O Grupo Casas Bahia (BHIA3) apresentou resultados operacionais em linha com o esperado no primeiro trimestre de 2026. A receita líquida e o resultado operacional vieram em patamar compatível com as projeções, enquanto o lucro líquido ficou abaixo do previsto.
O volume bruto de mercadorias somou R$ 10,4 bilhões, com alta de 5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número também superou ligeiramente a estimativa do Safra. O principal destaque veio do comércio digital com estoque próprio, que avançou 27,4% na comparação anual e atingiu R$ 3,2 bilhões. Trata-se do crescimento mais forte em 19 trimestres.
Esse desempenho refletiu ganho de participação de mercado em categorias estratégicas, como linha branca, tecnologia e portáteis. Além disso, a companhia ampliou o tráfego em seus canais próprios e reforçou receitas com parcerias comerciais, como a firmada com o Mercado Livre (MELI34).
Nas lojas físicas, as vendas em mesmas lojas recuaram 1,6%. Ainda assim, o resultado mostrou resiliência diante de uma base de comparação forte no primeiro trimestre de 2025.
Já o volume do marketplace caiu 3%, para R$ 1,8 bilhão. Mesmo assim, a receita da operação ficou estável e a rentabilidade da plataforma melhorou com avanço da comissão média.
Margens resistem, apesar da pressão nas despesas
A receita líquida alcançou R$ 7,4 bilhões, com crescimento de 6% em relação ao ano anterior. O resultado ficou 3% acima da estimativa do Safra.
O lucro bruto somou R$ 2,3 bilhões, com margem bruta de 31%. O indicador mostrou leve avanço na comparação anual e desempenho superior ao projetado. O resultado indica disciplina comercial e melhora no mix de produtos, mesmo com maior participação das vendas com estoque próprio, que costumam trazer rentabilidade menor.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ajustado totalizou R$ 597 milhões, com alta de 5% na comparação anual. A margem ficou em 8,1%. Embora tenha recuado levemente em relação ao mesmo período de 2025, o número veio acima da expectativa.
Por outro lado, o prejuízo líquido atingiu R$ 1,1 bilhão, muito acima da projeção do Safra. O resultado refletiu, sobretudo, despesas financeiras mais elevadas e uma carga tributária mais pesada.
Prejuízo reflete custo financeiro e efeito tributário
A piora do resultado líquido decorreu de dois fatores principais. O primeiro foi a despesa financeira líquida de R$ 1,2 bilhão, pressionada por custos mais altos com antecipação de recebíveis, fundos de investimento em direitos creditórios e ajustes pontuais de correção monetária.
O segundo fator foi o impacto tributário negativo. Em meio a um ambiente macroeconômico ainda desafiador, a companhia decidiu não reconhecer ativos fiscais diferidos. Com isso, o efeito tributário do trimestre ficou negativo, o que ampliou a distância entre o resultado reportado e a expectativa do mercado.
Ainda assim, houve melhora relevante na comparação sequencial. As despesas financeiras caíram 59,7% frente ao trimestre anterior. Os juros com fornecedores recuaram 58,5%, enquanto as antecipações de recebíveis diminuíram 15,9%. O movimento sinaliza algum avanço na estrutura de capital, embora ainda insuficiente para eliminar as fragilidades do balanço.
Queima de caixa diminui, mas preocupação continua
A geração de caixa segue como o principal ponto de atenção na tese de investimento. No acumulado de 12 meses, o Grupo Casas Bahia reduziu a dívida líquida em R$ 2,6 bilhões. No entanto, esse movimento incluiu cerca de R$ 4,2 bilhões em conversão de dívida em capital.
Na prática, o dado implica queima de caixa de R$ 1,6 bilhão no período. Houve melhora relevante em relação ao quarto trimestre de 2025, quando a queima em 12 meses estava em R$ 2,9 bilhões. Ainda assim, o avanço não basta para mudar a leitura estrutural sobre a companhia.
O ciclo de caixa aumentou em 14 dias no trimestre, principalmente por causa do alongamento do prazo com fornecedores. Segundo a empresa, a estratégia buscou preparar estoques para o segundo trimestre de 2026, em função da Copa do Mundo. Mesmo assim, o indicador reforça que a trajetória de recuperação ainda exige cautela.
Recomendação é de venda
Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, o processo de recuperação segue mostrando melhora operacional relevante. A evolução aparece na demonstração de resultados e, agora, também começa a ser acompanhada por redução sequencial das despesas financeiras.
Apesar disso, a persistência da queima de caixa ainda impede uma visão mais construtiva sobre o caso. O banco entende que a companhia precisa apresentar sinais mais consistentes de geração de caixa antes que a tese possa ser revisada.
Por isso, o Safra mantém recomendação de venda para BHIA3. A leitura é que houve progresso no trimestre, mas a jornada para uma recuperação estrutural ainda permanece longa.