Na sétima edição do Monitor de Crédito Imobiliário do Safra, o banco destaca que os desembolsos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para habitação de baixa renda somaram R$ 9,6 bilhões em março. O volume avançou 4% na comparação mensal e 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 12 meses, o total alcançou R$ 129,1 bilhões, também com alta de 7%.
Os financiamentos para construtoras responderam por cerca de 21% do crédito habitacional total no mês. O patamar ficou estável em relação a um ano antes, embora abaixo da média de 24% observada nos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, os recursos destinados à compra de imóveis usados via FGTS chegaram a R$ 1,2 bilhão em março, com avanço de 30% no mês e de 10% em 12 meses. Esse montante representou 13% do volume desembolsado no período.
Além disso, a revisão da curva de subsídios aprovada em novembro acelerou os financiamentos da Faixa 1. Com isso, o Nordeste, região com maior exposição a esse público, respondeu por 27% das unidades financiadas em março, acima dos 21% registrados em março de 2025. Já a Faixa 3 perdeu participação e respondeu por cerca de 24% do funding total para pessoas físicas, ante 39% um ano antes.
Faixa 4 tende a ganhar impulso
As originações mensais da Faixa 4 do programa habitacional somaram R$ 1,2 bilhão em março, com crescimento de 20% frente ao mês anterior. No acumulado do ano, o volume atingiu R$ 3 bilhões.
A tendência, segundo o Safra, é de aceleração nos próximos meses. Isso porque a nova rodada de ajustes da Faixa 4, com elevação do teto do valor do imóvel e do limite de renda, entrou em vigor em 22 de abril. Em março, essa faixa respondeu por 13% do total de desembolsos do crédito habitacional.
Considerando cerca de R$ 6 bilhões de recursos que não foram utilizados no ano passado, o Safra estima que o orçamento da Faixa 4 pode encerrar 2026 próximo de R$ 20 bilhões. O orçamento inicial previsto para o ano era de R$ 15 bilhões.
Orçamento recorde fortalece cenário
O orçamento habitacional de 2026 deve atingir R$ 195 bilhões, desconsiderando o Fundo de Arrendamento Residencial. O número aponta para um recorde histórico e reflete, principalmente, o orçamento também recorde do FGTS para habitação, estimado em R$ 144,5 bilhões.
Além disso, o quadro ganhou reforço com recursos adicionais do Fundo Social. Em 15 de abril, o governo federal anunciou uma alocação incremental de R$ 20 bilhões para o orçamento habitacional. Somados ao saldo carregado de 2025 e ao orçamento inicial de 2026, esses recursos devem elevar o volume total do Fundo Social para perto de R$ 50 bilhões.
Na avaliação do Safra, esse reforço ajuda a compensar o impacto potencial de uma proposta de saque do FGTS. A medida em discussão prevê a liberação de 20% do saldo para famílias com renda de até cinco salários mínimos quitarem dívidas. O efeito estimado é de R$ 17 bilhões, incluindo uma saída de R$ 7 bilhões ligada ao saque-aniversário.
Poupança segue pressionada, mas crédito à construção cresce
A poupança voltou a mostrar fragilidade. Em março, houve saída líquida de R$ 9,1 bilhões. Em 12 meses, a retirada acumulada chegou a R$ 60 bilhões, o que representa alta de 63% em relação ao mesmo intervalo anterior.
Mesmo assim, os dados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo mostraram sinais mistos. Em fevereiro, as originações somaram R$ 11,8 bilhões, com queda de 7% em 12 meses. O movimento refletiu, sobretudo, a retração de 21% nos empréstimos para pessoas físicas.
Por outro lado, o crédito voltado à construção ganhou força. Os financiamentos para obras atingiram R$ 2,7 bilhões, com salto de 116% na comparação anual. O avanço foi puxado pelo maior volume concedido pela Caixa Econômica Federal, que concentrou 80% dos empréstimos à construção, ante 14% em fevereiro de 2025.
Caixa deve sustentar expansão do crédito
Para o Safra, 2026 deve ser um ano forte para a concessão de crédito imobiliário. A expectativa se apoia, em grande parte, no maior apetite da Caixa Econômica Federal, que projeta crescimento de 9,5% a 13,5% em sua carteira de crédito imobiliário com recursos da poupança, sobre uma base de cerca de R$ 370 bilhões em 2025.
Esse movimento também tende a ser favorecido pela redução de 5 pontos percentuais nos recolhimentos compulsórios dos bancos, que partiram de 20%. Na prática, a mudança libera espaço para maior oferta de financiamento e pode aliviar parte da pressão sobre o funding do setor.
O que o cenário indica para as construtoras
O ambiente segue construtivo para as empresas de incorporação residencial, sobretudo as mais expostas ao segmento de baixa renda. O avanço dos desembolsos com recursos do FGTS, a aceleração da Faixa 4 e a perspectiva de orçamento recorde para habitação em 2026 formam uma combinação positiva para vendas, lançamentos e execução de projetos.
Ao mesmo tempo, a perda de fôlego da poupança ainda impõe cautela no segmento de média e alta renda. Ainda assim, a retomada do crédito à construção e a maior disposição da Caixa para expandir a carteira ajudam a reduzir parte desse risco.
Em resumo, o fluxo de recursos para habitação continua robusto. Por isso, o setor entra em 2026 com fundamentos melhores, especialmente para as construtoras com presença relevante nos programas habitacionais e maior exposição à demanda de renda mais baixa.