconômico e da atividade, já que a venda de ônibus responde ao crescimento do Produto Interno Bruto;
  • perda de participação de mercado para outros modais;
  • inflação de matérias-primas;
  • desempenho abaixo do esperado da força de trabalho;
  • concorrência mais intensa;
  • juros mais altos, com impacto sobre vendas e produção de veículos;
  • mix de produção menos favorável;
  • avanço adicional do custo do diesel, com efeito negativo sobre a demanda.

O que o investidor deve observar

A evolução do petróleo seguirá como variável importante para o setor de transportes. Se as tarifas aéreas continuarem sob pressão e o transporte rodoviário mantiver ganho de competitividade, a Marcopolo (POMO4) pode colher benefícios no segmento interestadual.

Ainda assim, a recuperação mais ampla da companhia depende de melhora no mercado urbano, onde os entraves regulatórios e fiscais continuam relevantes. Por isso, a tese de investimento combina oportunidade de valorização com monitoramento atento do cenário macroeconômico, político e setorial.


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