As estatísticas de crédito divulgadas pelo Banco Central para abril indicam uma dinâmica mista para o mercado de veículos, com sinais positivos para a atividade, mas ainda sem eliminar os fatores de risco que afetam o setor de transportes e, em especial, as locadoras de automóveis.
No segmento de pessoa física, o volume de novos financiamentos de veículos avançou 27,7% na comparação anual, para R$ 21,1 bilhões.
O dado reforça a resiliência da demanda por crédito automotivo e sugere um ambiente ainda favorável para a cadeia de veículos, com reflexos indiretos sobre o ritmo de renovação de frota das empresas de locação.
Ao mesmo tempo, a taxa de juros desse segmento recuou 3 pontos-base em relação ao mês anterior, para 26,6%, embora ainda permaneça 142 pontos-base acima do nível observado um ano antes.
Já a inadimplência subiu 13 pontos-base no mês, para 6,1%, acumulando alta de 126 pontos-base em 12 meses.
Pessoa jurídica mostra retração no financiamento de veículos
No mercado de pessoas jurídicas, o quadro foi mais fraco. O volume de novos financiamentos de veículos caiu 12% em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 4,3 bilhões.
A piora também apareceu na qualidade do crédito. O índice de inadimplência subiu 3 pontos-base no mês, para 4,8%, nível 166 pontos-base superior ao de um ano antes.
Em contrapartida, a taxa de juros recuou 4 pontos-base na margem, para 18,5%, ainda 78 pontos-base acima do patamar registrado na comparação anual.
Leitura para o mercado
A combinação entre expansão do crédito para consumidores e retração para empresas sugere que a demanda final continua relativamente firme, enquanto o ambiente para tomada de crédito corporativo segue mais seletivo. Para investidores, isso significa que o vetor operacional do setor pode continuar funcional no curto prazo, mas sob uma estrutura de financiamento ainda pressionada.
Safra mantém visão neutra para o efeito setorial de curto prazo
Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, os dados são neutros para Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3). O aumento no volume de financiamento de veículos segue oferecendo suporte ao processo de renovação de frotas, um dos pilares operacionais das locadoras. Ainda assim, esse efeito positivo não é suficiente, por ora, para alterar de forma mais construtiva a leitura sobre o setor.
O ponto central de atenção permanece na qualidade do crédito. A inadimplência acima dos níveis observados no início do ano — com NPL de 90 dias em 6,1%, ante 5,6% em janeiro — e o custo ainda elevado do financiamento indicam que o ambiente financeiro continua apertado.
Por que isso importa para as locadoras
Para companhias intensivas em capital, como as locadoras, a trajetória do crédito influencia diretamente:
- O custo de renovação de frota
- A velocidade de compra de veículos
- A gestão de alavancagem e de caixa
- A rentabilidade futura das operações
Se inadimplência e juros permanecerem em níveis altos por período prolongado, a tendência é de encarecimento do financiamento ao longo da cadeia, o que pode reduzir a eficiência do ciclo de renovação de frota e pressionar margens.
Recomendações seguem inalteradas
Diante desse quadro, o Safra manteve suas recomendações para as duas companhias do setor:
- Movida (MOVI3): Neutra
- Preço-alvo: R$ 11,30
- Localiza (RENT3): Compra
- Preço-alvo: R$ 54,80
A manutenção das recomendações reflete uma leitura equilibrada: há suporte vindo da atividade e do crédito ao consumidor, mas persistem riscos suficientes no custo de capital e na inadimplência para impedir uma revisão mais positiva e disseminada para o setor.
O que observar daqui para frente
Para o mercado, os próximos dados mais relevantes serão:
- a trajetória da inadimplência no crédito automotivo;
- a evolução das taxas de juros para pessoa física e jurídica;
- o comportamento do financiamento corporativo para aquisição de veículos;
- os sinais de repasse dessas condições para os custos operacionais das locadoras.
Em síntese, os números mais recentes preservam um pano de fundo de sustentação para a atividade, mas ainda insuficiente para dissipar as incertezas financeiras que cercam o setor de transportes na bolsa.