A Hapvida (HAPV3) iniciou uma reorganização estratégica profunda. A companhia substituiu praticamente toda a alta liderança, passou a avaliar a venda de ativos e a possível saída de algumas regiões, além de contar com aumento relevante da participação da família controladora no capital.
Na avaliação do Banco Safra, esse conjunto forma um dos sinais mais construtivos vistos recentemente. Ainda assim, a nova direção, por si só, não garante uma mudança estrutural na percepção do mercado sobre a ação. Para isso, a reestruturação precisa aparecer nos números.
O ponto central continua sendo a busca por um novo equilíbrio entre expansão da carteira e margem operacional. Esse processo pode ganhar tração com a reestruturação, mas ainda há baixa visibilidade sobre quando os efeitos práticos devem surgir.
Rentabilidade ainda precisa reagir
A Hapvida segue com uma taxa de sinistralidade caixa acumulada de 75,3% em 2025, em patamar ainda competitivo. No entanto, a vantagem em relação aos concorrentes diminuiu de forma relevante.
A operação original da Hapvida registrou taxa de 72,0%, em linha com sua posição historicamente mais forte nas regiões Norte e Nordeste. Já a operação da NotreDame Intermédica apresentou 78,4%, número próximo ao de concorrentes sem verticalização relevante. Esse quadro reduz a evidência de ganho de eficiência com o modelo integrado nas regiões Sul e Sudeste.
Além disso, o Safra avalia que a discussão sobre margem operacional pesa mais do que a análise isolada da taxa de sinistralidade. Isso ocorre porque despesas comerciais e provisões judiciais seguem com impacto relevante sobre a rentabilidade.
Diferença regional pressiona a operação
A trajetória recente da Hapvida mostra uma divisão regional clara. Em quatro anos, a companhia perdeu 661 mil beneficiários nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em paralelo, ganhou 463 mil no Norte e Nordeste.
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o mercado avançou 7,1%, mas a Hapvida encolheu 10,5% e perdeu 2,5 pontos percentuais de participação. As perdas atingiram tanto a operação original da companhia quanto a da NotreDame Intermédica.
Já no Norte e Nordeste, a empresa cresceu 17,9% e ampliou sua participação em 2,1 pontos percentuais, em um mercado que expandiu 10,3%. Esse desempenho reforça a leitura de que a companhia mantém força competitiva maior nessas regiões.
Segundo o Safra, a empresa provavelmente enfrenta desafios de percepção de produto e de adequação de rede no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, a concorrência aumentou nesses mercados. A desaceleração do reajuste de preços da NotreDame Intermédica para 0,9% no quarto trimestre de 2025, em um ambiente de inflação próxima de 5%, também sugere capacidade limitada de repasse.
Nova gestão amplia espaço para mudanças
A reformulação da liderança envolveu mais de dez nomeações em diferentes áreas. A nova equipe passou a organizar 2026 em torno de geração de caixa livre para a firma, disciplina na alavancagem, controle da sinistralidade, crescimento da base de clientes e satisfação do consumidor.
Essa nova abordagem sinaliza abertura para decisões que antes pareciam menos prováveis, como desinvestimentos de ativos no Sul. Além disso, a família controladora elevou sua participação para 55,5%, excluindo tesouraria, ante 41,6% anteriormente.
Para o Safra, a mudança de direção é positiva. Mesmo assim, o risco de execução continua alto, diante da dimensão do rearranjo operacional e estratégico.
Especialistas reduzem estimativas
Os especialistas do Safra reduziram suas estimativas para a Hapvida (HAPV3). As projeções de receita líquida para 2026 a 2028 caíram, em média, 6%, refletindo premissas mais conservadoras para entrada líquida de beneficiários.
A estimativa de resultado operacional ajustado recuou 27%, com base em hipóteses mais cautelosas para sinistralidade e despesas gerais e administrativas. Já a projeção de lucro líquido ajustado caiu, em média, 51%, pressionada por menor diluição operacional e maiores despesas financeiras.
Com isso, o Safra reduziu as estimativas de resultado operacional para 2026 e 2027 em 31% e 28%, respectivamente. O preço-alvo passou para R$ 16 por ação. A recomendação permaneceu neutra.
O que pode destravar a tese
A tese para Hapvida ainda depende de uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, a companhia precisa mostrar recuperação mais consistente de rentabilidade. Em seguida, precisa estabilizar a base de beneficiários nas regiões mais desafiadoras. Por fim, o mercado deve buscar evidências de que a nova gestão consegue executar mudanças sem ampliar a pressão operacional.
Por enquanto, a reorganização melhora a sinalização estratégica. No entanto, a virada da tese ainda exige confirmação nos resultados.
Principais riscos
Os principais riscos para a companhia incluem:
- novas perdas de beneficiários
- dificuldade para reajustar preços acima da inflação
- mudanças regulatórias
- piora do ambiente macroeconômico
A Hapvida deu um passo relevante ao promover uma reestruturação ampla e indicar maior disposição para rever ativos, regiões e prioridades operacionais. Esse movimento melhora a leitura estratégica da companhia.
Ainda assim, o mercado deve exigir mais do que intenção. A tese só tende a ganhar força quando a reorganização se traduzir em crescimento mais equilibrado, avanço de margem e maior previsibilidade de resultados.