O Banco Safra revisou as estimativas para a GPS (GGPS3) com foco em dois temas que devem influenciar a companhia nos próximos anos: a reforma tributária e uma possível reforma trabalhista. A avaliação do banco indica que o efeito mais imediato da mudança tributária tende a ser negativo sobre a rentabilidade, mas o novo ambiente também pode ampliar o mercado da empresa ao longo do tempo.
No campo tributário, o principal impacto de curto prazo está na perda de um benefício fiscal da Top Service, empresa que responde por cerca de 20% da receita consolidada da GPS. O Safra estima que esse efeito deve reduzir em 60 pontos-base a margem EBITDA da companhia em 2027. Essa pressão já está incorporada nas projeções do banco.
Por outro lado, a reforma também pode criar uma avenida de crescimento para a GPS. Com o novo imposto sobre valor agregado recuperável, o custo da terceirização pode cair ao menos 5% em relação aos níveis atuais. Além disso, a tendência é de menor informalidade no setor, já que os clientes devem depender mais de fornecedores capazes de recolher corretamente os tributos para preservar créditos fiscais.
Expansão do mercado pode compensar perda fiscal
Na visão do Safra, o efeito positivo da reforma tributária deve ocorrer de forma gradual. O benefício mais amplo para o setor deve aparecer ao longo dos próximos sete anos, com potencial de maturação mais completa apenas em 2033.
Esse vetor ainda não está refletido no cenário-base do banco. Ainda assim, ele representa um risco positivo relevante para a tese de investimento. Pelas contas do Safra, se a receita orgânica da GPS crescer, em média, 1% adicional acima das estimativas atuais até 2035, esse avanço já seria suficiente para compensar a perda do benefício fiscal da Top Service.
Em outras palavras, embora a transição imponha um custo inicial para a companhia, a reforma pode melhorar a competitividade da terceirização no Brasil e ampliar o mercado endereçável da GPS no longo prazo.
Mudança trabalhista tende a ter efeito limitado no curto prazo
O Safra também analisou os possíveis desdobramentos de uma reforma trabalhista, ainda cercada de incerteza. O banco destaca que o eventual fim da escala 6 por 1 deve ter impacto limitado para a GPS, já que apenas cerca de 5% da força de trabalho da companhia atua nesse modelo.
O ponto de maior atenção está em uma eventual redução da jornada semanal sem ajuste salarial. Nesse cenário, a empresa poderia enfrentar pressão sobre os níveis de serviço e sobre o crescimento orgânico. Embora os contratos prevejam renegociação, clientes podem resistir a repasses integrais de preços, ao menos em um primeiro momento.
Assim, o risco trabalhista parece menos relevante no curtíssimo prazo, mas pode gerar pressão operacional e comercial caso mudanças mais amplas avancem.
Análise dos especialistas
Além da análise regulatória, o Safra atualizou as projeções financeiras para a GGPS3 após os resultados do quarto trimestre de 2025 e a revisão de premissas macroeconômicas.
As estimativas de receita ficaram praticamente estáveis, com variação de menos 0,2%. Já a visão para rentabilidade ficou mais conservadora. O banco reduziu a projeção de EBITDA de 2026 em 3,6%, o que levou a margem EBITDA ex IFRS para 10,2%, queda de 35 pontos-base.
Essa revisão reflete a combinação de pressões ainda persistentes em Top Service e Control, além de despesas de mão de obra elevadas. Com isso, o Safra também cortou em 5% a estimativa de lucro líquido ajustado, agora em R$ 945 milhões.
Diante desse novo cenário, o banco reduziu o preço-alvo de 12 meses para R$ 23,00 por ação, ante R$ 25,80 anteriormente. Mesmo assim, a recomendação foi mantida em compra. O novo preço implica potencial de valorização de 40% em relação aos níveis atuais.
Ação negocia abaixo da média histórica
Na avaliação do Safra, a ação GGPS3 segue negociando em patamar atrativo. Pelos níveis atuais, o papel está cotado a 13,1 vezes preço sobre lucro, cerca de 13,5% abaixo da média histórica da companhia.
Esse desconto sustenta a visão positiva do banco, sobretudo porque parte dos impactos negativos já aparece nas estimativas, enquanto a expansão potencial do mercado com a reforma tributária ainda não entrou no cenário-base.
Quais são os principais riscos para a tese
O Safra destaca cinco riscos principais para a tese de investimento em GPS:
- disponibilidade de mão de obra
- riscos regulatórios e trabalhistas
- riscos de integração
- riscos ligados a aquisições, com possibilidade de passivos contingentes não identificados
- rotatividade de contratos
O que o investidor deve acompanhar
A tese para GPS combina pressão de curto prazo e oportunidade estrutural de longo prazo. De um lado, a companhia deve sentir os efeitos da perda de benefício fiscal e de um ambiente ainda desafiador em algumas operações. De outro, a reforma tributária pode reduzir o custo da terceirização, formalizar o setor e ampliar a demanda ao longo dos próximos anos.
Por isso, o ponto central para o investidor será acompanhar a evolução das margens, a capacidade de repasse de custos e os sinais de expansão do mercado endereçável. Para o Safra, mesmo com estimativas mais conservadoras e preço-alvo menor, a ação continua oferecendo uma relação entre risco e retorno que justifica a recomendação de compra.