O Grupo Mateus (GMAT3) apresentou um primeiro trimestre de 2026 mais fraco do que o esperado na operação. A receita líquida consolidada somou R$ 9,4 bilhões, com alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas ficou 7% abaixo da estimativa do Safra.
O crescimento anual refletiu, sobretudo, a combinação com o Novo Atacarejo, concluída no terceiro trimestre de 2025, além da expansão contínua do atacado entre empresas. Nesse canal, o número de representantes comerciais cresceu 44% em um ano.
Ainda assim, o desempenho de vendas nas mesmas lojas foi o principal ponto de pressão. O indicador consolidado caiu 7,3% na comparação anual, em deterioração relevante frente à queda de 1,1% observada no trimestre anterior.
Consumo mais fraco pesa sobre as vendas
Segundo o Safra, a pressão sobre as vendas refletiu um ambiente de deflação de alimentos, sobretudo em commodities, além do maior endividamento das famílias e de mudanças no perfil de consumo.
Ao mesmo tempo, a companhia decidiu interromper a operação de balcão em lojas de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Esse formato, voltado ao atendimento de empresas dentro das lojas, tinha margem menor e gerava pressão competitiva interna, embora contribuísse para volumes.
No trimestre, o Grupo Mateus abriu quatro lojas, sendo três unidades Mix Mateus de atacado de autosserviço e um supermercado. Com isso, encerrou março com 228 lojas de varejo alimentar e 306 unidades em operação.
Margem bruta melhora, mas despesas anulam ganho
Mesmo com a receita mais fraca, a margem bruta mostrou evolução. O indicador chegou a 22,9%, com alta de 64 pontos-base em relação ao mesmo período do ano anterior e nível ligeiramente acima da estimativa do Safra.
Esse avanço refletiu a estratégia da companhia de priorizar rentabilidade em canais de menor margem, além de uma otimização comercial contínua com fornecedores.
Por outro lado, as despesas operacionais aumentaram e mais do que compensaram esse ganho. O principal fator foi a incorporação do Novo Atacarejo, que elevou a base de custos, em um momento de receita abaixo do esperado.
Resultado operacional decepciona
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustado, sem considerar os efeitos da norma contábil de arrendamentos, somou R$ 426 milhões no primeiro trimestre. O número ficou 5% abaixo da estimativa do Safra e recuou 13% na comparação anual.
A margem operacional ajustada também caiu em relação ao mesmo período de 2025. Embora tenha vindo levemente acima da projeção do banco, o resultado mostrou perda de rentabilidade no trimestre.
Houve ainda um custo não recorrente de R$ 26 milhões ligado a uma reestruturação de produtividade. Mesmo ao excluir esse efeito, a leitura operacional permaneceu fraca.
Na avaliação do Safra, o trimestre foi negativo justamente porque a melhora da margem bruta não foi suficiente para compensar a pressão de despesas e o enfraquecimento das vendas.
Lucro sobe com ajuda do imposto
Apesar do resultado operacional mais fraco, o lucro líquido ajustado atingiu R$ 217 milhões e ficou cerca de 15% acima da estimativa do Safra.
Esse desempenho refletiu um efeito positivo de imposto de renda de R$ 29 milhões, relacionado a incentivos fiscais sobre investimentos. Na prática, esse benefício tributário mais do que compensou a fraqueza operacional do período.
Por isso, embora a última linha tenha surpreendido positivamente, o Safra entende que a qualidade do resultado foi menos favorável do que o lucro sugere.
Fluxo de caixa é o principal destaque
Se vendas e rentabilidade trouxeram frustração, a geração de caixa foi o ponto mais positivo do trimestre. O Grupo Mateus reduziu em 16 dias seu ciclo de caixa e gerou R$ 495 milhões no período.
Esse desempenho contribuiu para a redução da dívida líquida, que encerrou março em R$ 736 milhões. Com isso, a relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ficou em 0,3 vez, nível considerado saudável.
Na leitura do Safra, esse avanço financeiro ajudou a suavizar a percepção negativa sobre o balanço, mesmo sem mudar a avaliação mais cautelosa sobre a operação.
Falta de abertura de dados aumenta atenção
Outro ponto que chamou atenção no trimestre foi a decisão da companhia de deixar de divulgar o detalhamento de receita por segmento.
Para o Safra, a mudança ocorre em um momento em que as vendas nas mesmas lojas seguem pressionadas, o que eleva a necessidade de acompanhar mais de perto os sinais de retomada operacional nos próximos trimestres.
Análise dos especialistas
Na visão do Safra, o resultado do Grupo Mateus foi negativo. A receita e o resultado operacional vieram abaixo do esperado, enquanto a pressão nas vendas nas mesmas lojas se intensificou no início de 2026.
Por outro lado, a forte geração de caixa e a redução da dívida líquida foram pontos relevantes e mostram disciplina financeira em um ambiente mais desafiador.
Ainda assim, o banco prefere manter uma postura cautelosa até que apareça um sinal mais claro de melhora operacional. Por isso, o Safra reiterou recomendação neutra para GMAT3.
Em resumo, o Grupo Mateus começou 2026 com fraqueza em vendas e rentabilidade, mas entregou um alívio importante no caixa. Agora, o foco do mercado deve seguir na busca por evidências de estabilização da operação.