A Cury (CURY3) levou a Boston uma mensagem central para investidores: a pressão inflacionária sobre os custos de construção exige cautela, mas a companhia avalia que já incorporou esse risco de forma mais conservadora em seus projetos.
Segundo a administração, os orçamentos mais recentes já consideram os preços correntes de insumos e logística, com premissas de inflação ao redor de 8%. A leitura da empresa é que, sem novas surpresas relevantes de custos, as margens atuais seguem defensáveis.
Além disso, a Cury destacou um mecanismo importante de proteção. Cerca de 90% da carteira de recebíveis está atrelada ao Índice Nacional de Custo da Construção, o que cobre aproximadamente 75% dos custos futuros ainda a incorrer nas unidades já vendidas. Na prática, isso reduz parte da exposição da companhia ao avanço da inflação no setor.
Vendas rápidas ajudam a defender resultado
Um dos pontos mais relevantes da conversa com investidores foi a defesa de que a forte velocidade de vendas funciona como alavanca de proteção, e não como fator de risco.
Na visão da Cury, vender mais rápido melhora a geração de caixa e reduz despesas financeiras. Ao mesmo tempo, a empresa entende que os incentivos recentes do programa Minha Casa Minha Vida ampliaram a capacidade de compra do consumidor, após a elevação dos tetos de preço e renda.
Esse ambiente, segundo a companhia, tende a permitir novos aumentos de preços sem comprometer o ritmo de vendas. Como resultado, a empresa vê espaço para preservar margens mesmo com premissas mais conservadoras para custos.
Crescimento depende de execução disciplinada
Investidores também questionaram como a Cury pretende sustentar a expansão em um ambiente mais desafiador para contratação de mão de obra. A resposta da companhia foi centrada em disciplina operacional.
A empresa afirmou que reforçou sua estrutura de engenharia, com mais de 200 engenheiros, e estuda métodos construtivos alternativos para empreendimentos menos complexos. Entre as alternativas estão formas de alumínio e paredes de concreto.
A transição deve começar em 2027, por meio de projetos piloto. Depois, a participação desses métodos pode crescer de forma gradual. A administração afirmou que não espera impacto relevante nas margens nem na dinâmica de reconhecimento de resultados.
São Paulo ganha ainda mais peso
A estratégia comercial da Cury também reforça a busca por projetos em regiões mais valorizadas. Para a companhia, localizações premium se tornaram um fator cada vez mais decisivo para o sucesso dos lançamentos e para o poder de precificação.
Nesse contexto, São Paulo deve seguir como principal mercado da empresa e pode ganhar participação ainda maior no longo prazo. A companhia vê potencial adicional em possíveis mudanças de zoneamento em regiões como Pinheiros e Arco Tietê, o que abriria novas frentes de desenvolvimento em áreas mais nobres.
No Rio de Janeiro, a Cury também acompanha a possibilidade de incentivos adicionais à densificação nas regiões Norte e Centro, onde já possui exposição relevante. Embora essa frente ainda esteja em estágio inicial, ela pode ampliar o potencial de lançamentos adiante.
Visão segue positiva para a ação
Ao fim das reuniões, a avaliação do Safra permaneceu construtiva para a tese de investimento em Cury. A leitura é que, embora a inflação mais alta reduza a visibilidade de curto prazo, parte importante desse risco tende a ser compensada por receitas mais fortes e maior diluição de despesas administrativas e comerciais.
A expectativa da companhia para 2026 também segue positiva, com crescimento de lucros apoiado por eficiência operacional e manutenção da rentabilidade.
Após a queda recente, o Safra vê a Cury negociando a níveis atrativos. Mesmo em um cenário de compressão adicional de margem bruta, a ação ainda apresentaria um múltiplo considerado descontado, o que reforça a recomendação de desempenho acima da média do mercado.
Análise dos especialistas
A mensagem da Cury (CURY3) em Boston foi direta. A companhia reconhece o ambiente mais pressionado para custos, mas sustenta que possui instrumentos para atravessar esse cenário com resiliência.
Com proteção relevante contra a inflação da construção, vendas fortes, foco em execução e estratégia de lançamentos concentrada em regiões mais valorizadas, a empresa tenta mostrar ao mercado que ainda reúne condições para preservar margens e continuar crescendo. Para o Safra, essa combinação segue sustentando uma visão favorável para a ação.